Depois de transformar o 250º aniversário dos EUA em culto à própria imagem, Trump usa vitórias socialistas democráticas para reacender o fantasma comunista e desviar do vexame no Espelho d’Água de Washington
Era uma vez um líder político tão obcecado por si mesmo (Trump) que quase caiu em seu próprio espelho d’água e só conseguiu se salvar de um possível afogamento político e de passar vergonha quando, de repente, apareceram os “comunistas”, que, segundo ele, representam a maior ameaça já vista nos 250 anos de existência deste país.
Entre as tentativas do mandatário de literalmente impor sua imagem e sua marca sobre a capital e sobre as comemorações do 250º aniversário da Declaração de Independência, ele decidiu reformar o Espelho d’Água do monumento a Lincoln.
Depois de gastar 16,4 milhões de dólares para tornar azul o fundo do espelho d’água e realizar alguns reparos no revestimento de sua base, a água agora está verde por causa das algas e partes do revestimento do fundo estão se soltando. Recusando-se a assumir a responsabilidade, o mandatário culpou “vândalos”, sem apresentar qualquer evidência. Sozinho, revelou sua verdadeira imagem em seu espelho d’água, apontaram os críticos.
Mas, graças à esquerda, ele encontrou uma forma de desviar a atenção de seu desastre aquático de imagem. Depois que autodeclarados socialistas democráticos venceram as eleições primárias para o Congresso federal e para o Legislativo estadual de Nova York na na penúltima semana de junho, o mandatário alertou que “os vermelhos estão chegando”, declarando que “a América nunca será comunista”.
Essas vitórias vieram depois que uma socialista democrática venceu sua eleição primária e é praticamente certa como a próxima prefeita da capital, Washington, D.C., além de vitórias anteriores que levaram socialistas democráticos às prefeituras da maior cidade do país, Nova York, e de Seattle.

Ao mesmo tempo, políticos progressistas aliados aos socialistas democráticos ocupam as prefeituras de Boston, Chicago e Los Angeles. O mentor e padrinho político dessa nova geração de políticos progressistas continua sendo o senador socialista democrático e duas vezes candidato à Presidência, Bernie Sanders
Com uma agenda que, em quase qualquer outro país, seria definida como social-democrata, os socialistas democráticos e outras forças progressistas, como o Working Families Party e diversas organizações sociopolíticas que nasceram com o movimento das duas campanhas presidenciais de Sanders, estão sacudindo as cúpulas políticas de ambos os partidos.
Vale lembrar que essas campanhas eleitorais também foram, em parte, resultado dos movimentos antineoliberais e altermundialistas que surgiram nos anos 1990 em oposição ao projeto neoliberal de livre comércio, bem como do movimento ambientalista, do ressurgimento da luta sindical, do movimento dos imigrantes e do movimento antiguerra.
Prova disso é a reação quase histérica de líderes republicanos, incluindo o chefe máximo. Em uma mensagem publicada nas redes sociais no último dia 26 de junho, o mandatário norte-americano declarou: “a recente eleição de comunistas em nosso país” representa nada menos que “a ameaça mais séria ao nosso país desde sua existência, há 250 anos”.
Pouco depois, em um discurso na Conferência da Coalizão Fé e Liberdade, afirmou: “Como vocês viram com os comunistas recém-eleitos em Nova York [e na Califórnia] — são comunistas, não são social-democratas — eles querem destruir completamente o modo de vida tradicional dos Estados Unidos. O comunismo é muito fácil de vender… Vou ser honesto: acho que eu seria o melhor comunista da história.
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Daria aluguel de graça… Todo mundo teria comida de graça, tudo seria de graça daqui para frente. Todos votariam em mim. O problema é que, em dois ou três anos, o país seria uma zona de desastre… seria um país de terceiro mundo… Todos sofreriam ou morreriam, é isso que acontece. Isso vem acontecendo há milhares de anos, sob diferentes nomes”. Milhares de anos! As coisas novas que a gente aprende a cada dia!
Mas a tentativa de usar o “comunismo” como arma para governar é relativamente recente — talvez tenha um século e meio. A nostalgia pelo macartismo não é acidental. Vale lembrar que quem treinou o atual mandatário nas artes da política foi ninguém menos que Roy Cohn, braço direito do senador Joe McCarthy nos anos 1950, cuja imagem hoje se reflete nos espelhos d’água de Washington.
Carly Simon. You’re So Vain.

