De olho nas eleições, democratas apoiam Trump na asfixia contra Cuba – 31/03
Menos de 24 horas após o presidente Donald Trump declarar que o bloqueio petrolífero contra Cuba não seria mais aplicado, sua porta-voz na Casa Branca insistiu que não houve nenhuma mudança na política e que Washington se reserva o direito de confiscar embarcações do México e de outros países que enviarem petróleo à ilha. E, apesar de versões sobre negociações bilaterais, o governo estadunidense continua apostando no colapso do que chama de uma “Cuba falida”. Confira os detalhes.
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A política de Washington em relação a Cuba segue envolta em decisões contraditórias do presidente estadunidense, o que também reflete as disputas internas dentro de seu governo, tanto em Washington quanto em Miami, além do jogo político dos democratas.
“Cuba será a próxima. Cuba é um desastre… dentro de pouco tempo falhará e estaremos lá para ajudá-los, estaremos lá para ajudar nossos grandes cubano-estadunidenses que foram expulsos de Cuba; em muitos casos, seus familiares foram mutilados e assassinados por Castro. Cuba será a próxima”, reafirmou Trump em 29 de março, durante um voo de retorno da Flórida a Washington.

Na mesma conversa, Trump surpreendeu ao comentar a chegada de um navio petroleiro russo à ilha e afirmar “não nos importa” em relação à possibilidade de carregamentos de petróleo chegarem a Cuba, já que “eles precisam sobreviver”. O navio chegou à ilha em 30 de março, marcando a primeira entrega de petróleo estrangeiro em três meses. O mandatário acrescentou a frase “não tenho nenhum problema” sobre o envio de petróleo por outras nações e afirmou que preferia permitir a entrada do combustível “porque as pessoas precisam de aquecimento, refrigeração e todas as coisas necessárias para viver.”
Horas depois, porém, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que “não houve uma mudança formal na política de sanções [contra a ilha]. Essas decisões estão sendo tomadas caso a caso”. Questionada sobre os comentários da presidenta Claudia Sheinbaum, de que o México estuda retomar o envio de petróleo à ilha, respondeu: “Novamente, não há mudança em nossa política de sanções. Reservamos o direito de confiscar embarcações, se for legalmente aplicável, que violem as políticas, e o presidente se reserva o direito de confiscar essas embarcações”. Ao ser perguntada se a Rússia teria sinal verde para continuar com esses envios, reiterou que será avaliado “caso a caso”.
Vale notar que o site da Casa Branca ainda mantém a ordem executiva de 29 de janeiro, determinando a aplicação de sanções a qualquer país que se atreva a enviar petróleo a Cuba — ou seja, estabelecendo um bloqueio naval.
Não é fácil prever o futuro imediato da política da Casa Branca em relação à ilha, não apenas para observadores externos, mas também para integrantes do próprio governo Trump, incluindo, certamente, seu secretário de Estado cubano-estadunidense Marco Rubio, que vinha defendendo o bloqueio petrolífero.
Em 30 de março, sem fazer referência ao que seu chefe havia dito no dia anterior, Rubio declarou: “Se Cuba realmente quer sair do buraco em que se meteu, ou melhor, em que o regime a colocou, precisa empreender reformas muito sérias tanto em seu governo quanto em sua economia. E, se estiverem dispostos a fazê-lo, nós os ajudaremos”. Em entrevista à Al Jazeera, acrescentou: “Não tomamos nenhuma medida punitiva contra o regime cubano. Eles afirmam que sim, mas não é verdade. A única coisa que mudou para o regime cubano é que já não recebe petróleo venezuelano gratuitamente. Já não recebe subsídios. Essa é a única coisa que mudou”. E reiterou: “Também não pode haver prosperidade econômica sem um nível significativo de liberdade política.”
Rubio não fez nenhuma referência à ordem executiva de 29 de janeiro, nem às pressões sobre México e outros países para interromper seus envios de petróleo à ilha até esta semana, muito menos ao bloqueio econômico de mais de 60 anos contra Cuba. Questionado sobre o que os Estados Unidos querem, Rubio acrescentou: “Não precisamos de nada de Cuba. Quero dizer que é Cuba que precisa de nós.”
Tema eleitoral
Vale lembrar que este já é um momento eleitoral nos Estados Unidos, e Cuba está inserida nesse jogo, para o bem e para o mal. Por um lado, as eleições de meio de mandato em novembro, nas quais está em jogo o controle majoritário de ambas as casas do Congresso, impõem cautela aos republicanos, que por ora dominam o Legislativo — ou seja, não desejam cometer erros que possam beneficiar seus adversários. Ao mesmo tempo, precisam atender às demandas de certos setores, neste caso, o ainda influente segmento anticastrista da Flórida.
Mas os democratas também estão em disputa e não ousarão criticar políticas contra “adversários” como Cuba e Irã, e, ao mesmo tempo, buscarão atrair apoio de setores que historicamente favoreceram os republicanos em estados como a Flórida. Isso pode resultar, curiosamente, em uma pressão da direita sobre os republicanos, incluindo Trump, caso os democratas os critiquem por não serem suficientemente “duros”.
Por exemplo, entre os democratas com aspirações presidenciais está o governador da Califórnia, Gavin Newsom, considerado um liberal centrista. Questionado sobre a política em relação a Cuba, afirmou: “Aprecio, até respeito, que o governo Trump esteja avançando… Esse quase bloqueio criou condições nas quais agora temos 51 prisioneiros libertados, estamos tendo uma conversa diferente com a liderança [cubana], estamos negociando um marco diferente a partir de uma posição de força distinta”. Depois, condenou a “ditadura” de Nicolás Maduro: “Estamos falando de uma ditadura, estamos falando da liderança em Cuba hoje, então devemos agir com esses valores, absolutamente”. Embora em outros temas seja mais coerente, é significativo o receio de criticar a política de Trump em relação à ilha.
Também chama atenção o quase total silêncio de políticos democratas liberais e até progressistas sobre Cuba — incluindo Barack Obama, cujo avanço na normalização das relações com a ilha foi revertido pelo atual presidente. A deputada Alexandria Ocasio-Cortez, uma das líderes da ala progressista, chegou a declarar há um mês que o bloqueio petrolífero contra Cuba faz parte de uma “nova era de depravação” promovida pelo governo Trump, mas desde então pouco voltou ao tema.
Entre as exceções está o senador democrata Peter Walsh, que fez um apelo pelo fim do bloqueio econômico estadunidense. No fim de março, a deputada Ilhan Omar também aderiu a esse chamado: “Estou indignada com o que Trump está fazendo ao povo cubano”, afirmou em discurso no plenário da Câmara, acrescentando:
“O bloqueio petrolífero promovido pelo governo Trump é cruel e indefensável. Cuba não representa nenhuma ameaça para nós e, ainda assim, estamos estrangulando toda uma nação com uma guerra econômica… Não se enganem: esse sofrimento injustificável ocorre porque Trump está tentando forçar uma mudança de regime”.
Para concluir, Omar afirmou: “Em todo o nosso país e ao redor do mundo, as pessoas estão se levantando em solidariedade ao povo cubano, exigindo dignidade, humanidade e o fim desse dano. Mãos fora de Cuba. Fim ao bloqueio já!”
Justiça dos EUA usa sanções para sabotar direito à defesa de Maduro e Cilia Flores – 27/03
Em 26 de março, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro Moros, e sua esposa, Cilia Flores, compareceram à sua segunda audiência de procedimento em um tribunal federal em Nova York, acusados de narcotráfico e, no caso do mandatário, de “narcoterrorismo”. Na sessão, foram abordados o tema de sua representação legal e os próximos passos rumo a um eventual julgamento.
Ambos os acusados, vestidos com uniforme de detentos, sentaram-se ao lado de seus respectivos advogados. Já haviam se declarado “não culpados” das acusações federais durante a primeira audiência, quando Maduro afirmou se considerar “um prisioneiro de guerra”.

O principal tema da audiência foi uma disputa sobre como custear a representação legal dos acusados. A defesa argumentou que o governo dos Estados Unidos está violando direitos constitucionais ao impedir que os acusados contratem livremente seus advogados. As autoridades estadunidenses insistem que o governo da Venezuela não pode transferir recursos para as contas dos acusados, uma vez que esses fundos estão sob sanções de Washington.
O juiz federal veterano Alvin Hellerstein, de 92 anos, do Tribunal Federal do Distrito Sul de Nova York, que preside o caso, ouviu um intenso debate entre a defesa e a promotoria sobre a possibilidade de autorizar uma licença especial que permita o uso de recursos do governo venezuelano para pagar a defesa. Ele ressaltou que o governo dos Estados Unidos não deve interferir no direito constitucional dos acusados de escolher seus advogados.
O advogado de Maduro, Barry Pollack, argumentou que o governo venezuelano está disposto a financiar a defesa do presidente e de sua esposa. Os promotores, por sua vez, insistiram que Washington se recusou a emitir a licença necessária para o uso desses recursos, em razão das sanções ainda vigentes contra ativos e negócios oficiais venezuelanos, e que a negativa se baseia em motivos de “política externa” e “segurança nacional”.
O juiz comentou que acredita que “os Estados Unidos estão fazendo negócios” com a Venezuela e que “as coisas mudaram” no país.
Após quase uma hora de discussão sobre o tema, a disputa não foi resolvida, e o juiz indicou que emitirá sua decisão em breve. O restante da audiência tratou de questões processuais e de um pedido do advogado de Flores para que ela receba maior atenção médica devido a uma condição cardíaca.
Em Washington, sem aguardar o julgamento e desconsiderando a presunção de inocência, o presidente Donald Trump declarou que Maduro é culpado. Durante uma reunião de gabinete, afirmou: “Espero que as acusações avancem. Ele esvaziou suas prisões e foi um grande fornecedor de drogas. Foi capturado e agora terá um julgamento justo.”
Os advogados aguardam a decisão do juiz para saber se terão acesso aos recursos necessários para a defesa. Argumentaram que, caso isso não ocorra, o juiz poderia até descartar o caso. O magistrado esclareceu que essa possibilidade não está iminente, embora também não a tenha descartado completamente.
Pollack é um advogado reconhecido, sobretudo por sua atuação na defesa de Julian Assange, e por ter negociado o acordo com o governo dos Estados Unidos que levou à libertação de seu cliente, encerrando uma batalha judicial de 15 anos. O advogado de Flores é Mark Donnelly.
A acusação federal foi usada como justificativa para sua captura em Caracas por forças armadas estadunidenses em 3 de janeiro, sob o argumento de que Maduro lidera “um governo corrupto e ilegítimo que, durante décadas, utilizou o poder estatal para proteger e promover atividades ilegais, incluindo o narcotráfico.”
As quatro acusações incluem “conspiração de narcoterrorismo”, importação de cocaína, posse de metralhadoras e outros “instrumentos destrutivos”, supostamente ocorridos entre 1999 e 2025. O documento também afirma que o presidente venezuelano teria vínculos com Cartel de Sinaloa, Los Zetas, Trem de Aragua, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e Exército de Libertação Nacional (ELN).
Dezenas de venezuelanos compareceram ao tribunal para acompanhar o caso, e houve uma pequena manifestação de apoio a Maduro na praça em frente ao edifício.
Maduro Moros e Cilia Flores estão detidos em uma prisão federal no Brooklyn.
Trump torra US$ 1 bi por dia no Irã; “narcisista maligno”, diz Sachs – 12/03
Passadas quase duas semanas após Donald Trump ordenar o início da guerra contra o Irã, críticos advertem que o conflito poderia ser o início da Terceira Guerra Mundial, que existe o risco do uso de armamento nuclear e que também poderia marcar o começo do fim de sua presidência.
A aventura bélica contra o Irã é a guerra estadunidense com menor apoio da opinião pública em décadas. Essa falta de respaldo popular, combinada com suas consequências tanto imediatas quanto de longo prazo para a estabilidade do Oriente Médio — inclusive entre aliados tradicionais de Washington —, seus efeitos sobre a economia mundial, sobretudo pelo preço do petróleo, e o gasto fenomenal (algumas estimativas apontam cerca de um bilhão de dólares por dia), levam alguns analistas a considerar que essa decisão militarista debilitará politicamente Trump, tanto dentro do país quanto diante da comunidade internacional.
Outros especialistas preveem que o conflito pode resultar em um desastre ainda maior. O especialista em assuntos geopolíticos Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia, adverte: “Já estamos nas primeiras etapas da Terceira Guerra Mundial”, em um conflito que, segundo ele, não diz respeito apenas ao Irã, mas à hegemonia estadunidense em um mundo que Washington já não controla. À frente está “um homem louco”, um “narcisista maligno” já sem freios.
Em recente entrevista a Danny Haiphong, Sachs relatou prever uma “catástrofe econômica global” provocada pelo mercado do petróleo. Além disso, o perigo é que Trump não sabe o que está fazendo e “é como Roma nas mãos de Nero ou Calígula”. Ele sublinhou: “Já não estamos em uma ordem constitucional, mas em um tipo de loucura nos Estados Unidos.”
Para o coronel reformado Lawrence Wilkerson, ex-assessor de Colin Powell quando este era secretário de Estado no governo de George Bush durante a guerra contra o Iraque, uma das maiores preocupações é a possibilidade de que Israel opte por usar armas nucleares na guerra contra o Irã e contra aliados de Teerã no Oriente Médio.
Em entrevista ao programa Democracy Now, Wilkerson acusou: “Este governo cometeu mais crimes de guerra nos últimos dias do que qualquer outro país desde Adolf Hitler. Bombardeamos incessantemente. Destruímos uma escola, um hospital, pessoas.”
Ele também advertiu que Trump e sua equipe calcularam muito mal esse conflito e que não será algo que possam “vencer” no final. De fato, afirmou: “O que estamos testemunhando agora são os passos iniciais da retirada do império estadunidense do Levante e do Oriente Médio em geral”. Argumentou ainda que Benjamin Netanyahu avaliou a situação e “acredita-se que esteja pronto para usar uma arma nuclear” se as coisas piorarem.
Wilkerson acrescentou prever que “este é o fim da presidência Trump”, quando ele tiver de responder pelas crescentes baixas que ocorrerão e pelas mentiras usadas para justificar essa guerra, além das acusações de que atua a serviço de Israel.
Enquanto isso, os resultados preliminares da investigação oficial sobre o bombardeio a uma escola primária no sul do Irã — pelo qual Trump e seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, inicialmente responsabilizaram o próprio Irã — indicam que mísseis estadunidenses foram os responsáveis pelas 175 mortes, a maioria delas alunas e professores, informou o New York Times. Fontes oficiais não identificadas afirmaram que se tratou de um erro na identificação do alvo e que foram usadas coordenadas baseadas em “dados desatualizados”.
O incidente alimentou as dúvidas do público sobre a ofensiva militar. Além disso, a guerra não está gerando o “patriotismo” desejado pela Casa Branca. Segundo pesquisas recentes, a maioria dos estadunidenses se opõe ao conflito contra o Irã.
Ainda mais notável é que se trata da guerra estadunidense com o menor nível de apoio em mais de 80 anos, informou o New York Times: apenas 41% a apoiam.
Outras sondagens registram níveis ainda mais altos de desaprovação — uma análise da Reuters apontou apenas 27% de apoio, enquanto outra pesquisa da NPR/PBS registrou 36%. Ainda assim, oito em cada dez republicanos continuam apoiando o presidente, embora já haja sinais de desgaste.
