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Israel mata, palestinos ‘morrem’: as palavras que transformam genocídio em Gaza em tragédia sem culpados Diálogos do Sul Global

Carta branca

A maioria dos meios de comunicação ocidentais apresenta Gaza com uma linguagem assimétrica: “reféns” de um lado, “terroristas” do outro; “o direito à legítima defesa” para Israel, silêncio sobre a resistência palestina. Essa narrativa hierarquiza vidas, obscurece o direito internacional e perpetua uma mentalidade colonial. O jornalismo deveria questioná-la, não repeti-la.

Na maioria dos principais meios de comunicação ocidentais, a guerra em Gaza é narrada por meio de um vocabulário assimétrico que classifica os mortos, hierarquiza o sofrimento e distribui a compaixão de maneira frequentemente unilateral. Reféns de um lado, simples “detidos” ou “terroristas” do outro; “direito à autodefesa” para o Estado que bombardeia, silêncio sobre o direito de resistir de um povo submetido durante décadas à ocupação e à colonização.

Na maioria das redações ocidentais, Gaza e Israel não são narrados apenas por meio de fatos, mas mediante palavras que traçam uma linha divisória invisível. Essa linha não aparece nos mapas informativos, mas nos adjetivos, silêncios, hierarquias e omissões. Dia após dia, ela configura uma gramática do conflito na qual alguns mortos têm nome, rosto e biografia, enquanto outros permanecem como meros números, sombras, “danos colaterais”.

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Reprodução: pixabay /hosnysalah

Esta reflexão evidencia como os léxicos, os informes das agências, as pressões políticas e a autocensura constroem uma narrativa truncada que oculta o direito internacional, invisibiliza os crimes do exército israelense e dos colonos e marginaliza até mesmo as palavras das vítimas palestinas. Por trás desse viés, frequentemente inconsciente, existe um imaginário colonial persistente que continua atribuindo maior ou menor valor às vidas humanas e que o jornalismo deveria questionar, não reproduzir.

O poder das palavras: terrorismo, um termo unidirecional

No Ocidente, a maioria dos meios de comunicação convencionais tem um vocabulário muito definido: “ataques terroristas” para se referir aos ataques do Hamas ou de outros grupos armados palestinos, “organização terrorista” para descrever esses atores e, inversamente, “retaliação”, “operações militares” e “ataques seletivos” para se referir às ações israelenses. Desse modo, a palavra “terrorismo”, que deveria designar a violência intencional contra civis com fins políticos, fica reservada, na prática, apenas a um dos protagonistas.

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Quando os comandos palestinos atravessam a cerca fronteiriça de Gaza e massacram civis, a condenação é total: horror, barbárie, fanatismo, selvageria.

Quando, em retaliação, os bombardeios metódicos destroem bairros inteiros, aniquilam famílias, arrasam hospitais, atacam deliberadamente organizações internacionais presentes no terreno e cortam a água, a eletricidade e o funcionamento das padarias, os meios de comunicação tendem a falar de “ataques”, “objetivos específicos”, às vezes de “erros” ou até de “deslizes”. Nesse caso, a linguagem suaviza a violência em vez de nomeá-la.

O direito de se defender, o direito de resistir: o grande silêncio dos meios de comunicação sobre Gaza

O mesmo desequilíbrio se evidencia no uso do “direito à legítima defesa”: uma frase onipresente para Israel, quase nunca acompanhada de um “direito de resistir” para um povo submetido durante décadas à ocupação militar, à colonização contínua e a um bloqueio que confina dois milhões de pessoas a um território reduzido. O direito internacional, que reconhece o direito de resistir à ocupação, fica eclipsado por uma constante encenação da segurança israelense como a única segurança legítima.

Essa assimetria nem sempre é produto de uma conspiração, mas de um habitus: o de muitas redações socializadas durante anos para considerar o Estado israelense como “nós” — um Estado ocidental, moderno e tecnologicamente avançado — e os palestinos como um “eles” indistinto, potencialmente ameaçador, frequentemente reduzido à sua facção armada. O léxico segue essa divisão mental.

Reféns contra prisioneiros: a cegueira organizada das redações ocidentais

Nada ilustra melhor esse duplo padrão do que a exibição pública de reféns israelenses e o apagamento da história dos prisioneiros palestinos. Os primeiros têm um rosto, uma história, uma família que testemunha, chora, lembra e apela aos governos. Contamos seus dias de cativeiro, nos comove cada vídeo, cada prova de vida, cada libertação, cada corpo devolvido. A emoção é legítima, necessária, universal.

