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Gás, rotas e BRICS: Irã e Paquistão desenham integração econômica islâmica Diálogos do Sul Global

Em um momento de fortalecimento dos Brics e da cooperação entre países do Sul Global, o presidente do Irã, Masud Pezeshkian, chegou nesta terça-feira a Islamabad à frente de uma delegação de alto nível integrada pelos ministros do Interior, dos Assuntos Exteriores, de Estradas e Desenvolvimento Urbano e da Agricultura.

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Masoud Pezeshkian – wikipedia

A visita de um dia ocorre em um momento em que as relações entre Teerã e Islamabad transcenderam os tradicionais vínculos de vizinhança para adquirir uma dimensão de convergência estratégica em áreas como o trânsito comercial, a energia e a segurança fronteiriça.

O que distingue esta visita de encontros anteriores é o novo contexto geopolítico surgido em torno das negociações entre Irã e Estados Unidos, nas quais o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, e o chefe do Exército, marechal de campo Asim Munir, participaram pessoalmente, na Suíça, como mediadores centrais.

Com a visita do presidente Pezeshkian, o Irã envia o sinal de que Islamabad se tornou um ator politicamente comprometido com o resultado desse processo.

O Paquistão abriu suas rotas terrestres de trânsito ao transporte comercial iraniano quando os portos do Irã se encontravam submetidos a um bloqueio naval estadunidense, tornando-se, de fato, um salva-vidas para a economia iraniana.

O Ministério do Comércio do Paquistão, invocando o Acordo de Transporte por Estrada de 2008, autorizou o trânsito de mercadorias iranianas por seis corredores terrestres que conectam o porto de Karachi às passagens fronteiriças de Gabd-Rimdan e Taftan.

Essas rotas, praticamente inativas durante quase duas décadas, passaram repentinamente a ser artérias essenciais para o comércio iraniano. Segundo estimativas da Câmara de Comércio do Irã, em maio já haviam transitado por elas aproximadamente 20 mil contêineres.

A visita de Pezeshkian a Islamabad ocorre em um momento em que o Paquistão deixou de ser simplesmente um vizinho oriental para tornar-se um parceiro estratégico e um pilar geopolítico para o Irã.

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Fronteira Irão–Paquistão – wikipedia

Irã e Paquistão compartilham uma fronteira de 900 quilômetros; no entanto, o comércio bilateral manteve-se historicamente muito abaixo de seu potencial. Atualmente, ambos os governos parecem decididos a modificar essa tendência.

As conversas mantidas durante a visita concentram-se em ampliar os intercâmbios comerciais até alcançar a meta de 10 bilhões de dólares, institucionalizar os mercados fronteiriços e reduzir os obstáculos existentes nos sistemas alfandegários e logísticos. O enfoque está cada vez mais voltado para o futuro.

Durante sua reunião prévia em Teerã, em 17 de maio de 2025, o ministro do Interior do Paquistão, Mohsin Naqvi, e o presidente Pezeshkian abordaram a criação de novas rotas de trânsito, a segurança fronteiriça e o mecanismo de permuta comercial.

O embaixador iraniano em Islamabad, Mohamad Ali Hoseini, declarou explicitamente que o sistema de permuta constitui um mecanismo eficaz para contornar as sanções e ampliar o comércio, indicando que ambos os países concordaram em estabelecer três novos mercados fronteiriços para impulsionar os intercâmbios.

O objetivo anunciado de elevar o comércio bilateral a 10 bilhões de dólares em um prazo de dois anos exige o cumprimento de condições fundamentais. Embora os números atuais mostrem um crescimento significativo, próximo de 3,2 bilhões de dólares, alcançar a meta proposta exigirá um salto qualitativo em infraestrutura e segurança.

Nesta visita, Pezeshkian busca não apenas abrir novas oportunidades econômicas imediatas, mas também institucionalizar os corredores Norte-Sul e Leste-Oeste, tendo o Paquistão como eixo articulador.

A cooperação energética constitui um dos pilares mais promissores desta renovada etapa de aproximação. A crescente demanda energética do Paquistão e as importantes reservas de gás natural do Irã geram uma complementaridade econômica natural.

O gasoduto Irã-Paquistão, paralisado durante três décadas devido às sanções, voltou à mesa de negociações depois da mudança do clima político e do anúncio estadunidense de uma isenção temporária de 60 dias das sanções ao setor petrolífero iraniano.

