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Trump arrasta eleições latino-americanas para a sala de guerra de Washington

O respaldo explícito de Donald Trump a candidatos de direita em países como Colômbia, Argentina e Honduras mostra a emergência de uma clara dinâmica política regional. Longe de ser um fenômeno exclusivamente estadunidense, o trumpismo tornou-se uma referência ideológica capaz de influenciar eleições, lideranças e debates públicos em toda a América Latina.

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Abelardo de la Espriella – wikipedia

No domingo passado, realizou-se o segundo turno na Colômbia. O advogado de direita Abelardo De la Espriella, conhecido como “o Tigre”, candidato pelo partido Defensores da Pátria, declarou-se vencedor das eleições ainda na noite da votação, com base na apuração preliminar, que lhe atribuía uma vantagem inferior a um ponto percentual.

Por sua vez, Iván Cepeda, candidato do Pacto Histórico, reconheceu que a apuração preliminar era apenas um primeiro resultado, sem caráter oficial nem vinculante, ao mesmo tempo em que anunciou a intenção de impugnar 33 mil mesas de votação em todo o país.

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Keiko Fujimori – wikipedia

Enquanto isso, o presidente Gustavo Petro denunciou uma suposta ingerência externa israelense no processo eleitoral colombiano para alterar os resultados e favorecer o candidato conservador Abelardo De la Espriella. “Existe evidência de uma mudança de endereços IP de vários servidores do Registro Civil Nacional”, declarou à imprensa.

Enquanto ainda não haviam sido processados todos os dados, Trump afirmou: “Eu o apoiei. Estava em décimo lugar. Eu o apoiei e ele ganhou as eleições”, dando por certa a vitória eleitoral.

A apuração segue acirrada, assim como no Peru. A diferença de votos para Roberto Sánchez, que mantém uma ligeira vantagem sobre a candidata da elite de direita, Keiko Fujimori, é ínfima.

A contagem definitiva ainda não foi concluída, mais de duas semanas após as eleições, não apenas em razão do sistema de apuração do país, mas também pelas denúncias de irregularidades, sobretudo na votação realizada no exterior, onde Fujimori concentra sua maior vantagem.

Com eleições muito disputadas e uma alta porcentagem de votos em branco, assistimos à ascensão de líderes na região que combinam — em alguns casos — nacionalismo, críticas às elites tradicionais, liberalismo econômico, conservadorismo cultural e forte presença na mídia. Rodrigo Paz, na Bolívia; José Antonio Kast, no Chile; Keiko Fujimori, no Peru; e Abelardo De la Espriella, na Colômbia.

O que acaba de ocorrer no país do café faz parte de um fenômeno mais amplo relacionado à expansão de uma nova direita continental, cuja principal referência política, cultural e simbólica continua sendo, em grande medida, Donald Trump.

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Na eleição colombiana, o respaldo público de Trump ao candidato vencedor não foi um gesto protocolar, mas um sinal político. O presidente estadunidense compreendeu que a Colômbia havia se tornado um dos cenários em que se disputava o futuro ideológico da região. A pergunta relevante não é por que Trump apoia determinados candidatos latino-americanos, mas por que parcelas cada vez maiores da sociedade latino-americana consideram atraentes as ideias associadas ao trumpismo.

A explicação habitual é que se trata de uma reação conservadora diante do avanço do progressismo. Essa interpretação tem fundamento, mas é insuficiente se considerarmos também a crise de representação que afeta simultaneamente as esquerdas tradicionais, as direitas liberais e as instituições políticas. O método de Trump ajuda a explicar esse fenômeno. Washington começou a abandonar a tradicional neutralidade em relação aos processos eleitorais latino-americanos para envolver-se de maneira mais explícita na disputa ideológica regional.

O objetivo já não é apenas sustentar governos aliados do ponto de vista geopolítico, mas favorecer a consolidação de dirigentes identificados com uma agenda conservadora, soberanista e crítica ao progressismo continental.

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Javier Milei – wikipedia

Nas eleições legislativas de 2025, Trump manifestou, em reiteradas ocasiões, seu respaldo a Javier Milei e à La Libertad Avanza, apresentando o governo argentino como um dos principais aliados de Washington no hemisfério ocidental. Não se tratou apenas de uma afinidade ideológica.

