A Venezuela enfrenta uma catástrofe dentro da catástrofe. De um lado, dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5, separados por apenas 39 segundos, devastaram o estado de La Guaira, atingiram a região metropolitana de Caracas e derrubaram edifícios na capital. Os abalos interromperam serviços de água, energia e transporte, danificaram e fecharam o Aeroporto Internacional Simón Bolívar de Maiquetía e levaram o Estado venezuelano a decretar emergência nacional.
De outro lado, a tragédia atinge um país cuja infraestrutura e capacidade de resposta já estavam debilitadas por uma prolongada crise econômica e foram ainda mais restringidas por anos de sanções financeiras, bloqueios ao setor petroleiro e cerco econômico impostos pelos Estados Unidos.
Imagens de escombros, edifícios destruídos, pessoas desesperadas e resgates dramáticos correram o mundo. Nesta quinta-feira (25), réplicas continuaram atingindo as áreas afetadas, mantendo pessoas em praças e ruas e dificultando as operações de busca.
A sucessão quase imediata dos dois terremotos agravou a capacidade destrutiva do fenômeno. O intervalo de apenas 39 segundos praticamente eliminou qualquer possibilidade de evacuação entre os abalos e submeteu construções já afetadas pelo primeiro movimento a um segundo impacto ainda mais forte e superficial.
Solidariedade internacional
A comunidade internacional reagiu rapidamente à tragédia. O México anunciou o envio de pessoal especializado em resgate e atendimento médico. O Panamá deslocou uma missão de resgatistas do Sistema Nacional de Proteção Civil para participar das buscas por sobreviventes.
A Colômbia preparou o envio do grupo USAR COL-1, composto por mais de 60 especialistas, quatro duplas com cães de busca e cerca de 12 toneladas de equipamentos. O Equador mobilizou 47 resgatistas, dois cães e seis toneladas de equipamentos, entre drones, câmeras com sensores sísmicos, dispositivos de detecção acústica e ferramentas de corte e perfuração.
No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que o Itamaraty e a Embaixada do Brasil em Caracas avaliassem as medidas de assistência que o país poderia adotar. As brigadas médicas cubanas que já trabalhavam em território venezuelano foram mobilizadas para o atendimento à população atingida. Chile e República Dominicana também anunciaram envio de resgatistas. Paraguai e outros países da região manifestaram solidariedade e disposição para cooperar.
O Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF), anunciou uma doação emergencial de US$ 300 mil para apoiar as ações humanitárias e as comunidades afetadas.
O Vaticano também se mobilizou. O papa Leão XIV enviou uma primeira ajuda de 100 mil euros, em coordenação com o núncio e o arcebispo de Caracas, para apoiar as ações humanitárias. Diversas igrejas estão sendo usadas como abrigo para a população atingida.
Hipocrisia made in USA
Enquanto países do Sul Global, especialmente os latino-americanos, organizam uma ampla rede de solidariedade, Washington tenta se apresentar como benfeitor da Venezuela, apesar de ser o responsável pelo regime de sanções que há anos restringe o acesso do país a receitas, crédito, bancos, seguros e fornecedores internacionais.
O secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, anunciou o envio de equipes de busca e salvamento, recursos médicos e suprimentos humanitários. O governo dos Estados Unidos também prometeu US$ 150 milhões: US$ 50 milhões seriam entregues a organizações de ajuda que já atuam na Venezuela, ainda não identificadas publicamente, e US$ 100 milhões seriam destinados a um fundo humanitário das Nações Unidas.
A face “humanitária” do imperialismo estadunidense é a mesma que sequestrou Nicolás Maduro e Cilia Flores, em janeiro, e tentou impor uma mudança de regime por meio da asfixia econômica e da fome. Entre 2017 e 2019, o bloqueio atingiu redes ligadas à importação e distribuição de alimentos: em 2017, 64% dos venezuelanos relataram ter perdido em média 11 quilos por falta de comida; em 2019-2020, 79% dos lares já não tinham renda suficiente para cobrir a cesta alimentar, e uma em cada quatro famílias vivia insegurança alimentar severa.
Não se trata de negar a importância do socorro imediato anunciado pelos Estados Unidos. O problema é que Donald Trump, Marco Rubio e os demais representantes de Washington não anunciaram a suspensão do regime de sanções que continua limitando a capacidade do Estado venezuelano de responder à tragédia.
