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Víctor Jara: enquanto a Operação Condor espalhava terror, uma rede clandestina levava a voz do lider chileno ao mundo

Um testemunho pessoal que reconstrói o heroísmo anônimo de quem, com lápis e transmissores, enfrentou o terror.

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Víctor Jara – wikipedia

“Capturam no Chile militar prófugo pelo assassinato de Víctor Jara. O ex oficial Nelson Haase Mazzei entrou na prisão para cumprir uma condenação de 25 anos, depois de ser localizado em uma zona rural da região de Los Lagos”.

A notícia, no portal de Telesur, me comoveu e a memória de uma gesta desconhecida, as ações de contraespionagem frente à Operação Condor, voltou a minha mente. Para resgatá-la e para homenagear seus protagonistas, quase todos tão heroicos como anônimos.

Assassinato de Víctor Jara, um crime pelo qual o Chile ainda chora

Foi em algum momento de outubro ou novembro de 1973, quando, com apenas 21 anos, recebi uma de tantas cartas que chegavam a um “buzón” (caixa de correio clandestina) de correio com envios do Chile, a poucas semanas do golpe que derrubara Salvador Allende.

Entre as minhas mãos, datilografadas em um papel tipo manifold, leio uma primeira estrofe:

Somos cinco mil aqui.

Nesta pequena parte da cidade.

Somos cinco mil.

Estremecido, estava diante do último poema de Víctor Jara, que como já sabíamos, fora assassinado no campo de extermínio que o pinochetismo organizou no Estádio Nacional, em Santiago do Chile.

Muito depois também saberíamos que em 15 de setembro de 1973 pediu a seu companheiro Boris Navia um lápis e um papel, e horas antes de ser assassinado conseguiu entregar-lhe “Somos cinco mil no Estádio Chile”.

Seu corpo foi identificado dias depois na morgue por sua companheira Joan Turner Jara: de acordo com posteriores peritagens, recebera 44 tiros e apresentava 56 fraturas ósseas.

DE BUENOS AIRES A MOSCOU

Semana a semana, ainda em períodos de legalidade, chegavam a uma sólida e clandestina cadeia de “buzones” os envios do Chile e de outros países sob ditaduras no Cone Sul. Algumas vezes a uma caixa postal no antigo Correio Central, neste caso a Caballito, na rua Emilio Mitre, a casa da família Sosto, mãe e filhos comprometidos com a solidariedade com o povo chileno.

Um ou dois dias depois, de forma simultânea por Rádio Moscou, dava a conhecer a morte de Victor Jara o escritor chileno José Miguel Varas no programa Escuta Chile, e Arturo Lozza, que conduzia A semana argentina. A repercussão foi imediata em Rádio Praga, Rádio Berlim e depois em boa parte da imprensa ocidental.

Este esquema de envios informativos foi vital para desmascarar as ditaduras regionais, e informar e promover a solidariedade internacional com as vítimas do chamado “Plano Condor”.

NAS GARRAS DO CONDOR

O jornalista e escritor soviético Valentín Mashkin, com quem em 1979 me entrevistaria em Moscou por intermédio de meu irmão, Rodolfo, foi o primeiro autor que sistematizou e revelou ao mundo, com fundamentada informação, a coordenação criminosa das ditaduras do Cone Sul nos anos ’70, a chamada “Operação Condor”.

Este trabalho foi aprofundado e completado por Stella Calloni em uma investigação publicada em 1999, que inclui desde testemunhos do Nunca Mais, até as provas dos “arquivos do terror“, no Paraguai, documentos oficiais descobertos graças a uma temerária investigação do escritor, poeta, advogado e Prêmio Nobel Alternativo Martín Almada.

Homenaje a Stella Calloni en FOETRA Participamos de esta jornada junto con  referentes políticos y sindicales, escritores, periodistas y muchos  compañeros y compañeras. Escuchamos las palabras de Stella, siempre tan  necesarias. Ella
Stella Calloni – Reprodução

Pouco antes, em 1998, apareceram provas contundentes da cumplicidade das ditaduras e do apoio estadunidense, com a desclassificação parcial de documentos dos Estados Unidos.

Pouco conhecida é, no entanto, a contraofensiva realizada clandestinamente contra o Condor.

Foi um meticuloso trabalho dos serviços de inteligência da então União Soviética, alimentados em grande parte pelo que foi chamado “Córdoba 652, 11 E”, rua, número, andar e apartamento onde, desde os anos 60, coordenaram-se os esforços de recompilação das denúncias e a solidariedade frente ao cerco de ditaduras que ia se fechando sobre o Cone Sul.

Os nomes daquela incrível epopeia? Isidoro Gilbert, correspondente da Agência TASS, que foi a “cobertura” desta estrutura que agrupou as  agências de notícias dos então “países socialistas”, assim como de matutinos de grande impacto europeu como L’Unitá, L’Humanité, Neues Deutschland; Arturo Lozza; Rodolfo Nadra; Adolfo Coronato; e eu mesmo, o “mascote” da equipe, até que me destinaram a Prensa Latina depois do golpe de 1976, com o que criamos, de fato, outra agência e outra via de transmissão para o exterior.

