violencia-no-haiti-deixa-mais-de-1.600-mortos-em-tres-meses-e-aprofunda-crise-humanitaria

Violência no Haiti deixa mais de 1.600 mortos em três meses e aprofunda crise humanitária

Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta avanço das gangues, aumento das operações armadas e agravamento da instabilidade no Haiti, onde 1,4 milhão de pessoas já foram deslocadas pela violência

PORTO PRÍNCIPE – Entre janeiro e março de 2026, pelo menos 1.642 pessoas morreram e 745 ficaram feridas pela violência que atinge o Haiti há vários anos, informou, na sexta-feira (8), o Burô Integrado das Nações Unidas no Haiti (Binuh).

“Apesar dos avanços em matéria de segurança em algumas zonas do centro de Porto Príncipe, a insegurança é diária e insustentável para um grande número de haitianos”, declarou o responsável pelo escritório, Carlos Ruiz Massieu.

As gangues criminosas são responsáveis por 27% das vítimas, enquanto as operações das forças de segurança causaram 69% dos mortos e feridos, com dezenas de civis entre eles, inclusive crianças. As forças de autodefesa vizinhas causaram os 4% restantes.

A violência continua se estendendo além da capital, especialmente para os departamentos de Artibonite e Centre, no centro e noroeste deste país caribenho de 27.700 quilômetros quadrados e cerca de 12 milhões de habitantes.

“A situação dos direitos humanos no Haiti continua sendo extremamente preocupante”, resumiu Ruiz Massieu.

Em seu informe, o Binuh afirma que as operações das forças de segurança conseguiram limitar a expansão territorial das gangues em algumas zonas de Porto Príncipe. As facções chegaram a dominar até 80% da capital, mas vários bairros experimentaram uma redução das atividades criminosas.

Nos territórios que controlam, porém, as gangues continuam cometendo graves violações de direitos humanos: assassinatos seletivos, sequestros, extorsões e destruição de bens.

Sequela da Minustah: Haiti enfrenta nova ameaça de cólera com saúde e saneamento devastados

O Binuh cita, entre outros casos, o de um menino de 13 anos executado em março por ter soltado uma pipa enquanto servia de vigia para uma gangue.

Em Artibonite, a violência alcançou um novo patamar no fim de março. Entre os dias 29 e 31, as gangues lançaram ataques coordenados contra 16 localidades do Baixo Artibonite, dirigidos especialmente contra grupos de autodefesa.

Pelo menos 83 pessoas morreram e 38 ficaram feridas. Algumas vítimas foram retiradas de suas casas durante a noite e executadas em frente aos próprios domicílios.

As gangues também estão implicadas em numerosas violências sexuais que afetaram mais de 292 vítimas, principalmente mulheres e adolescentes entre 12 e 17 anos.

O Binuh insiste que os estupros coletivos e a exploração sexual são utilizados como instrumentos de terror e controle das populações que vivem sob domínio das gangues. O tráfico de crianças também continua sendo uma prática preocupante.

As gangues — envolvidas com contrabando, tráfico de drogas, sequestros, roubos, extorsões e outros delitos — cresceram nos últimos anos, no contexto da prostração econômica e da instabilidade política que se seguiram ao assassinato do presidente Jovenel Moïse, em julho de 2021.

Miami jury convicts four in Haiti president assassination plot
Arcángel Pretel Ortiz, Antonio Intriago, Walter Veintemilla e James Solages

Na sexta-feira (8), na cidade estadunidense de Miami, um tribunal declarou culpados quatro indivíduos: Arcángel Pretel Ortiz, Antonio Intriago, Walter Veintemilla e James Solages, acusados de conspirar para assassinar ou sequestrar Moïse e, assim, violar a Lei de Neutralidade dos Estados Unidos.

Moïse foi assassinado quando mais de 20 mercenários estrangeiros, em sua maioria colombianos — vários já condenados nos Estados Unidos — atacaram sua casa perto de Porto Príncipe. Sua esposa, Martine, ficou ferida durante o ataque.

O informe do Binuh ressalta que mais de dois terços das vítimas nos primeiros meses de 2026 morreram ou ficaram feridas durante operações das forças de segurança contra as gangues, às vezes com apoio de uma empresa militar privada que utiliza drones.

Entre as vítimas contam-se pelo menos 69 civis, inclusive cinco crianças. Duas meninas de 7 e 9 anos ficaram gravemente feridas após a queda de um drone no quintal de sua casa em Martissant, bairro densamente povoado de Porto Príncipe.

O Binuh também informa sobre persistentes denúncias de execuções sumárias que envolveriam agentes da polícia. Esses incidentes teriam causado a morte de 33 pessoas.

Também são recorrentes os enfrentamentos entre bandos rivais pelo controle de bairros e de estradas importantes, para impor a cobrança de pedágios.

O clima de violência provocou o deslocamento de 1,4 milhão de pessoas de suas casas nos últimos três anos, agravando a crise humanitária que afeta o país, a ponto de as agências da Organização das Nações Unidas (ONU) estimarem que pelo menos metade da população necessita de assistência alimentar, de saúde e de abrigo.

A situação de crise pesa sobre o processo de reinstitucionalização do país, que deveria realizar eleições neste ano para contar, a partir de 2027, com um governo que substitua o atual, provisório.

A ONU aprovou a formação de uma força armada internacional para a repressão das gangues, com até 5.500 efetivos, que deverá atuar em apoio à polícia haitiana.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *