Durante anos, Washington tratou o petróleo venezuelano como produto proibido. Impôs sanções, perseguiu compradores, ameaçou empresas e asfixiou Caracas economicamente.
Agora, o mesmo petróleo volta a circular com autorização estadunidense — desde que cumpra uma função estratégica: ajudar a afastar a Índia do óleo russo e manter o comércio energético venezuelano sob a chave jurídica dos Estados Unidos.
Portanto, não se trata de normalização, mas de controle.
O pano de fundo é ainda mais sensível. A Índia participa simultaneamente dos Brics, da Organização de Cooperação de Xangai e do Diálogo de Segurança Quadrilateral (Quad) — este último formado por Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia, e visto por Washington como peça de contenção da influência chinesa no Indo-Pacífico.
Essa sobreposição torna Nova Délhi um campo privilegiado de disputa: parceira energética da Rússia, integrante de blocos multipolares e, ao mesmo tempo, aliada estratégica dos EUA em iniciativas voltadas a conter Pequim.
Entre os fundadores dos Brics, a Índia é o país que mantém a relação mais ambivalente com Washington. Sob Narendra Modi, líder do partido de direita Bharatiya Janata Party (BJP), Nova Délhi combina participação no bloco multipolar, parceria energética com a Rússia e aproximação estratégica com os Estados Unidos.
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A movimentação ganha ainda mais peso porque ocorre justamente em 2026, ano em que a Índia exerce a presidência rotativa dos Brics, assumida oficialmente em 1º de janeiro, sob o tema “Building for Resilience, Innovation, Cooperation and Sustainability”.
A estratégia foi explicitada por Washington ainda em fevereiro de 2026, quando o embaixador estadunidense Sergio Gor afirmou que os EUA estavam em “negociação ativa” com a Índia sobre a venda de petróleo venezuelano.
Mas a Reuters registrou o dado central: Washington incentiva a diversificação indiana desde que ela não envolva o petróleo russo. Essa era a condição. Segundo Gor, “os Estados Unidos não querem ninguém comprando petróleo russo”.

O papel estratégico da Venezuela
Desde janeiro, após o sequestro do presidente Nicolás Maduro, mantido ilegalmente em cativeiro junto com sua esposa, a deputada Cilia Flores, a Venezuela tem sido instrumentalizada por Washington e se tornou uma espécie de protetorado dos Estados Unidos.
Já em maio, Marco Rubio anunciou que a presidenta interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, viajaria à Índia para oferecer o petróleo caribenho ao país asiático.
De fato, poucas semanas depois, ela viajou à Índia, entre 3 e 7 de junho, para discutir energia, investimentos e cooperação bilateral. A viagem ocorreu poucos dias após Rubio visitar o país para uma reunião do Quad.
Apesar da aparente normalidade da visita de Delcy Rodríguez, Rubio declarou reiteradas vezes que Washington mantém a última palavra sobre a política estratégica do petróleo venezuelano.
O secretário de Estado informou também que as receitas obtidas com a venda do petróleo venezuelano estão sendo mantidas em Nova York, não mais no Catar. Mediante a Executive Order 14.373, toda receita proveniente dos hidrocarbonetos e minerais venezuelanos é desviada para uma conta do Tesouro dos Estados Unidos sob administração discricionária estadunidense, destinada única e exclusivamente à aquisição de bens produzidos naquele país, segundo o intelectual venezuelano Luis Britto García.
Também chama atenção que Delcy tenha feito uma “visita de cortesia” ao embaixador dos Estados Unidos na Índia, Sergio Gor, com quem teria conversado sobre “avanços na relação bilateral em benefício de ambos os países”.

Sanções não são punição, são alfândega imperial
As sanções impostas pelos Estados Unidos funcionam como uma alfândega imperial extraterritorial. Washington decide qual barril é ilegal, qual barril é aceitável e qual barril pode servir para dividir adversários.
Esse é o mecanismo mais sofisticado do imperialismo contemporâneo. Ele não precisa ocupar formalmente um território para controlar parte de sua renda. Basta controlar bancos, seguros, fretes, pagamentos, licenças, compradores e ameaças secundárias.
A Venezuela de Maduro passou anos denunciando o bloqueio como guerra econômica. Agora, a retomada parcial das exportações escancara que Washington não “perdoou” a Venezuela. Apenas percebeu que o petróleo venezuelano pode ser útil em outra frente: a disputa contra a Rússia e a contenção da coesão energética dos Brics.
O episódio não é apenas uma venda de petróleo. É uma disputa sobre quem tem o direito de organizar o comércio energético mundial.
Se a Índia compra petróleo russo, Washington pune. Se compra petróleo venezuelano sob licença estadunidense, Washington autoriza. A diferença não está no petróleo. Está na obediência.
O petróleo é venezuelano. O comprador é indiano. O alvo é russo. Mas quem opera o circuito continua sendo os Estados Unidos. Essa é a denúncia central.

