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Ilka Oliva Corado | A traição do paladar: Magdalena e o abismo entre a champurrada e o suco verde

Lena — ou Magdalena, como se chamava de verdade — abre o saco e pega o que pensa ser o último pedaço de champurrada, mas, para sua surpresa, um punhado de pedaços menores se mistura ao pozolero. Assombrada, fecha os olhos e volta a olhar dentro do saco; aquilo parece um grande precipício. Com urgência, fecha os olhos outra vez, desejando que, ao abri-los, não encontre novamente a grande depressão, mas ela está ali, imóvel. Nesse momento, Lena entra em um estado de estupor, como na primeira vez em que viu a terra vermelha de Salamá.

Algo a sacode, sua respiração muda de ritmo e ela sente como se estivesse se afogando com a própria saliva; desesperada, faz um esforço para engolir, mas há um nó de sal entalado que se desfaz quando sente a paulada na nuca e, de repente, começa a rolar pelos barrancos da memória. Cai de supetão no sabor das manhãs de sua infância. Ali está de novo a inevitável, tão pontual e incorruptível nostalgia que a leva a lugares refundidos em sabe-se lá quais recantos dos anos fugidos.

Pra que diabos, resmunga, usando a raiva como pretexto, de novo com suas onze ovelhas para não se declarar culpada de sentir saudade. Sozinha, toma coragem e se arma para a briga, exigindo que a revistem, tudo para não dizer em voz alta que, como muitas outras almas, a dela também sente falta de vez em quando. Prende o cabelo em um rabo de cavalo, pronta para a luta, mergulha o pedaço de champurrada na xícara de café e, como já pegou embalo, também o pozolero do saco; começa a amolecer tudo com a colher, satisfeita.

Magdalena

Um pensamento imoral atravessa sua cabeça: se suas amizades de agora a vissem molhando champurradas numa xícara de café, a renegariam como uma Judas. Ainda mais apavorada, pergunta-se o que diriam se soubessem que seu verdadeiro nome é Magdalena.

— Magdalena? — exclamariam em coro.
— Sim, como o pão — responderia.

Não, mas Judas maior que ela mesma não existe; ela é uma verdadeira duas-caras entre as duas-caras da turma das Iscariotes, rebate novamente aquele pensamento imoral que aparece sempre no momento menos esperado, como a menstruação quando se está usando roupa clara.

Porque está dito que, às vezes, esses pensamentos intrometidos a colocam em apuros, com inutilidades como essas viagens sobre dignidade, respeito e outras ervas. Coisas que só atrapalham, como os cantos das unhas do dedo mindinho dos pés, que ficam ali se fazendo de grandes mártires, pedindo que não coloquem saltos apertados porque machucam.

Há, machucada estou eu, exclama Magdalena em voz alta, mas, no mesmo instante, fecha a boca e volta a pensar para si mesma, porque é melhor que ninguém escute o que a memória e sua consciência têm a lhe dizer sobre suas manias de louca desvairada.

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Por exemplo, se já esqueceu quando, menina, descalça, deitada na rede, escutava as cigarras cantarem enquanto molhava sua tortilla tostada com banana na xícara de café recém-moído, na casa dos avós, enquanto seu olhar se perdia na majestosa Sierra de las Minas.

Lena então volta a si depois do transe tão deplorável em que a deixou a paulada na nuca, joga o café com a champurrada no vaso sanitário, pega um iogurte da geladeira e vai para a academia, onde combinou de se encontrar com as amigas para a aula de ioga e depois tomar sucos verdes no bar de sucos de Titi, cujo nome verdadeiro é Margarita María del Carmen.

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