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CAFÉ COM VODKA | O poeta, o mar e a véspera: “Meu Púchkin”, de Marina Tsvetáieva

A coluna CAFÉ COM VODKA é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil) em parceria com a Diálogos do Sul Global.

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330px Kiprensky Pushkin
Retrato de Púchkin, 1827 – wikipedia

No dia 6 de junho, na Rússia, comemora-se o Dia da Literatura Russa. A data foi escolhida em homenagem ao aniversário de Aleksandr Serguêievitch Púchkin — escritor cujo talento e irreverência transformaram em definitivo a cultura russa. Suas contribuições para a forma como os escritores posteriores passariam a escrever concorreram para que ele fosse logo reconhecido como o “Sol da literatura russa”.

Tão grande foi seu impacto sobre as gerações seguintes que sua essência parece ter se mantido viva nas grandiosas obras que se sucederam às suas, ainda que seguissem diferentes caminhos e tendências literárias. Fiódor Dostoiévski admirava Púchkin e o via como um importante precursor, capaz de compreender a essência da Rússia, considerando-o um verdadeiro profeta.

Se o seu legado irradiou por todo o século a que pertenceu, a literatura do século XX — marcada por sucessivas rupturas — elegeu, mesmo no futurismo, Púchkin como aquela figura do passado que não se poderia renegar. Tão relevante veio a ser, para a cultura russa, a sua presença e sua obra.

Ocorreu justamente o oposto: sua presença foi reafirmada nesse período tão marcado por transformações, tendo como destaque Anna Akhmátova, poeta acmeísta que produziu numerosos textos críticos sobre a obra de Aleksandr Púchkin, sendo conhecida como puchkinista — epíteto comum a outros poetas do mesmo século, como Bella Akhmadulina.

Púchkin, no entanto, manifestou-se de maneira singular por meio das palavras de Marina Tsvetáieva no texto memorial Meu Púchkin, publicado em 1937 na revista Notas Contemporâneas. Nele, Tsvetáieva descreve suas primeiras vivências na infância que, de uma forma ou de outra, foram atravessadas pela presença de Púchkin, seja no retrato do duelo que custou sua vida, no monumento em sua homenagem situado no centro de Moscou ou na misteriosa lombada do livro de sua irmã Valéria, onde se lia “Obras Completas de Aleksandr S. Púchkin”.

Independentemente do que tenha levado à confluência das memórias narradas, Tsvetáieva descreve como sua relação com Púchkin foi constituída antes mesmo que ela pudesse ler e escrever, no mundo de imagens difusas e histórias que pouco a pouco foram ganhando clareza e sentido no universo da autora.

“Tu já não és mais o mesmo Púchkin, és o meu Púchkin”[1]. Assim Tsvetáieva nomeia sua obra, fazendo menção à fala do czar Nicolau I que, ao permitir o retorno do poeta do exílio, impôs-lhe a condição de ser ele próprio o único censor das obras de Púchkin a partir daquele momento.

Tsvetáieva aproveita essa fala para ironizar as ambiguidades na imagem de Púchkin ao longo do século XIX e suas repercussões em sua geração de poetas já no período da Era de Prata, ou seja, da literatura do início do século XX. Embora pareça contraditório trazer esse elemento histórico e crítico, o comentário está diretamente ligado à imagem do “cerco” que Tsvetáieva enxerga no monumento de Púchkin, com as correntes rodeando a figura do autor esculpida em ferro, como símbolo da magnitude e do poder de liberdade percebidos pela jovem poeta.

Nesse ínterim, surge a figura de Pugatchióv[2] — herói da novela A Filha do Capitão e personagem emblemático da obra puchkiniana — como o guia de sua jornada de desbravamento da obra de Púchkin, que se abre como um mapa aos olhos dos leitores.

A partir da invocação do guia, somos apresentados às obras poéticas do autor em Os Ciganos e Evguiêni Oniéguin, e é por meio delas que Tsvetáieva analisa suas primeiras concepções de mundo e seu olhar sobre a humanidade, a família e o amor, mas principalmente seu entendimento da discordância veemente com a figura materna — sua mãe era extremamente racional e não compreendia esse “desvendar” do mundo pelo olhar infantil — e da dinâmica entre Oniéguin e Tatiana[3] como o ponto determinante do amor, que está mais vivo na despedida, sobretudo na impossibilidade de concretude, do que quando há, de fato, reciprocidade.

Talvez, por sua inevitável comparação com as relações familiares e matrimoniais, essa visão de amor pouco palpável, distante e inalcançável como o mar, nas palavras da própria autora, tenha se consolidado em sua mente até o momento da escrita do ensaio.

Não é tarefa difícil envolver-se com os temas e contextos abordados por Tsvetáieva num texto que, apesar de redigido na primeira metade do século passado, trata de questões tão atuais.

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LIVRO: O NEGRO DE PEDRO, O GRANDE, de Púchkin – Reprodução

Quando analisa sua primeira impressão de Púchkin, é com muita atenção que lembra das raízes africanas e de sua importância na identidade do autor, tão russo, mas tão distante de qualquer lugar do mundo — fosse no exílio ou na praça de seu monumento. Era Púchkin o homem negro, refletido no texto de “O Negro de Pedro, o Grande. A poeta utiliza a questão racial como subtexto em seu momento histórico para evidenciar seu posicionamento contra a propaganda nazista e a difusão de uma visão distorcida de raça e cor privilegiadas na sociedade.