Um bloqueio que permanece
A atual estrutura de sanções começou a ser formalmente construída em 2015 e foi ampliada nos anos seguintes. Segundo a própria página da Agência de Controle de Ativos Estrangeiros dos Estados Unidos (OFAC), oito ordens executivas relacionadas à Venezuela permanecem em vigor, acompanhadas por determinações dirigidas aos setores financeiro, petroleiro, de defesa e segurança e por extensas listas de pessoas, empresas, embarcações e aeronaves bloqueadas.
Seu alcance ultrapassa as entidades citadas nominalmente. As normas alcançam o governo venezuelano, o Banco Central, a Petróleos de Venezuela S.A., a PDVSA, e empresas controladas em pelo menos 50% pelo Estado. Isso faz com que ministérios, bancos públicos, empresas de energia e outros órgãos centrais para uma reconstrução de grande escala estejam submetidos à legislação sancionatória dos Estados Unidos.
Washington ampliou, em 2026, autorizações para determinadas operações bancárias, petroleiras, elétricas, minerais, portuárias e aeroportuárias. Essa flexibilização, porém, não representa o fim das sanções. As licenças gerais apenas permitem atividades que, sem autorização expressa do Tesouro estadunidense, continuariam proibidas.
Bens anteriormente bloqueados permanecem congelados. Contratos e transações continuam sujeitos às condições determinadas por Washington. Em determinadas operações envolvendo petróleo e outros recursos naturais, as receitas venezuelanas são mantidas em contas do Tesouro dos Estados Unidos, e sua liberação depende de decisões do secretário de Estado estadunidense. A própria Casa Branca afirma que essas contas devem preservar os recursos para atender aos “objetivos de política externa dos Estados Unidos”.
Em vez de restabelecer a autonomia financeira da Venezuela, o novo desenho permite que determinadas operações ocorram dentro de canais definidos, supervisionados e condicionados por Washington.
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As exceções abrangem alimentos, medicamentos, equipamentos médicos, atividades humanitárias, operações aeroportuárias, pousos de emergência e ambulâncias aéreas. Isso torna juridicamente possível a chegada da ajuda internacional depois dos terremotos, mas não elimina o principal efeito prático das sanções.
A contradição não está em Washington enviar socorro. Está em oferecer recursos emergenciais por canais escolhidos e controlados pelos próprios Estados Unidos enquanto mantém um sistema que restringe o acesso normal da Venezuela a crédito, receitas externas, fornecedores, seguros e ativos públicos. A ajuda atende necessidades imediatas, mas não devolve ao país a capacidade de mobilizar livremente seus próprios recursos para enfrentar a catástrofe.
As opções de Caracas
Diante desse cenário, a presidenta interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou a criação de um fundo emergencial inicial de US$ 200 milhões, formado a partir de ativos de reserva venezuelanos mantidos no Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo Delcy, os recursos serão destinados à reconstrução de infraestrutura pública, à recuperação de hospitais, ao restabelecimento das vias de comunicação e à construção de moradias para as famílias atingidas.
Em meio às sanções e às restrições de acesso ao crédito internacional, Caracas recorre a um instrumento financeiro específico do sistema do FMI: os Direitos Especiais de Giro (DEG). Não se trata de um empréstimo convencional do Fundo, nem de uma nova linha de crédito submetida às condicionalidades historicamente impostas pelo organismo. A operação, contudo, não é gratuita e o país pode ter que pagar juros sobre o montante retirado.
O fundo de US$ 200 milhões, contudo, é apenas uma parte da arquitetura emergencial montada por Caracas. O governo também anunciou linhas especiais de crédito na rede bancária pública e privada para apoiar comerciantes, trabalhadores e famílias que perderam negócios, empregos e meios de subsistência.
A medida busca impedir que a destruição material se converta em colapso econômico local, especialmente nas áreas onde lojas, pequenos comércios e serviços foram atingidos.
Além disso, as autoridades econômicas foram orientadas a criar um fundo de contingência adicional para garantir assistência humanitária imediata aos desabrigados. O governo também convocou empresas privadas a fornecer maquinário pesado para acelerar a remoção de escombros.
Essas medidas mostram o esforço de Caracas para mobilizar os poucos instrumentos financeiros disponíveis sob bloqueio. A Venezuela tenta financiar resgates, hospitais, moradias e reconstrução sem dispor plenamente de crédito externo, receitas internacionais, ativos públicos e canais bancários normais. É nesse ponto que a tragédia revela a dimensão política do cerco: o país não enfrenta apenas a destruição deixada pelos terremotos, mas também os escombros econômicos acumulados por anos de sanções impostas por Washington.
