A coluna CAFÉ COM VODKA é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil) em parceria com a Diálogos do Sul Global.
Os cossacos sempre ocuparam um lugar especial na história da Rússia. Foram eles que protegeram as fronteiras do país, participaram de longas campanhas militares, exploraram a Sibéria e o Cáucaso, serviram aos czares, mas ao mesmo tempo preservaram sua liberdade, suas canções e antigas tradições. A vida deles era dura, porém livre. No Don, região cossaca ao sul da Rússia, existe o ditado: “Um cossaco sem vontade é como um cavalo sem sela”.
O próprio nome “cossacos” deriva das línguas túrquicas e significa “homem livre”, designando um grupo etnicamente heterogêneo que se desenvolveu em comunidades autônomas baseadas na tradição guerreira, na vida coletiva e, posteriormente, na defesa das fronteiras do Estado russo, tornando-se uma força militar importante deste Império. A partir do século XVI, os cossacos passaram a organizar-se em comunidades militares e agrícolas autônomas, sobretudo nas estepes ao longo dos rios Don, Ural e Terek.

À primeira vista, pode parecer que não existe nenhuma ligação entre os cossacos e o distante Brasil. Afinal, o que as estepes do Don têm em comum com os trópicos, o café e o oceano? Mas a história decidiu de outra forma. Depois da Revolução de 1917 e da Guerra Civil Russa, milhares de russos acabaram espalhados pelo mundo inteiro. Entre esses imigrantes também estavam os cossacos. Alguns partiram pela Crimeia, outros pelos Bálcãs, e alguns chegaram até a América do Sul.
Após a Guerra Civil, muitos cossacos perderam não apenas a pátria, mas também o modo de vida ao qual estavam acostumados. Os antigos costumavam dizer: “Onde há um cossaco, há glória”. Porém, no exílio pouco restara das conquistas de outrora; era preciso começar tudo do zero. Entre as décadas de 1920 e 1950, pequenos grupos de famílias cossacas se mudaram para o Brasil. Naquela época, muitos imigrantes russos chegaram aos estados do sul do país – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
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A vida ali era completamente diferente das paisagens do Don. Em vez das estepes conhecidas, encontraram a Mata Atlântica e os pampas gaúchos. No lugar dos invernos frios, calor e chuvas fortes. Mesmo assim, os cossacos sabiam se adaptar. Muitos trabalhavam na agricultura, cultivando café, milho e tabaco, além da criação de gado. E, mesmo em novas condições, continuavam preservando seus costumes. À noite, as famílias se reuniam para cantar músicas antigas e recordar a terra natal. Pois “a alma cossaca não é água; ela não desaparece na terra”.
O grande escritor e vencedor do Prêmio Nobel Mikhail Sholokhov escreveu no romance O Don Silencioso: “Os cossacos nasceram da terra, como a grama da estepe”. Nessas palavras está todo o espírito cossaco: a ligação com a terra natal, a resistência e a força interior.

A fé ortodoxa ocupava um lugar importante na vida dos imigrantes. Nas paróquias russas do Brasil, os cossacos tentavam permanecer unidos. Batizavam os filhos segundo as antigas tradições, comemoravam festas religiosas e ensinavam a língua russa aos jovens. Para muitos, a memória da pátria se tornou quase sagrada.
Sholokhov expressou muito bem esse sentimento em seu romance ao afirmar: “Por mais que a árvore se curve, suas raízes continuam presas à terra”. Assim também eram os cossacos: mesmo vivendo do outro lado do oceano, continuavam ligados espiritualmente à Rússia.
Poderíamos comparar o estilo de vida cossaco ao dos gaúchos, isto é, os cavaleiros e pastores da América do Sul. E realmente havia algo em comum entre eles: o amor pelos cavalos, pelas armas, pela liberdade e pelos grandes espaços abertos. Tanto os cossacos quanto os gaúchos eram vistos como homens da estepe, acostumados a viver de acordo com suas próprias regras.
Com o passar do tempo, muitos descendentes de cossacos acabaram totalmente integrados à sociedade brasileira. Alguns deixaram de falar russo, outros perderam antigas tradições. Mesmo assim, a memória de suas origens permaneceu viva nas famílias, nos rituais religiosos e nas histórias contadas pelos mais velhos.
A história dos cossacos no Brasil não é a história de grandes exércitos e batalhas famosas. É a história de pessoas que o destino levou para muito longe de casa. Porém, mesmo do outro lado do mundo, eles tentaram preservar aquilo que consideravam mais importante: a fé, a memória dos antepassados e a dignidade. Como diziam os cossacos: “um cossaco prefere morrer a apagar da memória sua terra natal”.

