Cuba pode negociar com a corda no pescoço? Esta é a primeira pergunta que se deve fazer, porque a linguagem também formula a realidade tal como a entendemos. Seguir dizendo que o Estado cubano negocia com Washington é pouco menos que um eufemismo. Querem forçar o Estado cubano a uma mudança de regime, seja por meio de progressivas concessões, a partir de um golpe interno de elementos favoráveis aos interesses ianques, ou como resultado de uma rebelião popular conservadora.
Enquanto não ocorre algo desse tipo, a prepotência imperial, essa loucura psicológica que governa o mundo, oferece duas alternativas: a destruição imediata por via militar ou a destruição paulatina por meio de um bloqueio total que, para eles, sai muito barato, em meio à indolência de todos os Estados do mundo.
Mas esta não é a primeira vez que Cuba enfrenta uma situação limite. Estamos em um momento obscuramente similar a 1902, quando, em meio à primeira ocupação militar estadunidense, propuseram às forças políticas de então uma disjuntiva fatal: aceitava-se a Emenda Platt na nova Constituição ou continuava a ocupação militar; isto é, ou república neocolonial ou protetorado ianque.

Então também faltava o guia do máximo líder da Revolução, José Martí, que antes da guerra previra que a independência de Cuba da Espanha logo teria que ser também independência dos Estados Unidos. A História não demorou muito a lhe dar razão.
A intervenção militar estadunidense na Guerra de 95 nos arrebatou a soberania de um só golpe. Cuba começava a sair da mais cruel e mortífera política de reconcentração, uma evidente premonição do fascismo europeu, que tinha servido a William Randolph Hearst para manipular a opinião pública estadunidense, apresentando o caso dos cubanos como uma “nação debilitada”, necessitada do bem-intencionado apoio do imperialismo gringo.
A oligarquia midiática, então e agora, divertia-se usando fotos das cidades, representativas de uma decadência acumulada, e onde ainda assim sobreviviam as pessoas. A pobreza continua provocando morbidez.
– Dá-me o jugo, oh minha mãe, de maneira
que, posto nele de pé, brilhe à minha frente
melhor a estrela que ilumina e mata.
Mas a diferença entre então e agora é crucial: a reconcentração transformou-se em um bloqueio de mais de seis décadas, que hoje se configurou em termos totalitários. Vivemos sob os efeitos do totalitarismo ianque, do fascismo MAGA. E ainda assim, sendo os responsáveis por esta reconcentração do século 21 e na escala geopolítica em que a sofre Cuba, não hesitam em apresentar-se como salvadores do país, tal como fizeram há mais de um século, quando seus canhões pregavam em nossas costas as vantagens de sua modernidade racista e elitista em troca de nossa soberania.
Agora, como então, não poucos calculam que a derrubada do Governo cubano ou sua derrota política, duas opções satisfatórias para a política imperial, poderiam representar uma melhora imediata e de curto prazo das condições de vida. Parece que nossa debilidade e isolamento no mundo nos puseram à mercê dos desejos do Império; mas isso não significa que a rendição seja o único caminho.
Não é ocioso recordar o que um século atrás dissemos nós, os cubanos: que aceitar a Emenda Platt equivalia a entregar as chaves da casa ao vizinho poderoso que nos desprezava, nos considerava seres humanos de segunda categoria e que tinha, e ainda hoje tem, poder suficiente para nos avassalar. A única opção com possibilidade de êxito é combatê-lo.
Como demonstrou a História, a república neocolonial impôs e manteve, com a sangria do país, a democracia dos donos estrangeiros e de seus representantes subordinados internos. Pensar que a rendição é o único caminho, o da melhoria imediata, significa submeter-se a um realismo colonial que parece acampar à vontade em boa parte do Terceiro Mundo, que uma vez foi, pelo contrário, um caldeirão anticolonialista.
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É verdade que estamos isolados, que as potências que poderiam contrapor-se ao poderio imperial lavaram as mãos e que, nesta batalha, é muito difícil vencer estando sós, mas isso não implica que não se deva seguir lutando, porque só a luta, ingente, cotidiana e dolorosa, restitui o destino dos povos.
Cuba, com todos os seus defeitos, segue sendo a demonstração simbólica de que outro tipo de sociedade é possível, de que não é preciso submeter-se aos poderes imperiais; do contrário, não se esforçariam tanto para destruir a Revolução cubana.
Querem fazer isso porque Cuba, ainda que sem ser economicamente relevante, tem importância geopolítica e simbólica. E por acaso não é o simbólico um campo de lutas selvagem como poucos na política mundial atual? Acaso não é um dos terrenos fundamentais em que se está mostrando a novidade deste neofascismo que, na economia, não faz senão repetir o consenso neoliberal?
