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CAFÉ COM VODKA | O Caderno Latino-americano como instrumento para o futuro da cooperação entre América Latina e Rússia Diálogos do Sul Global

A coluna CAFÉ COM VODKA é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil) em parceria com a Diálogos do Sul Global.

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No último mês de julho, o Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil sediou o 1º Fórum de Cooperação Estratégica entre Rússia e América Latina (CORAL 2026) que aconteceu na Assembleia Legislativa de São Paulo entre os dias 13 e 16. O evento marcou não apenas o primeiro encontro presencial do CICRAL, mas o lançamento de um trabalho conjunto da organização, o Caderno Latino-americano de Cooperação Estratégica com a Rússia, que tem por propósito apresentar um panorama das relações entre os países latino-americanos e a Rússia.

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Talvez a primeira pergunta que se imponha para o leitor seja: “e qual seria a necessidade de um mapeamento dessa natureza?”. Num momento em que todo o mapa geopolítico do mundo se redesenha, compreender o que aproxima a América Latina da Rússia deixou de ser assunto restrito a especialistas. E essa aproximação, ao contrário do que a leitura corrente por vezes sugere, não se explica pela afinidade ideológica entre governos, mas por vínculos estruturais que se mostraram capazes de resistir a crises internacionais e à alternância de poder.

Compreendê-los é menos uma questão de simpatia diplomática do que de reconhecer uma dependência que molda, simultaneamente, a economia e a política dos países da região. Ademais, no trabalho de uma organização que se dedica a relações entre diferentes nacionalidades, é fundamental compreender quais as especificidades dos vínculos estabelecidos, a fim de traçar iniciativas que sejam mutuamente profícuas e benéficas. O diagnóstico, portanto, revela uma relação mais ampla e mais complexa do que sugerem as oscilações da conjuntura internacional. 

Ao analisar doze países da região — Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Costa Rica, Guatemala, Honduras e México —, o trabalho identificou que, a despeito de vínculos políticos majoritariamente duradouros entre as nações observadas, existem perfis diplomáticos e comerciais que oscilam mais ou menos de acordo com a governança local, ou seja, tanto a intensidade quanto a forma dessas relações podem variar conforme as orientações políticas dos governos eleitos, produzindo diferentes níveis de aproximação com a Rússia ao longo do tempo.

O caso brasileiro, por exemplo, demonstra que as relações comerciais e diplomáticas tendem à certa estabilidade mesmo diante de mudanças políticas e de crises internacionais. 

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A manutenção de uma cooperação consistente se manifesta sobretudo em países que apresentam uma rede de  agentes permanentes para a salvaguarda dos vínculos com a Rússia, por meio de instituições e comunidades capazes de sustentar os intercâmbios além dos ciclos políticos. Comunidades de emigrados, universidades e centros de estudos russos, programas de ensino da língua e da cultura e iniciativas de cooperação cultural de caráter continuado funcionam como infraestruturas sociais das relações bilaterais. 

O Caderno foi planejado, portanto, em três frentes de observação, a saber: política, econômica e sócio-humana, de modo a permitir uma leitura integrada de diferentes dimensões que compõem as relações entre a Rússia e os países latino-americanos. Além disso, os países observados foram organizados em três sub-regiões geográficas (América Andina, formada por Colômbia, Equador, Peru e Venezuela; América Central e Caribe, que reúne Costa Rica, Guatemala, Honduras e México; e Cone Sul, composto por Argentina, Brasil, Chile e Paraguai) a fim de que a divisão permitisse uma análise comparativa tanto em relação aos padrões comuns quanto às especificidades decorrentes das diferentes trajetórias de cada sub-região.

Por meio da síntese comparativa, pudemos observar que as relações entre a Rússia e os países latino-americanos não se estabelecem exclusivamente por região geográfica, uma vez que nações de uma mesma sub-região apresentam padrões distintos e níveis diferenciados de cooperação.

