Destacada liderança historicamente vinculada ao Movimento ao Socialismo (MAS), Emilio Rodas levantou a voz em defesa da soberania e do desenvolvimento, denunciando que o governo de Rodrigo Paz colocou em marcha “a destruição de tudo o que representava os pilares estruturais do processo de mudança”.
Vice-ministro de Autonomias Departamentais da Bolívia (2015), vice-ministro de Emprego, Serviço e Cooperativas (2019), durante a presidência de Evo Morales, e vice-ministro de Regime Interior e Polícia (2020), na gestão de Luis Arce, Rodas levantou a voz em defesa da soberania e do desenvolvimento, denunciando que o governo de Rodrigo Paz colocou em marcha “a destruição de tudo o que representava os pilares estruturais do processo de mudança”.
Resgatando o acordo firmado por Evo com setores da burguesia nacional, que se “fortaleceu nesses 14 anos”, Emilio Rodas assinalou que foi essa aliança que permitiu ao país “quadruplicar o tamanho da sua economia e multiplicar as oportunidades para os bolivianos, tirando 3 milhões de pessoas da pobreza para transformá-las em consumidores”.
“Agora, com o dólar declarado flexível de um dia para o outro, a partir de sexta-feira (29), o poder aquisitivo do salário perdeu cerca de 40%. Isso vai motivando reações, vai provocando uma consciência social de que não temos um Estado que proteja os cidadãos, que pense no país, mas servil, que trabalha para o capital privado e, principalmente, para o capital transnacional”, assinalou.
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Nesta entrevista exclusiva, Emilio Rodas alertou que, “diante da ingerência dos Estados Unidos, que buscam assegurar estrategicamente o seu quintal” e da subserviência de governos como o boliviano, é preciso ajudar o povo a construir “uma agenda programática”, “com militância, ativismo, presença, orientação e aprendizado”.
O essencial neste momento, enfatizou, é “frear a privatização, frear a alienação do patrimônio público, preservar os direitos políticos dos setores populares, proteger o mercado interno e a capacidade de consumo da nossa gente”. Diante de tantas agressões, concluiu, o motivo que unifica os bolivianos neste momento “é a renúncia de Rodrigo Paz”.
Leonardo Wexell Severo – A Bolívia durante anos foi uma referência para os movimentos progressistas no que diz respeito aos avanços sociais conquistados. Qual é a sua avaliação do atual momento?
Emilio Rodas – É um momento crítico porque foi feito um trabalho muito sistemático, metódico, bem elaborado e bem executado de destruição de tudo o que representava os pilares estruturais do processo de mudança da Bolívia. O líder do instrumento político foi deixado de fora da cena política dentro do próprio governo do Movimento ao Socialismo (MAS). Destruiu-se a governabilidade a partir desse suposto fracionamento, que era a colocação em marcha do plano de eliminação do campo popular no cenário político por meio de uma tecnoburocracia que havia se incrustado no poder.
Assim, desde dentro do governo, foi destruída a coexistência que houve durante os 14 anos de Evo, uma coexistência programática com setores da burguesia boliviana que, até 2008 e 2009, haviam sido opositores violentos ao governo. A partir de então, foram isolados os setores empresariais dos setores políticos mais radicais da direita, e construídos acordos programáticos com essa burguesia nacional que tinha interesses econômicos, mas não era abertamente opositora ao processo. Mais do que isso, ela se fortaleceu nesses 14 anos e se potencializou produtivamente. Porque a Bolívia mudou nesse período, quadruplicou o tamanho da sua economia, multiplicou as oportunidades para os bolivianos e tirou 3 milhões de pessoas da pobreza para transformá-las em consumidores.
Havia muitas razões para se estar de acordo, mas tudo isso foi dinamitado. Derrubou-se a estrutura política, destruíram-se as organizações sociais, desperdiçou-se a maioria parlamentar que havia sido conquistada com muito esforço e luta. Então, chega-se ao final da gestão de Lucho Arce com o trabalho feito, porque essa tecnoburocracia chegou ao governo para destruir o processo e conseguiu, a ponto de o líder do processo terminar proscrito, praticamente em prisão domiciliar, com o instrumento político totalmente destruído.
