Quando o protecionismo de Washington fechou parte das portas para os produtos brasileiros, com a imposição de novas sobretaxas, a expectativa era de que o choque provocado pelo tarifaço atingisse de forma significativa as exportações do país.
O que aconteceu, porém, foi mais complexo e, em certa medida, surpreendente. Os Estados Unidos conseguiram reduzir suas compras de produtos brasileiros, mas não conseguiram produzir uma queda das exportações brasileiras como um todo.
Ao contrário: no primeiro semestre de 2026, o Brasil exportou US$ 184,8 bilhões, um crescimento de 11,5% em relação ao mesmo período de 2025 e o maior valor já registrado para um primeiro semestre, superando o recorde anterior, de US$ 166,9 bilhões, registrado em 2024 (Forbes Brasil, 2026).
A explicação está menos em uma suposta imunidade brasileira ao protecionismo de Trump do que na capacidade de diversificação dos destinos de suas mercadorias.3
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Enquanto as exportações para os Estados Unidos recuaram cerca de US$ 2,6 bilhões na comparação com o primeiro semestre de 2025, 17 outros mercados acrescentaram, juntos, US$ 19,3 bilhões às vendas externas brasileiras, um valor quase 7,5 vezes superior à perda registrada no mercado estadunidense.
A China ocupa lugar central nessa transformação. No primeiro semestre, as exportações brasileiras para o mercado chinês chegaram a aproximadamente US$ 58,2 bilhões, consolidando o país asiático como o principal destino das mercadorias brasileiras (Forbes Brasil, 2026).
O movimento não se limita à China. A expansão das vendas para diferentes mercados revela uma alteração mais ampla na geografia do comércio exterior brasileiro, na qual Ásia, Oriente Médio e outros mercados emergentes ganham peso diante da perda relativa de importância dos Estados Unidos.
É nesse ponto que o tarifaço produz um efeito que talvez não estivesse nos cálculos de Washington. Trump tentou utilizar a dependência comercial como instrumento de poder, mas encontrou um Brasil inserido em uma rede de mercados muito mais diversificada do que aquela existente décadas atrás. Ao tentar utilizar o tamanho de seu mercado como instrumento de pressão econômica e política, os Estados Unidos acabaram reforçando um movimento que já estava em curso: a diversificação dos parceiros comerciais brasileiros.
A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu de 12,1% para 9,4% entre os primeiros semestres de 2025 e 2026. No mesmo período, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 13%, enquanto as vendas externas totais avançaram 11,5% (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, 2026).
Apesar de o Brasil ter sido afetado pelas sobretaxas que foram responsáveis por provocar uma retração das vendas para o mercado estadunidense, os números demonstram que o poder de pressão exercido por um grande mercado depende também da capacidade do país atingido de encontrar alternativas.
O Brasil dispõe de uma característica que se tornou particularmente valiosa em um cenário de crescente fragmentação do comércio mundial: uma pauta exportadora capaz de abastecer diferentes regiões do planeta com alimentos, energia, minérios e produtos industriais. Quanto maior o número de compradores relevantes, menor a vulnerabilidade diante das decisões de um único parceiro.
A força da demanda asiática é decisiva nesse processo. O crescimento das exportações brasileiras ocorre justamente em uma conjuntura na qual China e outras economias asiáticas ampliam sua participação no comércio exterior do país. Isso desloca, ainda que gradualmente, o centro de gravidade das relações comerciais brasileiras. O eixo histórico formado pelos vínculos com Estados Unidos e Europa passa a conviver com uma presença cada vez mais forte do espaço econômico asiático.
Há, nesse movimento, uma dimensão claramente geopolítica. A diversificação comercial reduz a capacidade de qualquer potência individual transformar seu mercado em instrumento absoluto de coerção. Ela amplia a margem de manobra diplomática de Brasília e fortalece a estratégia de inserção em um sistema internacional cada vez mais marcado pela disputa entre grandes centros de poder.
É também nesse contexto que os Brics ganham importância. Mais do que um agrupamento político, o bloco reúne algumas das economias que vêm ampliando seu peso no comércio e na economia mundial. A aproximação brasileira com esses países não precisa significar a substituição de uma dependência por outra. Seu significado estratégico está justamente na possibilidade de construir uma rede mais ampla de relações, na qual nenhum parceiro tenha capacidade de definir sozinho os limites da inserção internacional brasileira.
Mas existe uma contradição importante nesse processo. O recorde das exportações brasileiras não significa, necessariamente, uma transformação qualitativa da estrutura produtiva nacional. Grande parte do avanço continua assentada sobre commodities, produtos agropecuários, petróleo e minerais.
O país pode estar ganhando mercados sem necessariamente estar subindo na hierarquia tecnológica do comércio internacional. Pode vender mais para mais países e, ainda assim, continuar excessivamente dependente da exportação de produtos de menor valor agregado.
O mesmo processo que aumenta a autonomia geopolítica brasileira pode, portanto, aprofundar a dependência econômica de commodities.
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Em outras palavras, podemos estar diversificando para quem vendemos sem necessariamente transformar aquilo que vendemos.
Essa é a contradição que o recorde das exportações não pode esconder. Diversificar mercados é fundamental para reduzir vulnerabilidades externas, mas não substitui a necessidade de diversificar a própria estrutura produtiva. A expansão das vendas de soja, carnes, petróleo, minério e outros produtos primários pode melhorar a balança comercial, gerar divisas e ampliar a margem de manobra do país. Mas não resolve, por si só, o problema histórico da posição brasileira na divisão internacional do trabalho.
O verdadeiro salto estratégico ocorrerá quando o Brasil conseguir fazer duas coisas simultaneamente: diversificar seus mercados e sofisticar aquilo que vende a eles. Isso significa agregar valor às matérias-primas, ampliar a participação da indústria, incorporar tecnologia aos produtos exportados e recuperar capacidade produtiva em setores estratégicos.
A tempestade tarifária acabou funcionando como um inesperado teste de estresse para a inserção internacional brasileira. Washington demonstrou que ainda possui enorme capacidade de afetar setores específicos da economia brasileira, mas os resultados de 2026 também revelaram os limites dessa capacidade. O Brasil perdeu espaço no mercado estadunidense, mas encontrou espaço em outros mercados e, no conjunto, exportou mais.
A lição geopolítica é significativa: em um mundo comercialmente fragmentado, a dependência de mercado também é uma forma de vulnerabilidade estratégica. Diversificar parceiros não elimina riscos, mas reduz a capacidade de uma única potência transformar sua dimensão econômica em instrumento de coerção.
Mas a autonomia comercial brasileira não estará completa enquanto a diversificação ocorrer principalmente na direção de novos compradores de commodities. A verdadeira autonomia não está apenas em ter mais compradores, mas em ter maior capacidade de decidir o que produzir, o que exportar e em que posição ocupar na divisão internacional do trabalho.
O Brasil conseguiu diversificar seus mercados. Agora precisa diversificar sua própria economia.
Bibliografia
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Alcance das medidas tarifárias dos Estados Unidos sobre exportações brasileiras. Brasília, 24 de julho de 2026. Disponível em: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços
FORBES BRASIL. Sobretaxado, Brasil volta à mesa com EUA após recorde de exportações e novos fregueses. Forbes Brasil, 27 de agosto de 2026. Disponível em: Forbes Brasil
