O racismo é uma das formas mais persistentes de violência histórica, baseada na discriminação de grupos por características raciais, étnicas e culturais. Seu fortalecimento ocorreu com a expansão europeia entre os séculos 15 e 19, quando a ideia de inferioridade de povos africanos, indígenas e asiáticos foi usada para justificar a escravização e a dominação. Na atualidade, esse debate se mantém em evidência tanto em cenários internacionais — como o massacre do povo palestino — quanto no Brasil, onde as condições de vida das populações racializadas, bem como os episódios de racismo amplamente divulgados pela mídia, escancaram a continuidade dessas práticas de desumanização na sociedade contemporânea.
Ao longo da história moderna e contemporânea, essa violência esteve presente em diversos acontecimentos marcantes da humanidade, como a escravização de povos africanos nas Américas, o apartheid na África do Sul, a segregação racial nos Estados Unidos e até mesmo o nazismo na Europa. Esses fatos demonstram como teorias raciais foram utilizadas para justificar violência e exclusão. O racismo consolidou-se, assim, como uma ideologia de poder que legitimou profundas desigualdades sociais, políticas e econômicas.
Bases profundas de desigualdade racial

Mesmo após avanços legais — e conquistas dos direitos humanos —, o racismo continuou presente, de forma estrutural, em muitas sociedades. Dessa maneira, o preconceito racial não pertence apenas ao passado, mas permanece como uma chaga contemporânea em escala mundial. Nas últimas décadas, episódios de racismo amplamente divulgados pela mídia internacional evidenciam a permanência dessa mazela. Casos de violência policial contra pessoas negras nos Estados Unidos geraram protestos globais, ao tempo em que fortaleceram movimentos como o Black Lives Matter.
Na Europa, jogadores negros sofrem insultos racistas em estádios de futebol, enquanto imigrantes africanos e asiáticos enfrentam discriminação social e xenofobia. Além disso, discursos políticos nacionalistas e extremistas têm contribuído para o aumento da intolerância em diferentes países.
Mas o racismo não se limita a atitudes individuais preconceituosas. É preciso enxergá-lo como parte de estruturas históricas de exclusão. O preconceito racial continua influenciando o acesso ao trabalho, à educação, à segurança e à participação política em várias partes do mundo. Aqui, na América Latina, por exemplo, está profundamente ligado ao processo de colonização realizado por portugueses e espanhóis a partir do século 16.
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A invasão dos territórios foi marcada pela violência contra povos indígenas, pela destruição de culturas locais e pela exploração intensiva de mão de obra escravizada africana, que se tornou um dos principais pilares econômicos das colônias latino-americanas, produzindo riqueza para as elites coloniais às custas da exploração humana. Dessa maneira, o colonialismo criou bases profundas de desigualdade racial que ainda influenciam a realidade latino-americana contemporânea.
Mesmo após as independências no século 19, as estruturas de exclusão racial permaneceram, já que as elites brancas mantiveram privilégios políticos e econômicos nas novas repúblicas. A abolição da escravidão ocorreu sem reparação, perpetuando a pobreza e a marginalização da população negra, enquanto os povos indígenas seguiram enfrentando discriminação e perda de terras. Assim, o período pós-colonial evidencia a continuidade de heranças coloniais nas sociedades latino-americanas, mesmo após o fim formal do domínio europeu.
Outro aspecto importante da realidade latino-americana foi a construção do mito da “democracia racial”. Em vários países — especialmente no Brasil — difundiu-se a ideia de que a miscigenação teria criado sociedades harmoniosas e livres de preconceito racial. Esse discurso afirmava — e infelizmente ainda afirma, em muitos espaços — que diferentes grupos conviviam pacificamente, sem conflitos significativos. Entretanto, sabemos que essa narrativa acabou escondendo profundas desigualdades sociais e econômicas enfrentadas por populações negras e indígenas.
Enquanto a “mistura racial” é exaltada culturalmente, pessoas negras continuam ocupando posições mais vulneráveis na sociedade. Dessa forma, a ideia de “democracia racial” serviu, na maioria das vezes, para dificultar o reconhecimento do racismo estrutural existente na América Latina. Os casos recentes de racismo divulgados pela mídia demonstram objetivamente a permanência desse problema na sociedade latino-americana.
Reprodução de práticas coloniais

Os episódios envolvendo a cidadã argentina Agostina Paez e o cidadão chileno German Maldini, acusados de insultos racistas direcionados a brasileiros, bem como diversos outros casos envolvendo brasileiras e brasileiros como protagonistas de crimes de injúria racial — como o de Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, que torturou uma trabalhadora doméstica no Maranhão —, têm suscitado debates intensos sobre preconceito racial e xenofobia na América do Sul. Tais episódios demonstram que o racismo continua naturalizado em diversos contextos sociais, apesar dos avanços nos debates sobre igualdade racial.
