entre-laboratorios-e-refinarias,-cuba-avanca-para-transformar-petroleo-pesado-em-saida-energetica-dialogos-do-sul-global

Entre laboratórios e refinarias, Cuba avança para transformar petróleo pesado em saída energética Diálogos do Sul Global

As refinarias cubanas voltaram ao centro da atenção midiática desde que anunciaram, em abril último, os primeiros êxitos com petróleo nacional. No início de junho, a usina localizada em Santiago de Cuba voltou a suscitar expectativa ao informar, em um segundo ensaio, o refino de 20 mil toneladas de petróleo cubano, conhecido por sua elevada densidade.

File:Oil-refinery-cuba-1.jpg
Refinaria cubana – wikipedia

O interesse da população por essas notícias deriva, de maneira lógica, do amplo histórico de crises energéticas, limitações tecnológicas e econômicas e tensões políticas que o país acumula. Os longos e frequentes apagões da atualidade são apenas mais uma evidência dos problemas acumulados nesse campo.

A esse histórico somaram-se a inclusão da estatal Unión Cuba Petróleo (Cupet), em 11 de junho, na lista de empresas cubanas sancionadas pelos Estados Unidos, e a revogação, em Miami-Dade, da licença da empresa Vanguard Energy para exportar combustíveis a empresas privadas e instituições civis de Cuba.

Nesse contexto de cerco total aos combustíveis que seu vizinho do norte impõe a este país do Caribe — apenas um navio-tanque russo o atravessou desde janeiro —, Cuba acelerou a busca de alternativas para o refino de petróleo nacional, caracterizado por sua alta viscosidade e elevado teor de enxofre corrosivo, mas que se tornou uma tábua de salvação energética em meio à tormenta.

Diante da impossibilidade de processá-lo para obter gasolina e outros derivados, esse petróleo bruto pesado ficou, desde os anos 1990, restrito ao uso como combustível direto e pouco eficiente nas termelétricas. Como custo inevitável, a infraestrutura industrial da geração de eletricidade acumulou um desgaste maior, que hoje se evidencia nas frequentes falhas das termelétricas cubanas.

Termoconversão cubana

O estatal Centro de Investigações do Petróleo (Ceinpet) publicou recentemente uma inovação tecnológica para refinar o petróleo bruto cubano, a fim de utilizá-lo de forma mais ampla. Com o nome de termoconversão, a novidade foi anunciada pelo presidente Miguel Díaz-Canel em pessoa, durante uma reunião do Conselho Nacional de Inovação, no final de abril.

“Rompemos um critério, um tabu que existia no país, de que o petróleo nacional não podia ser refinado, não podia ser utilizado em outras coisas, e praticamente o tínhamos condenado a ser usado apenas em um grupo de termelétricas”, afirmou o mandatário.

Por termoconversão, o Ceinpet denomina um processo de aquecimento controlado para melhorar as propriedades do petróleo bruto pesado e extrapesado, característico da faixa norte do oeste de Cuba.

De acordo com informações oferecidas pelo diretor adjunto da Cupet, Irenaldo Pérez, esse processo permite reduzir compostos complexos do petróleo bruto e melhorar sua fluidez, sem necessidade de misturá-lo com nafta, solução aplicada até o momento para facilitar tanto a extração nos poços quanto seu processamento.

Com a inovação do Ceinpet, a Cupet se propõe agora a investir em uma usina piloto na refinaria Sergio Soto, na província central de Sancti Spíritus.

Nafta de Santiago

Quase simultaneamente ao anúncio do Ceinpet, a Refinaria Hermanos Díaz informou a realização de ensaios para processar petróleo bruto cubano e produzir nafta. Com experiência prévia no refino de petróleo pesado importado, a indústria adotou uma fórmula tecnológica para reduzir a viscosidade do petróleo cubano e, assim, torná-lo mais adequado ao processamento.

“Fizemos um primeiro teste com o petróleo nacional no mês de março; obtivemos nafta, diesel e óleo combustível e, sobretudo, não foi interrompida a exploração de nossas jazidas petrolíferas”, disse a diretora-geral da refinaria, Irene Barbado.

Em um segundo ensaio, anunciado no início de junho, a refinaria de Santiago conseguiu, “com resultados superiores ao primeiro desta fase piloto, a produção de nafta solvente para nossos poços e óleo combustível”, a partir de petróleo cubano.

Cuba volta a produzir 16 remédios contra câncer apesar do bloqueio dos EUA

A diretora reconheceu que esse diesel não cumpre todos os requisitos para comercialização, “razão pela qual se tornou necessário misturá-lo com um de ótimas características para assim possibilitar seu uso”.

É sua produção de nafta, no entanto, que adquiriu valor estratégico atualmente. Esse derivado, empregado para reduzir a viscosidade do petróleo pesado nacional, permitiu manter ativas as jazidas petrolíferas de Cuba em momentos nos quais o país não pôde continuar importando petróleo nem nafta de outros países.

Embora o combustível cubano cubra apenas cerca de 40% das necessidades energéticas nacionais, é o único disponível atualmente, quando o bloqueio extremo dos Estados Unidos veta sua importação de qualquer outro país.

A refinaria de Santiago realiza esses ensaios com petróleo da região central de Cuba, menos pesado e agressivo do que o da faixa costeira de Matanzas, a leste de Havana, onde se encontram as maiores jazidas do país.

Projetada para processar petróleos leves, o maior desafio dessa indústria é a adaptação tecnológica para o refino de petróleo nacional que possui, além de alta viscosidade, elevados níveis de enxofre e acidez. (2026).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *