A ofensiva comercial de Donald Trump atinge dezenas de países, apesar do histórico superávit dos Estados Unidos nas trocas com o Brasil, e reforça a necessidade de ampliar mercados e fortalecer os Brics
Donald Trump voltou a recorrer ao velho instrumento das tarifas para pressionar parceiros comerciais, obter concessões e reafirmar a hegemonia estadunidense. O chamado “trumpaço” não atingiu apenas o Brasil. A medida alcança dezenas de países, entre eles membros da União Europeia, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Chile, Suíça, Índia, Israel, Vietnã e diversas outras nações, demonstrando que não se trata de uma divergência bilateral, mas de uma ofensiva comercial de alcance global.

A realidade é que os Estados Unidos acumulam um histórico superávit comercial nas trocas de bens e serviços com o Brasil. Entre 2011 e 2025, o saldo positivo estadunidense ultrapassou 224 bilhões de dólares. Somente em 2025, esse superávit alcançou 40,5 bilhões de dólares. Os próprios números oficiais mostram que a relação comercial tem sido amplamente favorável aos interesses de Washington.
Apesar disso, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) justificou a adoção das novas tarifas — no Brasil, estão chamando de tariflávio — alegando a necessidade de proteger a economia estadunidense contra práticas consideradas desleais. Entre os argumentos apresentados estão questões relacionadas ao comércio digital, aos meios eletrônicos de pagamento, à propriedade intelectual e ao ambiente regulatório brasileiro.
O relatório do USTR retoma investigações iniciadas em 2025 e faz referências ao sistema de pagamentos instantâneos Pix, desenvolvido pelo Banco Central, além de questionamentos ligados à atuação das grandes plataformas digitais. As alegações foram consideradas descabidas pelo presidente Lula, que defendeu o Pix como uma inovação tecnológica brasileira de sucesso e rejeitou qualquer tentativa de interferência externa sobre políticas adotadas pelo país.
Mais do que uma medida econômica, trata-se de uma decisão política. Trump utiliza as tarifas como instrumento de pressão geopolítica, procurando impor seus interesses, obter concessões e reforçar sua influência sobre países que buscam maior autonomia em suas relações internacionais. O alcance da medida evidencia uma tentativa de reorganizar as relações econômicas internacionais segundo os interesses de Washington.
Trump usa os Bolsonaros para atacar o Pix e pressionar a soberania financeira do Brasil
Mesmo sem demonstrar grande apreço pelas normas multilaterais que regem o comércio internacional, Trump encontrou resistência e sofreu reveses políticos. Cresce, dentro e fora dos Estados Unidos, a percepção de que medidas unilaterais dessa natureza geram insegurança, dificultam investimentos e comprometem a estabilidade das relações comerciais globais.
Diante desse quadro, o Brasil precisa responder com firmeza, utilizando os mecanismos de reciprocidade previstos em sua legislação e defendendo seus interesses nacionais. Mas a principal resposta deve ser estratégica: ampliar mercados, diversificar parceiros e reduzir vulnerabilidades externas.
Tarifas: CONCLUSÃO PRELIMINAR DA INVESTIGAÇÃO DA SEÇÃO 301
É nesse contexto que os Brics assumem importância ainda maior. O fortalecimento das relações econômicas com os países do bloco e com o conjunto do Sul Global oferece ao Brasil novas oportunidades de comércio, investimento e cooperação. O trumpaço pode acabar produzindo exatamente o efeito contrário ao desejado por Washington: acelerar a aproximação entre os países emergentes e fortalecer a construção de uma ordem internacional multipolar baseada no respeito à soberania e na cooperação entre as nações.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.