As desigualdades raciais podem ser observadas, principalmente, nos indicadores sociais da América Latina. Pessoas negras e indígenas frequentemente possuem menor acesso à educação de qualidade, aos serviços de saúde e às oportunidades de trabalho formal. Além disso, são as principais vítimas da violência policial e das condições precárias de moradia. Em muitos países latino-americanos — incluído o Brasil —, comunidades indígenas e quilombolas enfrentam conflitos relacionados à posse de terras e à exploração econômica de seus territórios. Grandes empresas frequentemente avançam sobre áreas tradicionais sem respeitar os direitos dessas populações.
Esse processo reproduz práticas coloniais de exploração e exclusão social que atravessam séculos de história. O fato de populações negras e indígenas continuarem ocupando posições de maior vulnerabilidade social expõe a continuidade histórica de mecanismos de exclusão criados durante o período colonial. O racismo estrutural perpetua privilégios herdados do colonialismo, ao tempo em que impede a construção de uma sociedade verdadeiramente igualitária.
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No cenário mais amplo, o extermínio do povo palestino é um exemplo muito nítido de como populações racializadas têm menos atenção e menos empatia da comunidade internacional e, sobretudo, dos governos. À luz das relações desiguais de poder, envolvendo ocupação territorial, violência recorrente e um elevado número de vítimas civis palestinas — mais de 70 mil —, não devemos olhar para o que acontece ali fora do contexto da discriminação racial. Se, na Ucrânia, metade do que ocorre na Palestina estivesse acontecendo, não tenho dúvidas de que a Rússia já teria sido invadida, de fato, pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
O mesmo descaso ocorre em diversas regiões do continente africano que enfrentam situações graves de desigualdade, fome e doenças, agravadas por instabilidade política e conflitos prolongados. No Sudão, a guerra civil iniciada em 2023 gerou uma grande crise humanitária — com milhões de pessoas deslocadas e forte insegurança alimentar. Na Somália, secas recorrentes e conflitos internos alimentam ciclos persistentes de fome — especialmente entre populações rurais. Já na República Democrática do Congo, a instabilidade armada convive com surtos de doenças como ebola e cólera, agravando crises humanitárias em regiões como Kivu. E quem se importa?
Hierarquias na valorização de vidas e contextos
Em 2017, durante uma palestra, apresentei uma análise comparativa da cobertura midiática sobre quedas de aeronaves em países ocidentais e em países africanos. A pesquisa evidenciava uma discrepância significativa na forma como esses eventos eram noticiados. Enquanto acidentes em países ocidentais costumavam receber ampla cobertura — com detalhamento das vítimas, causas e desdobramentos —, ocorrências semelhantes em países africanos tendiam a ter menor visibilidade e tratamento mais superficial. Essa diferença escancarou as assimetrias na atenção midiática global, mas, principalmente, as hierarquias implícitas na valorização de determinadas vidas e contextos.
Esses casos evidenciam como diferentes populações — na maioria das vezes em contextos marcados por heranças coloniais e assimetrias globais de poder — enfrentam níveis desiguais de proteção, visibilidade e resposta internacional. Tudo isso decorre do racismo e da indiferença em relação a essas pessoas e territórios. Aliás, os territórios ainda são vistos como provedores de matérias-primas.
Considerando o que foi dito até aqui, compreender o racismo exige analisá-lo dentro de um contexto histórico mais amplo, relacionando-o ao colonialismo e às formas globais de dominação racial. O preconceito racial não surgiu de maneira isolada, mas faz parte de uma estrutura mundial construída ao longo da expansão colonial europeia. É o resultado de séculos de exploração econômica, escravização e exclusão social. Embora tenham ocorrido avanços importantes na luta antirracista, essa questão ainda demorará muito a ser resolvida.
As leis penais que criminalizam o racismo são fundamentais, porque representam o reconhecimento jurídico da gravidade dessas práticas e funcionam como instrumentos de punição e contenção de comportamentos discriminatórios. Entretanto, não são suficientes para eliminar um problema que está enraizado nas estruturas sociais, econômicas e culturais construídas ao longo de séculos.
Porque a desigualdade racial não é mantida exclusivamente por indivíduos preconceituosos. Ela é, sobretudo, o resultado de Estados cujas ideologias e instituições reproduzem privilégios históricos e exclusões sistemáticas. Por isso, é essencial investir na reorganização das estruturas econômicas, políticas e educacionais, pois o enfrentamento do racismo exige transformações profundas nas estruturas de nossas sociedades.