Por outro lado, milhares de palestinos, encarcerados durante anos em prisões israelenses, frequentemente sem acusações nem julgamento, sob o opaco regime da “detenção administrativa”, só têm direito a um status administrativo: “detidos”, “prisioneiros” ou, na melhor das hipóteses, “prisioneiros de segurança”. Quase nunca são chamados de “reféns”, embora seu cativeiro também faça parte de uma lógica de pressão política sobre toda uma população. Às vezes sabemos que são “vários milhares”, mas seus nomes, idades, estado de saúde e famílias costumam permanecer fora do olhar público.

Os mortos sem rosto: como os meios de comunicação desumanizam a Palestina

A assimetria se estende inclusive aos mortos. Os meios de comunicação deram, com razão, ampla cobertura à devolução dos corpos dos reféns israelenses às suas famílias, à espera interminável, ao processo de identificação, aos funerais e à dor incurável. Mas, ao mesmo tempo, centenas de corpos palestinos, retidos durante anos por Israel — 735 nos “cemitérios de números” e quase 1.500 na instalação militar de Sde Teiman — são negados às suas famílias.

A proibição do luto e a recusa em devolver um corpo constituem uma forma extrema de violência e uma técnica de dominação bem conhecida ao longo da história da guerra. No entanto, esse tema ocupa um lugar marginal, ou até mesmo inexistente, nas reportagens especiais e nos artigos de fundo.

Aqui entra em jogo uma economia moral seletiva: o sofrimento israelense é individualizado, humanizado e dramatizado; o sofrimento palestino, por outro lado, é coletivizado, anonimizado e reduzido à abstração. O primeiro exige palavras de ordem políticas — “libertem os reféns” —, enquanto o segundo se dissolve em estatísticas e produz apenas lamentos sem consequências. Esse desequilíbrio não é um simples viés; ele estrutura o quadro mental dentro do qual a opinião pública ocidental julga esse conflito.

Quando as agências fornecem a grade de interpretação

No centro desse processo de construção de significado encontram-se as principais agências internacionais de notícias, que alimentam continuamente jornais, rádio, televisão e sites de notícias. Em redações com excesso de trabalho e escassez de correspondentes, os despachos se transformam no esqueleto dos artigos e das introduções dos noticiários, às vezes copiados quase literalmente, com alguns acréscimos superficiais.

A esse mecanismo soma-se uma dependência sem precedentes. Desde que o governo israelense proibiu, de fato, o acesso dos meios de comunicação internacionais a Gaza, as redações ocidentais foram privadas daquilo que tem sido fundamental para a cobertura de guerras desde a Crimeia, em meados do século 19: a possibilidade de enviar seus próprios jornalistas à frente de batalha para que vissem, verificassem e contassem a história por si mesmos.

Obrigados a trabalhar à distância, os jornais, as emissoras de rádio e televisão dependem quase completamente das transmissões padronizadas dessas grandes agências e de alguns poucos canais com equipes palestinas no local, concentrando assim a produção de imagens e narrativas nas mãos de muito poucos. Essa drástica centralização da narrativa sobre Gaza facilita ainda mais a pressão, a filtragem e a manipulação do conteúdo.

Essas agências têm seus próprios “guias de estilo” e linhas vermelhas implícitas. Ao longo dos anos, adotaram uma linguagem cautelosa e refinada, na qual certas palavras costumam ser consideradas inadequadamente “militantes” — embora, felizmente, isso nem sempre ocorra em alguns jornais independentes — como “colonização”, “apartheid”, “limpeza étnica”, “supremacismo” e “genocídio” —, enquanto outras são consideradas neutras — “conflito”, “tensões”, “confrontos” e “operações”. Essa cautela é incompreensível porque, no caso de Israel-Palestina, ela se traduz em uma reprodução quase automática da terminologia oficial israelense, muito mais do que da utilizada pelos palestinos, pelas ONGs de direitos humanos ou até mesmo pelos organismos da ONU.