A fim de evitar uma possível penalização de 18 bilhões de dólares, o Paquistão iniciou a construção de um trecho de 80 quilômetros do gasoduto entre a fronteira iraniana e Gwadar. No novo contexto político, as possibilidades de concluir o projeto são maiores do que nunca.

Outro campo que vem ganhando renovada relevância é o desenvolvimento econômico das zonas fronteiriças. A fronteira entre Irã e Paquistão, especialmente na região do Baluquistão, permaneceu durante muito tempo subdesenvolvida do ponto de vista econômico, apesar de sua localização estratégica.

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O atual impulso diplomático favorece a expansão de mercados fronteiriços e de zonas especiais de comércio que poderiam formalizar atividades econômicas informais, gerar emprego e integrar as economias locais a cadeias de abastecimento mais amplas.

Além do comércio fronteiriço, também cresce o interesse pelos corredores regionais de conectividade. Ambos os países situam-se na encruzilhada da Ásia Meridional, da Ásia Ocidental e da Ásia Central, o que os torna participantes naturais de redes mais amplas de trânsito e logística.

O que torna particularmente notável a fase atual é o clima de otimismo que a cerca. A ênfase passou de acordos abstratos para mecanismos práticos, baseados em infraestrutura fronteiriça, coordenação logística e cooperação setorial específica.

Irã e Paquistão representam conjuntamente cerca de 350 milhões de pessoas e constituem dois dos Estados de maioria muçulmana mais bem posicionados estrategicamente na intersecção da Ásia Meridional, da Ásia Ocidental e da Ásia Central.

Sua aproximação evidencia uma mudança na forma como os países de maioria muçulmana concebem a integração regional: mediante uma interdependência econômica tangível, uma conectividade baseada em infraestrutura e marcos coordenados de segurança que transcendem as divisões sectárias.

O presidente Pezeshkian enquadrou explicitamente essa associação em uma visão mais ampla de solidariedade do mundo islâmico. Defendeu a expansão dos vínculos econômicos, científicos e culturais entre as nações islâmicas como uma necessidade imprescindível.

Também propôs revitalizar os históricos acordos econômicos trilaterais entre Irã, Paquistão e Turquia com um novo enfoque, sugerindo que a solidariedade entre os países islâmicos poderia constituir um modelo global diante da hegemonia das grandes potências, com Irã e Paquistão chamados a desempenhar um papel de liderança.

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Shehbaz Sharif – wikipedia

A liderança paquistanesa correspondeu a essa visão. O primeiro-ministro Shehbaz Sharif enfatizou que Paquistão e Irã, como nações muçulmanas irmãs, compartilham um firme compromisso com a paz mundial e a unidade da Umma islâmica.

Em encontros anteriores de alto nível, Sharif afirmou que o fortalecimento da cooperação entre Irã e Paquistão, como dois importantes países islâmicos da região, pode contribuir eficazmente para a solução dos problemas regionais.

Essa associação possui implicações sem precedentes para o mundo islâmico em diversas dimensões concretas.

Irã, com maioria xiita, e Paquistão, com uma população predominantemente sunita, estão construindo um modelo de cooperação que demonstra que os interesses econômicos e de segurança compartilhados podem prevalecer sobre as divisões confessionais.

A dimensão econômica transcende o comércio bilateral para abranger uma integração econômica islâmica mais ampla. O Irã conecta o Paquistão à Turquia, ao Azerbaijão e ao Cáucaso e, por meio dessas rotas, à Europa e à Eurásia, enquanto o Paquistão conecta o Irã à China e à Ásia Meridional.

As autoridades iranianas destacaram que essa conectividade busca criar uma nova ordem geoeconômica em que as nações de maioria muçulmana atuem como arquitetas ativas de sua própria integração.

O Irã apoiou a adesão do Paquistão ao Brics e trabalha na celebração de um acordo de livre comércio, iniciativas que reforçariam ainda mais essa associação dentro de marcos mais amplos de cooperação Sul-Sul.

Para o conjunto do mundo islâmico, essa associação oferece um modelo de como as nações de maioria muçulmana podem defender coletivamente seus interesses mediante a construção da infraestrutura econômica e de segurança necessária para atuar a partir de uma posição de força.

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