Ainda assim, observa-se uma influência pronunciada dos fatores geopolíticos na sub-região central e caribenha, em que a proximidade geográfica com os Estados Unidos e a zona de influência estadunidense — expressa, entre outros aspectos, por mecanismos de integração econômica como o USMCA (T-MEC, que substituiu o NAFTA em 2020) — funcionam como elementos que, em certa medida, restringem a presença russa.

Esse constrangimento tem efeito concreto, pois a proximidade com os Estados Unidos limita, na prática, o quanto países como o México podem comerciar com a Rússia (as exportações mexicanas para a Rússia caíram mais de noventa por cento entre 2021 e 2024). Trata-se de um traço que se apresenta mais diluído nas sub-regiões Andina e do Cone Sul, a despeito da atual guinada da região sul-americana à extrema direita.

As relações político-diplomáticas, portanto, foram dimensionadas via acordos — fossem eles bilaterais ou multilaterais entre Rússia e países latino-americanos. A Venezuela, portanto, se revelou um ponto fora da curva, concentrando 160 acordos bilaterais, enquanto o país seguinte com maior número de instrumentos, o Brasil, contabiliza 69.

A própria diferença numérica põe à mostra a grande concentração das relações russo-venezuelanas no contexto latino-americano, cuja densidade institucional supera significativamente a dos demais parceiros da região. Vale notar, porém, que muitos acordos não significam, necessariamente, muito comércio. A própria Venezuela, apesar de liderar em número de instrumentos, quase não comercia bens com a Rússia (menos de cinco milhões de dólares por ano), sustentando a relação sobretudo pela via energética e estratégica.

As relações econômicas, por sua vez, revelaram uma assimetria estrutural do comércio, já que os países latino-americanos importam da Rússia principalmente fertilizantes e outros insumos essenciais à produção, de difícil substituição no curto prazo; e a Rússia, contudo, importa sobretudo produtos agroalimentares, como café, frutas, açúcar e outros alimentos, que podem ser obtidos com maior facilidade de outros fornecedores.

Isso faz com que haja uma dependência desigual nas relações, isto é, para muitos países latino-americanos, a interrupção do fornecimento russo significaria um abalo direto à produção agrícola e aos custos dos alimentos, enquanto a redução das exportações latino-americanas tende a ser mais facilmente compensada pelo mercado russo.

É essa dependência que ajuda a explicar por que a relação econômica raramente se rompe por completo, ainda que sua intensidade varie conforme o governo. O contraste entre Brasil e Argentina é ilustrativo: a relação brasileira com a Rússia se comporta como uma política de Estado, que pouco muda com a mudança de governo, ao passo que a argentina funciona mais como política de governo e, por isso, oscila bastante a cada mudança. Ainda assim, mesmo nos períodos de afastamento político, como no atual governo argentino, o comércio não cessa, porque a dependência por insumos russos garante um mínimo que a orientação política não derruba.

A proximidade sócio-humana é um fator de particular relevância como elemento de manutenção duradoura entre povos, isto porque a redução do estranhamento no contato com a língua, as manifestações artísticas, as tradições, os personagens históricos e as referências simbólicas da outra cultura fazem com que este “outro” deixe de ser um conceito abstrato e distante, ganhando tangibilidade.

Nessa dimensão, portanto, o que pudemos observar é que elas se estabelecem sobretudo no eixos cultural e acadêmico, e que os diferentes países apresentam densidades e graus de institucionalização distintos. Aqueles, portanto, que conseguem manter uma rede de interesse local (sobretudo Argentina, Brasil e México), são os que mantêm relações mais duradouras, a despeito das oscilações políticas de governança. 

Em vista disso, o Caderno poderá servir como uma ferramenta para a formulação de estratégias, sejam elas de curto ou longo prazo. O mapeamento auxiliará na identificação de áreas em que a cooperação apresenta maior potencial de expansão bem como reconhecer lacunas que demandam a criação de novas iniciativas.

Quer saber um pouco mais? As pesquisadoras Victoria Echeverria e Raquel Siphone participaram do episódio “Rússia e América Latina: Fertilizantes, Diplomacia e a Alma Russa” do podcast “Chutando a escada” (@chutandoaescada) em que falaram sobre os resultados do Caderno. 

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