Genocídio, apartheid, limpeza étnica: palavras que com demasiada frequência são proibidas em muitas redações ocidentais

Assim, os assentamentos israelenses na Cisjordânia, ilegais segundo o direito internacional e reiteradamente condenados pelos mais altos organismos internacionais, permaneceram durante muito tempo como meros “assentamentos”. O regime de apartheid, embora documentado por várias organizações de destaque, é relegado à seção de “controvérsias”. Os termos “limpeza étnica” ou “expurgo étnico”, utilizados por acadêmicos, historiadores e juristas, costumam ser considerados excessivos, quase indecentes, mesmo quando se baseiam em uma extensa bibliografia acadêmica.

Essa linguagem filtrada chega então às redações nacionais. Ali, sob a pressão dos prazos de fechamento, das limitações de formato e do peso das seções de “notícias sobre crimes”, muitos jornalistas costumam adotar os argumentos dominantes sem uma análise crítica. Esse viés nem sempre é resultado de uma escolha consciente, mas, antes, de um alinhamento gradual com um centro de gravidade discursivo forjado em outro lugar.

Pressões, medos e autocensura

Além desse viés estrutural, existem pressões mais diretas. Jornalistas na França, na Bélgica, no Reino Unido ou em qualquer outro lugar que tentem falar explicitamente sobre “ocupação”, “apartheid” ou “genocídio” sabem que estão sujeitos a campanhas coordenadas de denúncias, insultos e assédio nas redes sociais, frequentemente instigadas por grupos de pressão bem organizados. As redações recebem cartas de embaixadas, ameaças de retirada de publicidade e acusações de antissemitismo utilizadas como medidas de dissuasão.

Em um cenário midiático cada vez mais precário, no qual os freelancers vivem no limite e até mesmo os funcionários efetivos se sentem ameaçados por planos de reestruturação e aquisições, a tentação de evitar gerar controvérsia é forte. A autocensura raramente é admitida, mas é praticada com frequência: as manchetes são suavizadas, palavras consideradas duras demais são omitidas, notícias são adiadas e opta-se por uma abordagem mais humana para evitar a terminologia jurídica polêmica. Em última instância, a soma dessas concessões individuais produz um cenário editorial no qual a versão oficial de determinados Estados prevalece sem um verdadeiro confronto.

Gaza, cemitério de jornalistas: quando testemunhar condena à morte

Os jornalistas palestinos, por sua vez, frequentemente pagaram com suas vidas, ferimentos ou encarceramento pelo simples fato de documentarem o que acontece em Gaza ou na Cisjordânia. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos informa que 289 jornalistas foram mortos pelo exército israelense em Gaza entre outubro de 2023 e meados de dezembro de 2025. Essa taxa de mortalidade não tem paralelo na história do jornalismo de guerra moderno. O Instituto Internacional para a Segurança dos Jornalistas e pesquisadores citados pela ONU descrevem Gaza como o “conflito mais mortífero da história moderna para os jornalistas”, superando o número total de vítimas fatais das principais guerras do século 20 nessa profissão.

Quanto aos testemunhos dos sobreviventes, quando chegam aos estúdios europeus, são manipulados, questionados, vistos com desconfiança e, frequentemente, relativizados pela presença constante de um porta-voz israelense especializado em técnicas de comunicação.

Mais uma vez, a igualdade de tempo no ar é uma ilusão: nem todos os testemunhos têm o mesmo peso simbólico.

Ignorar o direito internacional, adotar uma atitude de complacência e recusar-se a nomear o genocídio

Um dos pontos cegos mais marcantes na cobertura dos meios de comunicação ocidentais reside na marginalização do direito internacional. Quando a Corte Internacional de Justiça, principal órgão judicial da ONU, considerou “plausível” a acusação de genocídio em Gaza em sua decisão de 26 de janeiro de 2024 e ordenou a Israel que prevenisse qualquer ato genocida, punisse o incitamento ao ódio e garantisse o acesso à ajuda humanitária, muitos meios de comunicação reduziram o acontecimento a uma breve formalidade: “A Corte está examinando uma denúncia de genocídio”, “O caso está em andamento”, “Israel rejeita as acusações”. A importância histórica da medida — um monitoramento do comportamento de um Estado aliado do Ocidente — mal foi explorada.

