Agora que se espera que o mundo ultrapasse o limite de aquecimento de 1,5 °C, os pequenos Estados insulares aumentam seu temor de que se torne realidade aquilo que durante anos foi considerado uma linha de sua sobrevivência.

Para os habitantes do Caribe, do Pacífico e do oceano Índico, as consequências não ocorrerão apenas quando as ilhas desaparecerem sob o mar, mas estarão cada vez mais presentes muito antes disso.
Elas incluem a intrusão de água salgada nas fontes de água doce e nas terras agrícolas, a perda dos recifes de coral, inundações costeiras cada vez mais prejudiciais e uma pressão crescente sobre os recursos, já limitados, destinados à recuperação e à adaptação.
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Essa é a contundente advertência que surge do relatório Limiting Overshoot (Limitação da ultrapassagem), do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), apresentado em 2 de setembro.
O relatório analisa um futuro no qual as temperaturas médias mundiais aumentam acima de 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais e posteriormente poderiam voltar a cair.
O relatório conclui que agora se espera que o mundo ultrapasse o limite de 1,5 °C. O que ainda não está claro é quanto as temperaturas subirão acima desse nível, quanto tempo permanecerão lá e com que rapidez poderão voltar a cair.
Shobha Maharaj, renomada cientista caribenha e uma das principais autoras do capítulo quatro do relatório, afirma que a ultrapassagem prevista levanta uma nova série de questões para os pequenos Estados insulares.
“Durante anos, o objetivo foi evitar ultrapassar os 1,5 °C. Mas este relatório agora diz muito claramente que vamos ultrapassá-los”, afirmou em entrevista à IPS, a partir de Castries, capital de Santa Lúcia.
Acrescentou que “a pergunta agora é até onde essa ultrapassagem chegará, quanto tempo durará e como atravessaremos esse período enquanto trabalhamos para reduzir novamente as temperaturas para 1,5 °C”.
Sem margem
O Acordo de Paris, aprovado em 2015 na 21ª Conferência das Partes (COP21) sobre mudanças climáticas, comprometeu os países a realizar esforços para limitar o aquecimento a 1,5 °C.
Os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, os Peid, estiveram entre os principais defensores desse objetivo, sustentando que níveis mais elevados de aquecimento representariam uma ameaça existencial.
“Para as pequenas ilhas, isso acontece porque vivemos mais perto dos limites”, explicou Maharaj, nascida em Trinidad e Tobago e reconhecida mundialmente nos debates climáticos como uma respeitada voz do Caribe, dos pequenos Estados insulares e de todo o Sul Global.
Detalhou que “em um país rico e temperado, meio grau adicional de aquecimento continuaria tendo custos importantes. Mas, em uma pequena ilha, isso poderia determinar se um recife se recuperará ou não, ou se um aquífero permanecerá doce ou se tornará salgado para sempre”.
“Não há terrenos mais altos para onde se mudar, nem grandes reservas financeiras às quais recorrer, nem um segundo recife quando um deles morre”, acrescentou.
O perigo não se limita aos desastres espetaculares, afirmou. A habitabilidade pode se deteriorar silenciosamente.
“A água salgada pode contaminar as águas subterrâneas e o solo. Uma horta que alimentou uma família durante gerações pode deixar de produzir. As marés altas podem chegar às estradas, às moradias e à infraestrutura pública mesmo em dias ensolarados”, explicou Maharaj, formada na Universidade das Índias Ocidentais, em Trinidad e Tobago, e na Universidade de Oxford, no Reino Unido.
Lembrou que “quando os recifes morrem, as comunidades não apenas perdem as receitas provenientes da pesca e do turismo, mas também as barreiras naturais que enfraquecem as ondas antes que elas cheguem à costa”.
“Nada disso exige que uma ilha desapareça”, afirmou Maharaj. “A habitabilidade começa a entrar em colapso primeiro de maneira silenciosa, por meio da água, dos alimentos e da perda das coisas cotidianas que fazem de um lugar um lar. Quando a submersão se torna notícia, muitas pessoas já foram obrigadas a partir”, explicou.
O relatório do Pnuma adverte que o aumento do nível do mar continuará durante séculos e que a queda das temperaturas mundiais não reverterá todos os danos acumulados durante o período de ultrapassagem.
Algumas perdas de ecossistemas, biodiversidade e geleiras persistirão, o que significa que voltar a 1,5 °C não permitirá recuperar o mundo que existia antes de cruzar esse limite.
Pequenas ilhas, diferentes realidades
Os Peid costumam ser considerados como um único grupo, mas Maharaj advertiu que suas circunstâncias e opções são diferentes.