Púchkin tem papel significativo nesse aspecto e é esse mesmo o Púchkin das revoluções, de Pugatchióv e dos dezembristas, que tanto inspira a poeta, por ser a figura do homem negro vitorioso, do monumento negro em destaque na praça repleta de neve branca e vazia. E depois, ele mesmo viria a ser o poeta que Marina amou: morto, mas intrinsecamente vivo em toda a sua jornada e memória.

O mapeamento de Púchkin na obra de Tsvetáieva nasce no duelo, é encaminhado pelos ciganos e por Oniéguin e encontra forma em Pugatchióv, o guia, para que se suceda, então, toda uma miríade de relações pessoais e, ao mesmo tempo, críticas, dos poemas líricos: O Banquete de Pedro I, O Afogado, Vurdalak, Os Diabos, Caminho Invernal, À Ama, Delibach, Bonaparte e os Montenegrinos e, por fim, Ao Mar.

Cada um dos poemas citados transmite à autora um sentido de invocação de Púchkin à participação em sua vida, o que ocorre com maior intensidade no poema final, Ao Mar, em que a decepção com a realidade de uma viagem a um mar que viria a ser um golfo cinzento é colocada em confronto com a percepção de Tsvetáieva de um mar azul, vasto e idealizado em sua mente. Então ela decide viver em sua própria fantasia, na qual o mar que deseja encontrar é o mar da véspera, talvez na mesma ânsia de Púchkin pela véspera dos acontecimentos de sua vida — o retorno do exílio, a revolta —, pois o mesmo azul do poeta é o azul do mar.

Afinal, o verdadeiro mar é o caminho que nunca se alcança, e o mesmo pode ser dito de Púchkin, levado pelo tempo, mas cuja alma é mantida pelas representações, aparências e visões da poeta.

Púchkin se faz presente pela voz de Marina Tsvetáieva não apenas porque é o reflexo e o símbolo de uma tradição literária. Meu Púchkin é a prova da incidência mais íntima do legado de um escritor na vida daqueles que o sucederam.

A prosa poética da escritora, assim, não alcança apenas a idealização e a presença de Púchkin; a certa altura — e em tantos momentos — a autora parece criar uma “abertura”: um lugar onde a experiência pessoal de cada um, em qualquer lugar do mundo, encontra sua própria realização naquele relato. Tsvetáieva provoca essa sensação pela adoção de um estilo próprio, desconjuntado e não enquadrável em nenhuma das escolas literárias de sua época.

Nessa obra, como também ocorre na prosa ensaística O Diabo, a autora recorre a figuras de linguagem e jogos de palavras envolvendo sonoridade e simbologia — iconográfica, cultural e histórica — para narrar o cotidiano e a visão de mundo de sua versão criança. Elementos lúdicos permeiam a leitura pela profusão de cores, formas e tamanhos, transportando os leitores para um universo infantil, mas pela perspectiva de uma mulher adulta, cuja bagagem é inserida cuidadosamente pelo viés do segredo e do mistério dos acontecimentos.

A literatura russa superou qualquer possível barreira linguística e consolidou-se como uma das mais populares e decisivas na formação de leitores em todo o mundo. Isso se deve à forma como seus escritores abordaram temas universais e dialogaram com seus críticos em suas respectivas épocas, produzindo uma espécie de jogo em que as questões prementes da vida permaneciam sempre em evidência.

Talvez o valor mais intensamente vivido ao longo das páginas de Meu Púchkin seja a liberdade: a liberdade que Marina projeta, ainda criança, nos ciganos e que vê, desde sempre, na agudeza e na irreverência de Púchkin. Foi Púchkin o poeta provocativo e revolucionário desde o princípio, quando integrou o Arzamas, movimento literário que abriu os caminhos da literatura russa para a modernidade, e o poeta de elevadíssima estima dos generais dezembristas às vésperas da revolução.

Sua vida entre correntes impôs-se desde o princípio diante da Marina criança como a do gênio criador cercado por grilhões, fossem os da censura, fossem os do monumento na praça Tverskaia, no coração de Moscou, nutrindo o entendimento de que a liberdade de Púchkin era poderosa demais para ser tolhida por aquelas correntes. E, nesse movimento, ela se apropria dessa liberdade tão poderosa e, ao mesmo tempo, cria para nós — entre nossas vivências — a possibilidade de encontrá-la.

Afinal, também nós, no Brasil e na América Latina, não nascemos, crescemos e nos alfabetizamos rodeados dos “nossos Púchkins”? Não existem, também entre nós, poetas e outros escritores fundamentais para nossas culturas, que projetam seu legado e sua presença sobre nós antes mesmo de sermos capazes de lê-los? É inegável, por exemplo, a importância do poeta Luís de Camões para qualquer falante de português, mas quantas questões concernentes ao nosso hemisfério não demandaram que outros escritores as discutissem e construíssem, para nós, seus significados?

São essas novas discussões que permitem enxergar, no Brasil, aquilo que há de mais intimamente nosso, afinado com as raízes e confluências europeias, indígenas, africanas, dos retirantes e dos emigrados, de onde vieram tantos autores de importância decisiva para a identidade nacional e para a compreensão do que é literatura até os nossos dias. São nomes como Machado de Assis, Maria Firmina dos Reis, João Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e tantos outros que construíram tudo isso para nós.

No âmbito pessoal, novos “Púchkins” emergem a todo momento. Somos constantemente guiados pelo Pugatchióv da mente, que nos conduz à centelha que ilumina os caminhos, ao Sol de Púchkin. Esperamos, ao menos, que esses caminhos nos levem aos mares de nossa imaginação, ao desejo propulsor de transformações, à vivacidade da memória, do sangue e das raízes, em vez de nos vermos fatalmente destinados à véspera dos acontecimentos inevitáveis e ao temor do desconhecido.

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