Após os terremotos, agências transformaram a pressão sobre hospitais em acusação contra Caracas, ignorando que o bloqueio dos EUA já restringia petróleo, remédios, vacinas e equipamentos
Para compreender o que está acontecendo na Venezuela após a sequência de dois terremotos no dia 24 de junho, é necessário situar o contexto econômico e social em que a tragédia ocorreu.
Reportagens de agências internacionais e de alguns meios de comunicação locais destacam o colapso dos serviços de saúde durante as primeiras horas da emergência e, em particular, a difícil situação vivida no estado de La Guaira, que concentra o maior número de vítimas.
São apontadas falhas e descontroles atribuídos à incompetência do governo venezuelano.
No entanto, convém observar a realidade. Até 28 de junho, a situação nas emergências dos 15 hospitais públicos de Caracas apresentava um cenário de contingência, mas estava longe do pandemônio descrito por algumas reportagens.
Além disso, uma centena de clínicas privadas, com equipamentos em condições ideais, foi imediatamente mobilizada sob coordenação do governo para receber gratuitamente pacientes afetados pela emergência.
Desde o fim de semana, a situação em La Guaira vem sendo atendida por hospitais de campanha instalados no local pelo Exército venezuelano e por brigadas internacionais. O envio de feridos para a capital já não é tão intenso quanto nas primeiras horas.
O petróleo é sempre fundamental
Embora as narrativas da mídia tendam a exagerar, é verdade que o sistema público de saúde venezuelano foi surpreendido pelos terremotos em condições difíceis. E toda análise deve começar pelo petróleo.

A indústria petrolífera, historicamente responsável por 97% das receitas nacionais, está há 11 anos sob sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos, que, nos últimos sete anos, intensificou o bloqueio a todas as operações de venda de hidrocarbonetos.
Mesmo após o último dia 3 de janeiro, quando Washington bombardeou três cidades venezuelanas, incluindo Caracas e La Guaira, para sequestrar o presidente Nicolás Maduro e, em seguida, estabelecer uma relação de força com o governo encarregado, as sanções permanecem em vigor.
Esse dado é importante para compreender por que a Venezuela convive há anos com um sistema público de saúde que não alcança condições ideais, mas que não deixou de funcionar nem de atender a população.
William Castillo, vice-ministro de Políticas Antibloqueio do governo da Venezuela, explicou ao La Jornada como o bloqueio dos Estados Unidos afeta a área da saúde.
“O impacto sobre as receitas do Estado foi rapidamente transferido para a sociedade. Por quê? Porque a Venezuela é um país que investe, em média, entre 77% e 80% de sua receita em programas sociais: saúde e educação públicas, assistência social às comunidades mais vulneráveis, aos idosos, programas para crianças e adolescentes.
Um país que destina quase 80% de seu orçamento anual a essas áreas e vê esse orçamento ser reduzido em mais de 90%, evidentemente sofrerá um impacto muito grande em todos os serviços públicos e serviços sociais.”
Um sistema bloqueado
Da mesma forma, a impossibilidade de pagar no exterior por equipamentos de turbinas para os sistemas elétrico e de abastecimento de água provocou uma forte queda na qualidade e no alcance dos serviços de saúde.
O congelamento de recursos no sistema financeiro internacional, que chegou a atingir 30 bilhões de dólares, segundo o Observatório Venezuelano Antibloqueio, provocou escassez de marca-passos, bem como de medicamentos de alto custo para tratar pacientes com câncer, HIV e diabetes. “Houve bloqueio à importação de vacinas antes e durante a pandemia, o que impactou os indicadores de saúde”, afirmou.
A Venezuela voltou recentemente a ser um país livre do sarampo, depois que o bloqueio fez o país perder essa classificação por não conseguir importar as vacinas.
Foi nessas condições que o país enfrentou os dois terremotos da última quarta-feira. Foi um golpe enorme.