Miami e Cuba – 09/03
Cubano-estadunidenses ultraconservadores em Miami estão promovendo publicamente pressão política nos Estados Unidos a favor de uma mudança de regime em Cuba e, uma vez mais — como tantas vezes no passado — acreditam que “agora sim” conseguirão derrubar o governo na ilha. Ao mesmo tempo, estão preocupados com a possibilidade de que o presidente Donald Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, priorizem apenas mudanças econômicas, deixando parte do regime no poder.
“Acho que será possível fazer um acordo facilmente com Cuba”, comentou o chefe da Casa Branca em Miami no sábado. “Eles querem negociar e estão conversando com Marco, comigo e com alguns outros.”
Rubio já havia dito, há algumas semanas, durante uma reunião da Comunidade do Caribe (Caricom), que “Cuba precisa mudar. E não precisa mudar tudo de uma vez, de um dia para o outro. Todos aqui somos maduros e realistas”. No entanto, essas mensagens oficiais às vezes se intercalam com outras que proclamam que o governo de Havana “já está em seus dias finais”.
Não cessam os rumores de que poderia haver um acordo sobre mudanças econômicas, embora o governo cubano insista que não existem tais negociações.
Os fatos que geram expectativas
A operação militar na Venezuela e o sequestro de seu mandatário, além da escalada na retórica oficial sobre Cuba combinada com o bloqueio de envios de petróleo à ilha, geraram expectativas em Miami de que Trump estaria disposto a empregar força militar para derrubar o governo de Havana, explica Guillermo Grenier, professor da Florida International University, que dirige há 30 anos o mais respeitado projeto de pesquisas sobre a opinião da comunidade cubano-estadunidense no sul da Flórida.
Essa retórica do presidente norte-americano tem alimentado um setor extremista relativamente marginalizado nos últimos anos. “O incidente com a lancha que incursionou em águas cubanas é um exemplo de que um certo grupo está emergindo — pessoas que foram bastante marginalizadas nas últimas décadas. Agora, desse setor surgem as vozes mais ouvidas e que recebem a atenção dos meios de comunicação”, comentou Grenier em entrevista ao La Jornada.
No início de março, representantes de 30 grupos de ultradireita se reuniram em uma igreja católica em Miami para rezar antes de divulgar um “Manifesto da Liberdade”, que pediu o desmantelamento do Partido Comunista de Cuba. Diante de versões divulgadas na imprensa norte-americana de que altos funcionários, sob a direção de Rubio, teriam se reunido com o neto de Raúl Castro, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, como parte de supostas negociações, o procurador-geral do estado da Flórida anunciou rapidamente que estava reabrindo uma “investigação criminal” contra Raúl Castro pelo derrubamento de um avião da organização Hermanos al Rescate, em 1996.
Ao mesmo tempo, o Departamento de Justiça federal estaria considerando elaborar acusações penais contra altos oficiais cubanos. Especialistas especulam que isso pode fazer parte de táticas de pressão para uma eventual negociação, embora outros afirmem que a medida é ominosa, já que foi um recurso semelhante que se utilizou para justificar o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela.
“A comunidade do exílio cubano deseja mudança política e agora tem nada menos que Rubio dizendo que talvez isso não seja necessário — que agora podemos promover mudanças econômicas na ilha, porque é disso que a população precisa”, comentou Grenier.
“Há certo repúdio a essa postura de Rubio entre alguns setores da comunidade cubano-estadunidense. Mas também sei de muitos cubano-estadunidenses e cubanos que querem fazer negócios na ilha e que estavam tentando transmitir isso ao secretário de Estado há algumas semanas, quando tudo isso aproximou a possibilidade de mudanças na ilha depois do caso Maduro”, afirmou o especialista, acrescentando que conhece vários empresários que estão conversando com o governo Trump sobre oportunidades financeiras em Cuba.
Maioria apoia o diálogo
Em suas pesquisas desde o início dos anos 1990, Grenier afirma que aproximadamente 40% da comunidade cubano-estadunidense no sul da Flórida apoiaria uma reação violenta contra o governo cubano. No entanto, ele ressalta que historicamente a maioria tem apoiado o diálogo com o regime da ilha — e que até mesmo alguns dos que apoiariam uma ofensiva também defendem conversações.
