Com a convicção de que “a força coletiva das colombianas faz florescer”, o II Encontro das Mulheres Defensoras do Meio Ambiente, da Terra e do Território foi encerrado, nesta sexta-feira (5), em Bogotá, reforçando a necessidade de defender a natureza diante dos riscos representados pela candidatura de Abelardo de la Espriella e sua motosserra contra as conquistas do governo de Gustavo Petro.

Entre outras ameaças de degradação e devastação, alertaram as lideranças, a marionete de Donald Trump propõe o desmatamento desenfreado da Amazônia e a utilização do fraturamento hidráulico — técnica de perfuração usada para extrair gás natural e petróleo — a “qualquer custo”, sem levar em conta o impacto ambiental, os riscos de contaminação das fontes de água e as consequências para a vida selvagem.
A preocupação é ainda maior diante da mercantilização dessa riqueza florestal por grandes transnacionais, exatamente no momento em que é necessário enfrentar a emissão de gases de efeito estufa para combater as mudanças climáticas.
Como frisaram as dirigentes, colocar uma decisão de tamanha envergadura — que dialoga com o presente e o futuro das novas gerações — nas mãos de um criminoso como Abelardo, defensor de narcoterroristas e milicianos, sem qualquer identidade com a nação, seria uma completa aberração. Afinal, destacaram, a Colômbia conta com 37 dos 78 páramos — ecossistemas de alta montanha, acima da linha das florestas e abaixo das neves perpétuas — existentes no planeta, que funcionam como uma “esponja viva”, absorvendo e liberando água lentamente para o centro do país, além de representar uma reserva vital de biodiversidade.
“TODAS SOMOS GILMA!”
Falecida em 2014, a líder camponesa Gilma Benítez foi homenageada por ter “dignificado a proteção da vida, das sementes e da natureza”. Precursora dos movimentos de defesa liderados por mulheres, ela contribuiu para dar visibilidade e reconhecimento ao papel feminino como elemento fundamental na proteção dos biomas.
O reconhecimento à sua contribuição foi emocionante, com várias intervenções interrompidas pelo fervor da admiração e pela lembrança de seu legado como impulsionadora da Comissão Nacional de Mulheres Camponesas e da Associação Camponesa de Antioquia, caminhando sempre ao lado das comunidades atingidas pelo conflito armado e pela forte repressão paramilitar.
Sua liderança transcendeu as fronteiras do país, sendo admirada internacionalmente como uma “obstinada defensora da terra, da soberania alimentar e dos direitos das trabalhadoras rurais”.
A apresentação do breve vídeo Permaneça no território – Palavras de Gilma Benítez contagiou o plenário, reforçando a certeza do caminho a seguir. “Para fortalecer essa lógica de que a Mãe Terra tem que cumprir a função social de produzir alimentos para a família, a comunidade e a sociedade”, defendia a líder, é imprescindível “voltar a acender essa chama da dignidade camponesa para nos levantarmos hoje e defender nossas terras, nossos territórios, nossa existência”. “Porque queremos deixar para nossos filhos e para nossas futuras gerações a visão de que o campo também é um espaço de dignidade para a vida”, assegurava.
“Deveríamos elevar a produção à categoria de sagrada,