E, conosco, paraguaios, como o escritor e poeta Elvio Romero; chilenos, como José Madlavske, Enrique Martini, e Luis “Lucho” Córdoba; e Nicko Scwartz, anos depois embaixador uruguaio no Vietnam. Gilbert foi o “responsável político” de Córdoba 652. Nesse caráter há muitíssimas histórias, dados e diretrizes que jamais nos contou, nem devia contar. Nós sempre o aceitamos, pois era o chefe.

Curioso é que ele tampouco soube que alguns de nós também conhecíamos outros dados, estabelecíamos outras relações e recebíamos outras diretrizes – que expressamente não contradiziam as que ele recebia, simplesmente eram outras – mas que se cumpriam em estrito segredo, em primeiro lugar, para o próprio Isidoro.

Eram, ainda que não o soubéssemos cabalmente, os anos em que fomos atrás das garras do Condor.

UM RASTRO SANGRENTO

Horroriza hoje – a mais de 40 anos dos fatos – repassar as ações da Operação Condor, dirigida pela CIA de George Bush (pai) e pelo secretário Henry Kissinger, com sicários cubanos da antiga OAS francesa ou da Tríplice A nativa, todos a seu serviço.

O Chile, mediante o golpe organizado pelos Estados Unidos, se torna peça chave e se une aos regimes sangrentos de Paraguai, Brasil, Bolívia, Uruguai e – antes e depois – às distintas ditaduras argentinas.

Sob sua coordenação, as Forças Armadas do Cone Sul concretizaram o crime do ex-presidente boliviano Juan José Torres em 2 de junho de 1976; os do ex-chefe do Exército do Chile, general Carlos Prats, e sua esposa, Sofía Cuthbert – em 30 de outubro de 1974 – e o sequestro, tortura e morte dos ex legisladores Zelmar Michellini e Héctor Gutiérrez Ruiz, em 21 de maio de 1976. Todos cometidos en Buenos Aires, durante o governo de Isabel Perón primeiro e sob a ditadura depois.

Também planejaram e concretizaram – nada menos do que no território dos Estados Unidos – o assassinato de Orlando Letelier, ex-ministro e embaixador de Allende, e sua secretária, com a ativa participação do agente da CIA Michael Townley, em 21 de setembro de 1976; assim como o brutal atentado contra o voo CU-455 da Cubana de Aviação, sobre a ilha de Barbados, em que perderam a vida 73 pessoas, em 6 de outubro de 1976.

Houve tentativas fracassadas em 1975. Tal é o caso do vice-presidente chileno Bernardo Leighton na Itália, do socialista Carlos Altamirano e do comunista Volodia Teitelboim. Há ainda outras mortes suspeitas na lista, não provadas como assassinatos.

Entre elas a do presidente do Equador Jaime Roldós, e a do líder panamenho Omar Torrijos, considerados “perigosos” pelos Estados Unidos, e ambos vítimas de “acidentes” aéreos em 1981.

Em outubro de 2011, aberto novamente na Argentina o caminho para a Memória, a Verdade e a Justiça, Sergio López Burgos – sobrevivente uruguaio da Operação Condor e ex preso de Automotores Orletti – denunciou penalmente ante a justiça argentina uma centena de funcionários civis e militares de seu país por sua participação na coordenação do plano de repressão ilegal.

Todos eles fazem parte da legião de milhares – milhares – de homens e mulheres sequestrados, cada um deles com seu nome e sobrenome, sua família, sua história, que em diferentes terras foram torturados barbaramente, e “remetidos” a seus países de origem; finalmente foram assassinados em sua maior parte.

O “rastro sangrento do Condor” – como dizia Mashkin – é impossível de seguir em algumas linhas, mas pode insinuar-se ao relatar que, em 1992, o juiz paraguaio José Fernández e o advogado, pedagogo e vítima de Stroessner, Martín Almada, descobriram os chamados «arquivos do terror.

Desta forma ficou provado, com documentação de seus autores, o plano sistemático de perseguição e eliminação dos adversários políticos -comunistas, socialistas e esquerdistas (com um sentido amplíssimo do termo) – independentemente das fronteiras nacionais.

Há duas maneiras de perceber a magnitude do horror. Uma, pelas -literalmente – quatro toneladas de fichas de detenção, gravações e fotos de torturas, registro de prisões e transferência entre os países integrantes.

E outra, apavorante, porque estas toneladas de documentação permitem provar pelo menos os casos de 50 mil pessoas assassinadas, 30 mil desaparecidos e 400 mil encarcerados.

Frente a esta imensidade de dor, as palavras de Víctor Jara, escritas na véspera de sua própria morte, soam hoje com uma vigência estremecedora. É o grito dos cinco mil, que são na realidade, todos.

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