Infelizmente, o trágico resultado eleitoral na disputa presidencial comprova essa análise.
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A versão que eles [Arce e seus aliados] apresentaram obteve 3%, e as outras oportunidades do campo popular, do mesmo movimento — ou melhor dizendo, Evo Pueblo — terminaram proscritas do processo. Então, a tarefa que essa tecnoburocracia funcional à restauração neoliberal veio cumprir foi executada à risca.
Qual o resultado disso? Temos um governo de direita. Não temos presença parlamentar do campo popular, as organizações sociais estão totalmente fragmentadas ou divididas. Nesse cenário, sem representação política, sem estrutura orgânica, sem acordos programáticos, de maneira instintiva partiu-se para a resistência ao desmantelamento do Estado Plurinacional, ao desmantelamento dos princípios e valores que foram construídos nesses 14 anos do processo de mudança.
Porque não lutar implica abandonar, ou restaurar quase mecanicamente, o Estado anterior a 2006, aquele Estado neoliberal em que o capital transnacional exercia o controle de toda a riqueza nacional e em que as empresas estratégicas do Estado eram subsidiárias das grandes transnacionais.
Qual era a situação da Bolívia quando o presidente Evo Morales chegou à presidência?
Tudo o que diz Rodrigo Paz sobre uma suposta base de hidrocarbonetos deixada para Evo é mentira, pois o país estava inteiramente em mãos estrangeiras: Repsol, da Espanha; Total, da França; British Gas, da Inglaterra; Enron, dos Estados Unidos; Petrobras, do Brasil. Ou seja, todo o patrimônio hidrocarbonífero, no que diz respeito às reservas, à infraestrutura e ao modelo de negócios, estava sob controle das transnacionais. Da mesma forma, as telecomunicações eram controladas por uma empresa italiana; a eletricidade, por duas empresas estadunidenses; a ferrovia, por uma empresa chilena, Cruz Blanca, enquanto a outra parte, a do oriente, era da Wyoming Israel Company. Portanto, todas as empresas estratégicas e todo o aparato produtivo estavam nas mãos do capital externo.
Por conta disso, um presidente inaugurou o ciclo neoliberal, em 1985, dizendo: “A Bolívia está morrendo para nós”. E o último presidente neoliberal encerrou esse ciclo, em 2005, Carlos Mesa, dizendo: “Tenho que estender a mão para pedir esmola”. É para isso que esses setores querem nos fazer retroceder.
“Os Estados Unidos tentam assegurar estrategicamente o seu quintal fortalecendo duramente esses setores radicais”
Claro, eles fazem parte de um esquema internacional, de um novo momento da política regional latino-americana, em que os Estados Unidos tentam assegurar estrategicamente o seu quintal para impedir interferências de outras potências na região e vêm fortalecendo duramente esses setores radicais. Nessas condições, partiu-se para essa luta desigual para frear a privatização, frear a alienação do patrimônio público, preservar os direitos políticos dos setores populares e proteger o mercado interno e a capacidade de consumo da nossa gente. Nessas condições, com uma liderança política recolhida, temos organizações que foram se aglutinando, mas sem um horizonte programático.
Diante da complexidade do problema, quem melhor pode responder aos ataques sistemáticos do governo?
Quem melhor entende o problema é o movimento das Seis Federações do Trópico de Cochabamba, o bloco onde se encontra o presidente, juntamente com a Federação Túpac Katari, que é a que gera maior tensão. Porque se movimenta em torno de La Paz e El Alto, exercendo uma pressão crítica sobre o próprio poder político. Aqui em Santa Cruz houve uma paralisação de 36 dias, em 2022, e em La Paz nem ficaram sabendo.
Historicamente, todos os anos, nos meses de janeiro e fevereiro, a Central Operária Boliviana (COB) apresenta uma pauta de reivindicações (pliego petitorio) ao governo, reunindo as principais demandas de todos os setores filiados. Isso envolve direitos trabalhistas, aumento salarial e o funcionamento dos sistemas de saúde e educação. O que o Estado fazia, desde antes de Evo, e continuou fazendo durante o governo Evo, era receber essa pauta de reivindicações e instalar um mecanismo de negociação, com uma mesa interministerial envolvendo os diferentes setores da Central.
