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Netanyahu discursa na ONU sob protestos, êxodo de delegados e pressão por Gaza Diálogos do Sul Global

Durante o discurso de Benjamin Netanyahu, a maioria dos delegados dos 193 países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU) abandonou o grande salão da Assembleia Geral quando o primeiro-ministro de Israel subiu à tribuna, enquanto, nas ruas, os coros dos manifestantes contra o genocídio em Gaza podiam ser ouvidos dentro da sede da organização mundial.

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Benjamin Netanyahu – wikipedia

“Não à guerra, não ao ICE [em referência à agência de controle migratório], Palestina livre”, gritavam centenas de manifestantes depois de ocuparem algumas das ruas próximas à sede da ONU em protesto contra a presença do fugitivo da Corte Penal Internacional.

Mais de cem foram presos por bloquear acessos em um ato de desobediência civil, entre eles as atrizes Susan Sarandon e Hannah Einbinder — que declarou que aquilo que Netanyahu representa é contrário à sua fé judaica — e a ex-militar dissidente Chelsea Manning, além de alguns políticos locais. Poucas horas depois, chegou outra marcha, talvez com mais 2 mil pessoas, encabeçada pelas Vozes Judaicas pela Paz e pelo Movimento da Juventude Palestina, entre outras organizações sociais, para se somar ao protesto.

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Horas antes, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, expressou sua gratidão aos 160 Estados-membros que reconheceram o Estado da Palestina e declarou: “Não abandonaremos nossa terra. Não aceitaremos o deslocamento. Não permitiremos que ninguém decida nosso futuro em nosso nome”, diante de uma ovação de pé.

Abbas, que foi obrigado a discursar perante a Assembleia Geral por vídeo porque o governo de Donald Trump — violando o acordo com a ONU — lhe negou o visto para comparecer, lembrou aos delegados que havia elogiado o plano de 20 pontos proposto pelo mandatário estadunidense e aprovado pelo Conselho de Segurança. Denunciou que “os assassinatos e as agressões israelenses continuam ceifando as vidas de mulheres, crianças e homens palestinos em Gaza”. As ações de Israel, sustentou, são uma “ameaça direta à vida e à existência do povo palestino em suas terras”.

O movimento cada vez mais amplo contra a cumplicidade dos Estados Unidos com Israel no genocídio em Gaza, assim como a solidariedade com o povo palestino, ficou evidente nas marchas pelas ruas, que contaram com a participação de estudantes, professores, veteranos de guerra, religiosos — havia manifestações de cristãos, judeus, tanto seculares como integrantes de uma seita ortodoxa antissionista, e muçulmanos — e ativistas políticos de diversas correntes, unidos por uma única mensagem de condenação a “um criminoso de guerra em nossa cidade”.

O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani — que foi diretamente atacado por Netanyahu, tanto da tribuna como há alguns dias, quando o acusou de antissemita e simpatizante de “terroristas” —, defendeu a prisão do mandatário israelense por crimes de guerra, em cumprimento à ordem da Corte Penal Internacional. Na noite passada, esteve com palestinos obrigados a fugir de Gaza e, juntos, plantaram uma oliveira na residência oficial do prefeito.

Ao comentar o que Netanyahu disse a seu respeito da tribuna — talvez a primeira vez que um mandatário estrangeiro atacou nominalmente um prefeito estadunidense —, Mamdani respondeu que o primeiro-ministro estava propagando “mentiras sem fundamento para dar uma aparência asséptica ao genocídio do povo palestino”.

Embora especialistas jurídicos consultados por Mamdani tenham lhe informado que ele não tinha autoridade legal para prender Netanyahu — já que o cumprimento da legislação internacional é responsabilidade das autoridades federais —, a atenção provocada pela visita do mandatário, juntamente com os protestos e outras manifestações da opinião pública contra ele, aparentemente levou o dirigente israelense a reduzir uma viagem de vários dias a apenas algumas horas.

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A delegação brasileira deixa o plenario da ONU – Reprodução: Twitter X

Sua chegada à Assembleia Geral não foi diplomática. Ao subir à tribuna, ouviram-se gritos de repúdio, e Netanyahu teve de esperar vários minutos enquanto observava o êxodo de delegados de dezenas de países que deixaram o recinto em protesto.

Estados Unidos, vários países europeus, Panamá e Paraguai, entre outros, permaneceram sentados em um grande salão semivazio. As primeiras palavras de Netanyahu foram para acusar aqueles que haviam saído de “covardes morais” e “hipócritas”.

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Quase todo o seu discurso foi uma justificativa da guerra contra “os bárbaros” e os “terroristas” que ameaçam seu país, e declarou que “acusar Israel de genocídio é a maior mentira do século”.

Defendeu as Forças de Defesa de Israel, afirmando que são “o Exército mais moral do mundo”, e os colonos israelenses, proclamando que não apenas não houve genocídio como, ao contrário, Israel impediu um genocídio.

“Não temos amigo maior que o presidente Trump, e lhe agradecemos”, declarou o primeiro-ministro em um discurso que deixou claro que Israel não tem nenhuma intenção de aceitar um Estado democrático no qual todos tenham direito ao voto, nem de se retirar da Cisjordânia e de Gaza. Proclamou que a guerra conjunta de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã foi para “salvar a civilização” e chamou repetidamente de “bárbaros” os inimigos de seu país.

Enquanto tentou inverter a narrativa, apresentando Israel como o grande guardião da civilização e aquele que protege a todos dos “bárbaros”, Netanyahu deixou a tribuna como chefe de um Estado cada vez mais isolado e repudiado nas ruas e na sede da comunidade internacional. Entretanto, seu discurso foi dedicado, na verdade, a seu grande aliado Trump e às suas bases em Israel, onde enfrenta o risco de uma derrota nas eleições programadas para o fim de outubro, que poderiam pôr fim à sua carreira política.

Sua fragilidade é ainda mais marcada pela erosão do apoio entre as comunidades judaicas nos Estados Unidos, assim como pelo fato de não ter sido outro chefe de Estado, mas um prefeito, quem provocou uma mudança no debate neste país. Em uma entrevista de rádio na quarta-feira, perguntaram ao secretário de Estado Marco Rubio sobre a ameaça do prefeito de prender Netanyahu pelas acusações formuladas pela Corte Penal Internacional.

“Ele gostaria de fazê-lo, mas não fará. Não tem capacidade nem autoridade legal”, respondeu.

Nos bastidores, entretanto, Rubio e a delegação estadunidense têm se dedicado a pressionar outros governos para que se retirem da Corte Penal Internacional e já deixaram vazar que pretendem impor novas sanções contra essa entidade multilateral. A Venezuela retirou-se da CPI, e a Colômbia notificou o tribunal de que está retirando seu apoio à solicitação apresentada pela África do Sul para que o governo israelense seja processado penalmente por genocídio em Gaza.

Os Estados Unidos não reconhecem a autoridade judicial da CPI, mas obviamente temem sua autoridade moral e o risco de que seus aliados sejam processados.

Por alguma razão, Netanyahu tinha pressa em regressar a seu país, e seus anfitriões não tentaram convencê-lo a permanecer por mais tempo. O velho recurso do governo israelense de equiparar as críticas a seu país ao antissemitismo deixou de funcionar. Pela primeira vez, Israel já não conta com o amplo e incondicional apoio de que antes desfrutava neste país, inclusive entre as comunidades judaicas, e menos ainda perante a chamada comunidade mundial.

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