Nas últimas semanas, Cabo Verde passou a ocupar um espaço inesperado, porém significativo, no imaginário internacional. O empate histórico diante da Espanha na Copa do Mundo de 2026 projetou o pequeno arquipélago africano para o centro das atenções globais.
Em um cenário dominado por seleções tradicionais, a equipe cabo-verdiana surpreendeu o mundo ao resistir com organização, disciplina e intensidade, tendo no goleiro Josimar José Évora Dias, o “Vozinha”, um dos grandes protagonistas de uma atuação que ganhou repercussão internacional. A mídia internacional passou a destacar amplamente o país, com reportagens e análises sobre o impacto simbólico do resultado, mas houve uma que marcou um verdadeiro gol: a Radio Centenario, do vizinho Uruguai.
As defesas decisivas de “Vozinha” diante de uma das seleções mais fortes do futebol mundial transformaram o resultado do jogo em algo maior do que um simples empate. O episódio despertou curiosidade global. Que país é esse capaz de competir em alto nível contra potências históricas do futebol? Qual é a história de Cabo Verde? Que tipo de sociedade produz um feito esportivo como esse?
Futebol como linguagem simbólica da trajetória histórica
Foi nesse contexto que, para mim, a entrevista concedida pelo artista e escritor Tchalê Figueira à Radio Centenario, do Uruguai, ganhou relevância especial.
Enquanto a atenção internacional se concentra no impacto esportivo, a entrevista da emissora abre uma porta para algo mais profundo: a compreensão histórica, cultural e social de Cabo Verde, oferecendo ao público uma leitura mais ampla do país que agora desperta interesse mundial.
O mérito da Radio Centenario está justamente na escolha editorial. Em vez de reduzir o acontecimento ao espetáculo esportivo, a emissora buscou contextualizá-lo, promovendo uma conversa que nos permite compreender o país para além do resultado em campo.
Trata-se de uma abordagem jornalística que valoriza o tempo da escuta, o aprofundamento e a complexidade — elementos cada vez mais raros em um ambiente midiático dominado pela velocidade e pela superficialidade.
A repercussão do futebol não pode ser entendida isoladamente. Cabo Verde é um país formado por uma história marcada pela colonização portuguesa, pela experiência atlântica, pelas secas recorrentes e por uma longa tradição de emigração.
Essas condições moldaram uma sociedade acostumada a enfrentar desafios estruturais com criatividade, resistência e forte senso de identidade.
Nesse sentido, a atuação de “Vozinha” contra a Espanha pode ser lida, também, como metáfora.
Um país pequeno em território e população, mas capaz de se organizar coletivamente para resistir, em condições adversas, diante de uma potência global. O futebol, nesse caso, torna-se uma linguagem simbólica de uma trajetória histórica mais ampla.
Entretanto, a projeção internacional de Cabo Verde não começou com o futebol. Muito antes disso, o país já havia conquistado reconhecimento global por meio da cultura. Nenhuma figura simboliza melhor esse processo do que Cesária Évora, a inesquecível “diva dos pés descalços”.
Com sua voz profunda e emocional, Cesária levou a morna cabo-verdiana — gênero musical tradicional de Cabo Verde, considerado por muitos a expressão mais profunda da identidade cultural do país — aos palcos do mundo, transformando-se em uma das maiores referências musicais africanas da contemporaneidade.
Por meio das interpretações dessa cantora, milhões de pessoas tiveram contato, pela primeira vez, com a sensibilidade cultural de Cabo Verde. Eu, por exemplo, a conheci quando me graduava em História, entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990.
Sua obra difundiu a música do arquipélago, mas também construiu uma imagem internacional baseada na autenticidade, na melancolia poética e na força da identidade cabo-verdiana. Cesária Évora tornou-se, assim, uma verdadeira embaixadora cultural de seu país, ajudando a colocá-lo no mapa simbólico do mundo muito antes de qualquer destaque esportivo recente.
Ao lado da música, a literatura, o pensamento intelectual e as artes visuais também contribuíram para a projeção internacional do arquipélago. Escritores, artistas e intelectuais cabo-verdianos desenvolveram uma produção rica, marcada pela reflexão sobre identidade, memória, colonialismo e diáspora. Entre esses nomes, destacam-se figuras como Amílcar Cabral — referência fundamental na história política africana —, Germano Almeida, na literatura, e Tchalê Figueira, cuja atuação artística e intelectual dialoga diretamente com os dilemas contemporâneos do país.
Compreensão da complexidade do país
A entrevista realizada pela Radio Centenario uruguaia se insere justamente nessa tradição de pensamento crítico e cultural. Ao dar espaço a uma conversa aprofundada com Tchalê Figueira, a emissora nos convida à reflexão. Em vez de tratar Cabo Verde como uma curiosidade passageira impulsionada pelo futebol, a entrevista apresenta o país como uma realidade histórica complexa, atravessada por múltiplas dimensões culturais, sociais e políticas.
Esse tipo de abordagem contrasta fortemente com a lógica predominante das mídias hegemônicas — que frequentemente reduzem países africanos a episódios isolados, geralmente associados a crises, tragédias ou eventos extraordinários — em detrimento da continuidade histórica, da diversidade cultural e da compreensão profunda dos processos sociais.
O crescimento da visibilidade de Cabo Verde nos últimos anos não é, portanto, um fenômeno isolado, mas resultado da convergência de diferentes fatores, tais como a força de sua diáspora espalhada pelo mundo, o reconhecimento de sua produção cultural, a estabilidade institucional do país e, mais recentemente, sua projeção esportiva. Trata-se de um processo acumulativo, no qual cada nova camada de visibilidade se apoia em trajetórias anteriores.
O futebol apenas tornou mais visível algo que já existia. A cultura já havia aberto caminhos. A música de Cesária Évora já havia apresentado o país ao mundo. O pensamento político e intelectual já havia contribuído para sua compreensão mais profunda.
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O que o momento atual faz, sobretudo como o fez a Radio Centenario do Uruguai, é ampliar esse reconhecimento em escala global. A entrevista com Tchalê Figueira, nesse sentido, funciona como uma ponte entre esses diferentes níveis de visibilidade, pois conecta o impacto imediato do futebol à profundidade histórica e cultural de Cabo Verde, permitindo que o público vá além da curiosidade inicial e compreenda melhor a complexidade do país.
Em um mundo onde a informação circula de forma fragmentada e acelerada, trabalhos jornalísticos como o mencionado assumem uma importância fundamental. Fazem-nos perceber que nenhum acontecimento pode ser plenamente compreendido sem contexto e que toda notícia carrega consigo uma história mais ampla.
Ao promover esse tipo de abordagem, a Radio Centenario reafirma o papel mais nobre do jornalismo, qual seja, ajudar a compreender. E, ao fazer esse tipo de jornalismo, a emissora contribui para que Cabo Verde seja visto não somente como “a surpresa da Copa do Mundo de Futebol”, mas como um país com uma história rica, uma cultura vibrante e uma presença cada vez mais significativa no cenário global.
A Radio Centenario aposta em um jornalismo de contexto. Por esse perfil, em vez de narrar o acontecimento esportivo, procurou entender o que ele significa dentro de uma trajetória mais ampla. Essa escolha editorial valoriza, principalmente, o conhecimento que pode gerar. Nesse sentido, marcou um golaço! E, para quem tiver interesse em escutar o programa, basta acessar: CABO VERDE: con Tchalê Figueira, artista y escritor | 18 junio 2026 | La 36 – Radio Centenario.