“O sentido de defender a essência do Estado Plurinacional derivou no lema unificador, que no final das contas tem sido a renúncia de Rodrigo Paz”
No final de abril, chegava-se a um acordo geral e, em maio, todos os acordos entravam em vigor. Isso não aconteceu neste ano, quando o governo simplesmente respondeu com uma carta rejeitando 80% das reivindicações e encaminhando os outros 20% para estudo. E foi o fim.
Esse foi o sentido da mobilização das organizações em defesa da essência do Estado Plurinacional, que derivou no lema unificador que, no final das contas, tem sido a renúncia de Rodrigo Paz.
A agenda deste governo é de completa submissão aos setores agroexportadores. Poderia nos dar alguns exemplos do que isso significa em termos de retrocesso para a economia boliviana?
É uma agenda de alinhamento. Declarou, por exemplo, liberdade para exportar tudo o que se quiser. As empresas já não têm restrições para exportar. Com Evo e com Lucho, os empresários tinham que comprovar o abastecimento interno, demonstrar que o volume destinado à exportação não colocava em risco a segurança do mercado boliviano. Hoje essa restrição já não existe. Agora podem exportar tudo o que quiserem. Isso afeta diretamente o consumo interno, porque estão exportando e desabastecendo o mercado.
Um desabastecimento semelhante ao que está ocorrendo na Argentina.
O mesmo que na Argentina. Lá dizem: “Alcançamos recorde de exportação de carne”, mas também estão alcançando recorde de queda no consumo de carne no mercado interno argentino. A Bolívia está exportando para o próprio Brasil de maneira ilegal, porque vocês pagam um preço melhor. Nossos camponeses também não estão conseguindo competir com os produtos da cesta básica importados, principalmente os que vêm do Peru.
Então, há uma situação crítica e não há possibilidade de revertê-la, porque a política do governo está orientada a favorecer esses setores empresariais, liberando o controle estatal sobre os recursos estratégicos para transformá-los em ativos de livre disponibilidade para o capital transnacional.
Duplicaram o preço da gasolina e triplicaram o do diesel no país. Antes disso, porém, não havia gasolina. O governo não conseguia comprar combustível no mercado externo para abastecer o país. Mas, imediatamente, surgiu o problema da qualidade da gasolina. O que estavam comprando no mercado externo era o que se chama de resíduo que fica no fundo do tanque, aquele que nunca é comercializado. O governo passou a comprar essa borra (concho — que entope bicos injetores, filtros de combustível e bombas e não é comercializada por tratar-se de um crime ambiental). Essa foi a gasolina comprada, provocando um impacto terrível no país. Milhares de transportadores ficaram com os motores danificados, assim como os mototaxistas. Aqui, em muitas cidades do país, o serviço de mototáxi é amplamente utilizado. Esses trabalhadores foram gravemente prejudicados.
E em relação ao aumento do dólar após 15 anos de valor fixo?
Saiu-se da fixação do dólar de maneira rígida e permanente, algo que se manteve durante 15 anos. Sempre foi o Estado quem sustentou o dólar na Bolívia. Agora, o dólar foi declarado flexível de um dia para o outro, a partir de sexta-feira (29), fazendo com que o poder aquisitivo dos salários perdesse cerca de 40%. Isso vai provocando reações e despertando uma consciência social de que não temos um Estado que proteja os cidadãos, que pense no país, mas um Estado servil, que trabalha para o capital privado e, principalmente, para o capital transnacional. É essa consciência política que precisa ser construída, desenvolvida e transformada em força política, força orgânica, capacidade de mobilização e capacidade de responder à imposição do modelo neoliberal.
Qual o papel dos movimentos sociais e dos partidos progressistas neste embate?
Temos que nos reconstruir, passar da resistência virtual para a resistência material, participar das assembleias, dos sindicatos e ajudar os companheiros nas mobilizações. O povo nos ensinou que, muitas vezes, está muito mais adiante de nós. Precisamos voltar às bases e ajudar nosso povo a reconstruir suas possibilidades, mas com militância, ativismo, presença, orientação e aprendizado.