A prepotência e o cinismo neofascista, com Donald Trump como seu líder global, estão reconfigurando a ordem simbólica da política, reabrindo a porta para a expressão pública da perversão imperialista e colonial, enquanto mantêm a continuidade do capitalismo econômico. Com Trump, coroam-se também as contrarrevoluções neoliberal e neoconservadora que foram lideradas por seus antecessores mais exímios: Ronald Reagan e George W. Bush.
Também para eles o aniquilamento da Revolução cubana foi um objeto de desejo, um delírio. Não é por acaso que cada recomposição do setor reacionário, encarnado no Partido Republicano, recalibra a agressividade contra Cuba. Reagan, em seu momento, teve que lidar com os tímidos avanços que tinha representado a curta administração de Jimmy Carter, de maneira similar a Trump com Barack Obama.

Mas nos tempos de Reagan e Bush Jr. ou existia a União Soviética ou acabava de triunfar o chavismo e, com ele, uma onda de governos progressistas na região. Agora, em contrapartida, estamos sozinhos. O Governo tem que administrar um país pressionado por todos os lados, quase sem recursos, sob ameaça de invasão militar a qualquer momento. A população, por sua vez, é apresentada pela mídia hegemônica – e muitas vezes pensada por nós mesmos – como um ser sofredor, assolado por inumeráveis dificuldades; puras vítimas sem agência nem critério, que ou se opõem ao Governo ou são estúpidos – uma coisa ou outra.
Mas o povo de Cuba, com sua proverbial malícia e humor diante das adversidades, está muito distante dessa imagem simplista. Por isso prefiro pensar na gente real, prefiro pensar, por exemplo, em meus avós, que viveram na própria pele todo o processo revolucionário, que carregam inclusive as memórias de seus avós mambises da Guerra de 95, e de seus pais, que sofreram a ditadura de Gerardo Machado e a crise de 1929. Meus avós, que às vezes rememoram a Revolução como uma série de vicissitudes, mas de quem nunca ouvi nem uma apologia idiota nem uma crítica contrarrevolucionária.
Meus avós, sem os recursos de que necessitam, sozinhos – na medida em que se pode estar sozinho em um país tão social –, debilitados por tantos anos de luta, são algo assim como uma metáfora de Cuba. Não se sabe como, mas se levantam dia após dia para cumprir “todas as tarefas” – assim as chamam, usando a velha linguagem da Revolução – da sobrevivência cotidiana. A fila do pão, a compra de alimentos caros, a reorganização dos horários de lavagem e cozinha em função de quando chegam a água e a energia, se é que têm a sorte de que ambas coincidam. Nada disso os derruba nem desmobiliza, ainda que lhes custe uma tristeza e uma energia vital que nunca demonstram.
E apesar de tudo, não deixam de escrever uma mensagem de apoio ou de se preocupar com a situação do neto que está longe e sozinho, mas de outra maneira. Por isso, porque sabem entender a dor dos outros, sempre dizem que estão “bem” ou “vivos”, como se as palavras pudessem acalmar quem pergunta todos os dias em meio à angústia. E ainda, depois de cumprir “todas as tarefas” da casa, encontram tempo para apoiar a irmã que tem um filho com síndrome de Down e está há um ano lutando contra o câncer, e agora vê atrasar sua operação, justamente no momento mais oportuno da evolução da doença, por culpa do bloqueio total dos Estados Unidos.
Esta solidariedade com os demais às custas do próprio bem-estar, esta capacidade de enfrentar com inteireza os desafios diários, essa vontade de manter a dignidade diante das dificuldades, de dizer “hoje nos perdoaram com a energia, de modo que estamos bem”, tudo isso é a condensação real e viva da história de lutas do povo cubano e de sua Revolução.
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Os ianques não só querem eliminar a Revolução e derrubar o Governo – nessa ordem –, querem arrebatar-nos nossos avós, toda essa cultura que encarna também a complexidade e a inteireza do processo cubano. Querem fazer desaparecer nossos velhos veneráveis, os mais íntegros lutadores da história nacional, os que um dia construíram o socialismo, ainda sem saber exatamente como o estavam fazendo.
Por isso não há negociação que valha nem concessão que pese diante da ambição neofascista do imperialismo, porque o que querem arrebatar de Cuba é precisamente a única coisa que nos distingue como nação, como Estado e, sobretudo, como povo, a única coisa que nos resta em meio à pobreza e que fomos construindo precisamente a golpes de luta diária, a única coisa que, afinal de contas, mantém a esperança: a dignidade.