Da mesma forma, quando a Comissão Internacional Independente de Investigação estabelecida pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU determina que Israel está cometendo genocídio em Gaza, e quando organizações como a Anistia Internacional ou a Human Rights Watch, após investigações exaustivas e bem fundamentadas, baseadas em fatos específicos, concluem que Israel pratica um regime de apartheid, a informação costuma limitar-se a declarações superficiais, relegadas à categoria de “acusação controversa”.

E quando as próprias ONGs israelenses, como B’Tselem ou Médicos pelos Direitos Humanos-Israel, falam de um genocídio em curso, a inquietação é palpável: como continuar opondo a suposta “perspectiva externa” anti-Israel às “realidades no terreno”, quando atores israelenses profundamente enraizados na sociedade rompem o consenso e defendem essas palavras?

Isso leva alguns jornalistas ocidentais a falar com cautela: afirmam que “o termo genocídio é controverso”, que “cabe aos especialistas jurídicos decidir” e que “ainda é cedo demais para emitir um julgamento definitivo”. No entanto, a jurisprudência internacional demonstra que a intenção genocida pode ser discernida em políticas destinadas a aniquilar populações civis, destruir suas condições de vida e atacar infraestruturas vitais, como os sistemas de saúde, a água e os alimentos. Recusar-se a participar desse debate deixa o Estado acusado e seus aliados com o poder de ditar a lei, ou melhor, aquilo que eles consideram ser a lei.

O ponto cego colonial: oito décadas de continuidade

Essa recusa em nomear as coisas também se explica por uma cegueira mais profunda: a dificuldade que as sociedades ocidentais têm de se reconhecer como herdeiras de estruturas coloniais. No entanto, a Palestina, desde as expulsões em massa de 1948 até a realidade atual da Cisjordânia, de Jerusalém Oriental e de Gaza, é uma questão colonial.

Aqui falamos de expropriação de terras, deslocamento forçado, sistemas jurídicos separados, estradas segregadas, sistemas de permissões e postos de controle, e uma hierarquia explícita entre cidadãos judeus israelenses e palestinos. Essas realidades coincidem com as categorias de “limpeza étnica”, “segregação” e “apartheid” cunhadas em outros contextos. No entanto, o discurso dominante nos meios de comunicação continua preferindo a imagem de um “conflito intercomunitário” ou de uma “guerra religiosa”, o que equipara os protagonistas e apaga as dinâmicas estruturais de poder.

Para muitas redações, falar de um “Estado colonial”, de um “Estado supremacista” ou de uma “limpeza étnica” implica atravessar uma barreira mental. Não porque esses termos sejam inadequados, mas porque eles abrem um novo campo de reflexão: o das responsabilidades ocidentais, das continuidades históricas entre os impérios de ontem e as alianças de hoje, e da cumplicidade, ativa ou passiva, em um sistema que nega a plena humanidade de um povo. Por isso, preferem permanecer no plano do “ciclo de violência”, que não exige nem memória nem autocrítica.

Uma revolução nas palavras, nas perspectivas, nas fontes e no jornalismo, independente dos formatos estabelecidos

Isso significa que todos os jornalistas ocidentais são propagandistas conscientes? É claro que não. E muitos se recusam a aceitar essa visão, embora a realidade seja mais trágica e comum: um sistema informativo repleto de pressões constantes, disputas de poder econômicas, políticas e ideológicas que criam padrões linguísticos automáticos e pontos cegos. Esse sistema não entrará em colapso por si só. Terá de ser questionado, criticado e reformado de dentro e de fora.

Isso exige pelo menos três mudanças radicais. Primeiro, uma revolução lexical: chamar as coisas pelo nome, citar as categorias do direito internacional e deixar de censurar palavras que são perturbadoras por evocarem passados coloniais.

Segundo, uma igualdade de direitos: dar o mesmo espaço, a mesma voz e a mesma narrativa aos presos palestinos, aos corpos em cativeiro, às famílias às quais é negado o direito ao sepultamento, que aos reféns israelenses e seus entes queridos.

Finalmente, uma descolonização das fontes: conceder um lugar central aos jornalistas palestinos, às ONGs locais e internacionais que atuam no terreno, aos pesquisadores do Sul Global e às vozes dissidentes israelenses, para contrapor as narrativas dos porta-vozes oficiais e dos diplomatas.

Em suma, o que está acontecendo em Gaza e na Cisjordânia vai muito além desse território: é a nossa própria humanidade que está sendo colocada à prova pelas bombas e pelos silêncios.

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