porque é a produção que alimenta a humanidade”
Em seu depoimento, Gilma explicava que “a produção camponesa não é um trabalho terrível, atrasado, do qual se deve envergonhar, mas uma produção que deveríamos elevar à categoria de sagrada, porque é a produção que alimenta a humanidade”.
Visivelmente comovida, Dora Isabel Díaz, professora da Universidade Nacional da Colômbia, traçou um paralelo entre essa trajetória coletiva, profundamente identificada com o povo colombiano, e o individualismo exacerbado de Ana Lucía Pineda, esposa de Abelardo de la Espriella, que declarou em entrevista à revista Semana que “caso percam as eleições, não há problema, pois já têm a vida resolvida no exterior”.
Para a professora, “estamos vivendo um momento crucial, doloroso, que não é novo, mas com os contornos de uma pessoa que tem relação com o narcotráfico, sem identidade nacional, que tem um discurso de morte, de ódio, de desprezo pela mulher e pelos direitos humanos”. “Definitivamente, isso é um perigo”, advertiu.
Na compreensão de Dora Isabel, a trajetória de Gilma deve servir de inspiração para “combater esse monstro que estamos vendo do fascismo, que representa um risco enorme contra tudo o que estamos festejando e comemorando hoje, que é a luta pelos direitos das mulheres, da terra, da vida, o direito de pensar diferente, o direito de existir”. “É realmente algo alarmante. Como disse Paulo Freire, temos que conservar a esperança e mantê-la. Mas a esperança não é esperar, é fazer, atuar, viver e seguir a luta”, asseverou.
“QUE A ÁGUA, A AMAZÔNIA E A VIDA CONTINUEM SENDO UM BEM DA HUMANIDADE E NÃO UM PRIVILÉGIO DA EXTREMA-DIREITA E DOS RICOS”
A defensora dos direitos ambientais e das mulheres Magaly Belalcázar Ortega expressou seu “reconhecimento a uma mulher que lutou toda a vida pelo território e, sobretudo, pelo direito à terra para as mulheres, para que nossos filhos e filhas não vão à guerra, para que a água, a Amazônia, a vida e as sementes continuem sendo um bem da humanidade e não um privilégio dos grandes latifundiários da extrema-direita e dos grandes ricos do mundo”.
Magaly enfatizou que as mulheres não querem criar filhos para a guerra e que, para isso, é preciso mobilização. “No próximo dia 21 de junho iremos combater aqueles que historicamente expulsaram os camponeses e negaram direitos, promovendo massacres, estupros e expulsando mulheres de seus territórios”. “Foi daí que nasceram os diversos atores armados deste país”, recordou.
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Prestigiando o evento, a ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Irene Vélez Torres, lembrou que, quando criança, conviveu com Camilo, filho da destacada liderança. Com base em tudo o que aprendeu, considera que este é “um excelente momento para homenagear Gilma, que deixou uma rica herança desfrutada pelos movimentos agrários, rurais e sindicais”.
Sua contribuição, esclareceu, foi essencial para impulsionar uma visão de transição energética justa, capaz de democratizar o acesso à energia e superar o extrativismo.
“NESTE MOMENTO O FASCISMO BATE À NOSSA PORTA”, ADVERTE A MINISTRA
“Neste momento em que o fascismo bate à nossa porta”, alertou a ministra, é preciso valorizar o exemplo de Gilma, de como organizava e mobilizava as mulheres “para cuidarmos da terra quando outros tentavam explorá-la, para tecermos comunidade quando outros plantavam divisão e ódio, para defendermos a esperança quando parecia mais fácil a rendição”.

“Por isso, honrar Gilma é também assumir o compromisso de que não nos renderemos, que nunca mais seremos invisíveis e que nossa voz continuará falando sempre alto. Nosso trabalho, que se inspira em sua liderança e em sua sabedoria, tem hoje um lugar para continuar construindo um país mais justo”, afirmou, sob aplausos.
Agradecendo as palavras da ministra, Camilo Álvarez, filho de Gilma, reforçou que “há uma luta bonita e dolorosa” sendo travada pelo “reconhecimento das mulheres indígenas, afrodescendentes e camponesas, que são mais da metade do país, mais da metade da força de trabalho e mais da metade das cuidadoras”.
“O outro reflexo é o do narcotráfico, da especulação financeira, do neoliberalismo, da mentira e da privatização. Nós sempre estaremos lutando ao lado das mulheres, das camponesas, das sementes, da vida e do território. O cenário está posto para o combate. Foi isso o que aprendemos com minha mãe: lutar!”, concluiu Camilo, tendo ao lado o filho Julián Álvarez Corzo, que erguia uma foto da avó.
Como ensinou o plenário: “Que Iván Cepeda dê continuidade ao trabalho de Petro e que seja abundante a colheita!”.