Os Estados insulares de atóis do Pacífico enfrentam graves ameaças devido à sua baixa altitude e à vulnerabilidade de suas reservas de água doce. Algumas ilhas do Pacífico também estão passando por subsidência do terreno, o que agrava os efeitos do aumento do nível do mar.
Vários Estados do Caribe possuem terrenos mais elevados, mas grande parte de sua população, infraestrutura e atividade econômica está concentrada em estreitas zonas costeiras. Os Estados do oceano Índico enfrentam sua própria combinação de riscos.
“O que compartilhamos é uma situação estruturalmente difícil, com pouca margem para recuar, recursos financeiros limitados e economias expostas a impactos isolados”, afirmou Maharaj.
Mas advertiu que as mesmas soluções não devem ser aplicadas indiscriminadamente de uma região para outra.
“A resposta adequada em Tuvalu, por exemplo, não é automaticamente a adequada em Barbados ou nas Maldivas”, ressaltou.
A adaptação compra tempo, não imunidade
Durante décadas, a adaptação foi apresentada como a principal defesa dos países que já enfrentam os efeitos das mudanças climáticas. No entanto, o relatório do Pnuma aponta que muitas das abordagens existentes foram concebidas para um aquecimento gradual e unidirecional, e não para temperaturas que aumentam, se estabilizam e eventualmente podem cair.
As estratégias concebidas para um conjunto fixo de condições podem perder eficácia ou até mesmo aumentar a vulnerabilidade à medida que as condições mudem. Em contrapartida, o relatório propõe uma adaptação flexível, orientada para o futuro e capaz de evoluir ao longo das diferentes etapas do período de ultrapassagem.
“A adaptação compra tempo, não imunidade”, afirmou Maharaj.
Ela destacou que a grande lacuna entre o planejamento e a implementação de medidas de adaptação poderia oferecer uma estreita oportunidade para revisar os projetos antes que sejam construídos para condições que já não serão capazes de suportar.
“Temos muitos planos, mas muitos deles ainda não foram implementados”, afirmou. “Isso nos dá uma oportunidade, embora não muito grande, de ajustar esses planos para um mundo no qual os 1,5 °C tenham sido ultrapassados”, acrescentou.
Essa mudança exigirá financiamento antes que os desastres ocorram.
Muitos países em desenvolvimento já tentam se adaptar, recuperar-se de fenômenos extremos, transformar suas economias e reduzir as emissões enquanto enfrentam uma pesada carga de dívida.
O financiamento climático, destacou Maharaj, chega lentamente demais e frequentemente é concedido por meio de empréstimos que aumentam essa carga.
“Um desastre absorve recursos públicos destinados à resposta de emergência e à reconstrução”, afirmou.
E acrescentou: “Isso deixa menos dinheiro para reduzir os riscos impostos pelo próximo evento, que então atinge um país enfraquecido com maior força. Cada volta dessa roda reduz a capacidade de que precisamos justamente para sair dela”.
Romper esse ciclo exigirá subsídios, financiamento antecipado e investimentos em prevenção, em vez de financiar repetidamente a reconstrução após as perdas.
Uma injustiça mais profunda
A ultrapassagem também levanta questões sobre a justiça climática, particularmente para os países com pouca responsabilidade histórica pelas emissões que impulsionam o aquecimento.
“Os danos que se concentram durante esse período, especialmente aqueles que são irreversíveis, recaem com maior intensidade sobre os países menos responsáveis pelas emissões que os provocaram”, afirmou Maharaj.
Maharaj destacou que contribuir para o relatório teve um peso particular para ela como cientista caribenha.
“Para aqueles de nós que somos dessas ilhas, 1,5 °C nunca foi simplesmente um número em um gráfico. Era a linha que nos disseram que representava a sobrevivência. Era a linha na qual nos disseram que a sobrevivência ainda era possível”, afirmou.
“Agora, ajudar a escrever a ciência sobre o que existe além dessa linha é algo difícil de assumir, tanto pessoal quanto profissionalmente”, reconheceu.
Ultrapassar os 1,5 °C, afirmou, representa “um profundo fracasso da vontade coletiva”, mas não significa que seja preciso desistir.
“Até onde o pico chegará, quanto tempo permaneceremos lá e com que rapidez voltaremos a reduzir as temperaturas são decisões que ainda estão em nossas mãos”, afirmou Maharaj.
E considerou: “Cada uma dessas decisões será medida em vidas e meios de subsistência aqui, em nossa região, e nas pequenas ilhas de todo o mundo”.
Para as pequenas ilhas, limitar a ultrapassagem poderia significar a diferença entre perdas crescentes e a possibilidade de preservar os lugares que as pessoas chamam de lar.