Na perspectiva da Casa Branca, Milei representava a possibilidade de consolidar na América Latina um bloco político favorável ao livre mercado, crítico do progressismo e alinhado com a agenda estratégica estadunidense diante da ascensão da China.

O apoio explícito de Trump buscou fortalecer a legitimidade internacional do governo argentino, mas também enviar um sinal ao restante da região. Em Honduras, Trump também manifestou sua preferência pelo candidato opositor Nasry Asfura durante a campanha presidencial, apresentando-o como uma alternativa capaz de reverter a deterioração institucional e a expansão das redes criminosas na América Central.

Para o trumpismo, a disputa política latino-americana já não constitui um assunto periférico, mas uma frente central de uma disputa ideológica de alcance continental. O fenômeno que hoje observamos em países como Colômbia, Honduras e Argentina tem raízes que remontam ao ciclo político inaugurado por Trump e Bolsonaro no final da década de 2010.

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Trump e Bolsonaro se encontrando em junho de 2019 – wikipedia

A relação entre Trump e Jair Bolsonaro constituiu, de fato, um dos antecedentes mais importantes dessa convergência continental. Durante anos, os dois dirigentes construíram uma aliança política e ideológica baseada na defesa de valores conservadores, na crítica às elites globalistas e no uso intensivo das redes sociais como instrumento de mobilização. Ainda que Bolsonaro já não ocupe a Presidência, sua experiência contribuiu para consolidar uma matriz política que posteriormente seria retomada, com características próprias, por diversos líderes de direita na América Latina.

O eleitor que apoia Trump nos Estados Unidos, Milei na Argentina ou De la Espriella na Colômbia não necessariamente compartilha um programa ideológico coerente. O que esses eleitores compartilham é uma sensação de esgotamento diante das elites governantes.

A inflação, a insegurança, o baixo crescimento econômico e a percepção de que as classes dirigentes vivem desconectadas das preocupações cotidianas criam um terreno fértil para figuras que se apresentam como alternativas à política tradicional ou como adversárias da elite política estabelecida.

O trumpismo consolidou uma linguagem política de alcance global. Seus elementos centrais reaparecem em contextos nacionais muito distintos: críticas aos meios de comunicação tradicionais, desconfiança em relação aos organismos internacionais, defesa da soberania nacional, oposição a determinadas agendas culturais progressistas e uso intensivo das redes sociais como instrumento de mobilização.

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O paradoxo é que essa nova direita emerge justamente quando a globalização atravessa uma fase de crise. Durante os anos 1990, predominava a ideia de que a integração econômica levaria inevitavelmente a uma convergência política e cultural. Trinta anos depois, o resultado parece ter sido o oposto: a interconexão global fortaleceu identidades nacionais, conflitos culturais e demandas por proteção diante dos efeitos disruptivos dos mercados globais.

Diante de problemas estruturais persistentes, como o baixo crescimento econômico, a fragmentação social, a deterioração da segurança pública e a debilidade institucional, os discursos que prometem ordem, eficiência e ruptura com as elites encontram um público receptivo. De la Espriella deve ser interpretado sob essa perspectiva: representa um sintoma de uma transformação regional.

A direita latino-americana já não busca parecer-se com a centro-direita liberal dos anos 1990. Suas novas referências são outras: Trump nos Estados Unidos, Milei na Argentina e uma série de lideranças que questionam os consensos políticos construídos ao longo das últimas décadas. Isso não significa, necessariamente, a existência de uma internacional conservadora perfeitamente coordenada.

As diferenças nacionais continuam profundas, mas há uma circulação de ideias, estratégias de comunicação e narrativas políticas que conecta fenômenos aparentemente dispersos.

A questão de fundo é se essa nova direita conseguirá transformar-se em um projeto de governo duradouro ou se, como ocorreu com outros movimentos antissistema do passado, terminará sendo absorvida pelas estruturas que prometia combater. Essa é a incógnita que atravessa hoje a Colômbia e, em boa medida, toda a América Latina.

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