“Aposto que, se fizéssemos uma pesquisa neste momento, muito mais de 50%, talvez até 60% das pessoas da comunidade cubano-estadunidense diriam: sim, deveríamos nos reunir com o governo cubano e dialogar agora mesmo”, indicou.
Ofensiva legislativa
Os três legisladores cubano-estadunidenses, todos republicanos, do sul da Flórida, têm sido promotores da mudança de regime e, portanto, não necessariamente representam suas bases. “Estou muito contente com o que o presidente está fazendo: voltar a focar em Cuba, reconhecendo que é uma ameaça à segurança nacional e aplicando pressão máxima para derrubar esse regime. Precisamos que esse governo se vá”, insistiu o deputado Carlos Giménez no sábado.
Sua colega, a deputada María Elvira Salazar, foi quem exigiu da presidenta Claudia Sheinbaum que deixasse de enviar petróleo à ilha e elogiou Trump quando ele pressionou o México a cumprir esse desejo.
Legisladores republicanos estaduais têm impulsionado um projeto de lei para permitir a abertura do comércio da Flórida com Cuba caso ocorra uma mudança de regime. Ao mesmo tempo, o governo de Hialeah — cidade com a maior proporção de cubano-estadunidenses no país — tem se reunido para discutir o que poderia acontecer caso haja um novo governo na ilha.
“Estamos esperando por isso há 67 anos”, declarou o prefeito Bryan Calvo ao Politico. “Obviamente esperamos que aconteça o mais rápido possível, mas acho que veremos algo provavelmente antes das eleições de meio de mandato (em novembro)”.
Em uma cerimônia na Casa Branca, na sexta-feira passada, para celebrar o campeonato do time de futebol de Miami — onde Trump felicitou a estrela da equipe, Lionel Messi — na Copa das Ligas da Major League Soccer, o proprietário do clube, Jorge Mas, falou sobre como sua família deixou Cuba depois da revolução e sobre como seu pai, Jorge Mas Canosa, liderou o movimento anticastrista nos Estados Unidos.
“Suspeito que nos reuniremos novamente em breve para celebrar o que está acontecendo em Cuba”, comentou o anfitrião da festa, o presidente norte-americano.
Descarta freio a uma possível negociação
Essas vozes políticas poderiam descarrilar ou frear um acordo impulsionado por Trump com o atual governo cubano sobre mudanças econômicas sem incluir modificações políticas em Cuba? Grenier considera que não.
“Se Rubio decidir que as mudanças econômicas são mais importantes do que as políticas, e se ficar claro que o governo de Trump vai seguir nessa direção, os cubanos em Miami vão apoiar”, prevê Grenier. Ele supõe que haverá pessoas diante do famoso restaurante Versalles, na Calle Ocho, protestando contra um acordo desse tipo, mas acrescenta que, “em geral, os cubano-estadunidenses diriam: bem, este é o plano — vamos em frente com ele”.
Ele insiste, uma e outra vez, no mesmo argumento que já apresentou em entrevistas anteriores ao La Jornada: há algum tempo já não é Miami que estabelece a política bilateral com Havana, mas sim Washington.
Grenier adverte que, no fim das contas, quem toma as decisões é Trump. E que o presidente — também residente do sul da Flórida — já demonstrou ser pouco previsível.
Trump, fanatismo religioso e sua guerra santa para salvar os Estados Unidos – 05/03
Quando o presidente Donald Trump ordenou que jovens uniformizados fossem à guerra contra o Irã, enviou pela rede X uma mensagem oficial da Casa Branca: “Que Deus abençoe os valentes homens e mulheres das Forças Armadas dos Estados Unidos. Que Deus abençoe os Estados Unidos da América”.
Não foi, em si, algo diferente do que fizeram seus antecessores, que sempre ofereceram bênçãos. Mas, desta vez, há um secretário da Guerra com tatuagens das Cruzadas; circulam relatos de que comandantes disseram a suas tropas que esta era uma missão divina; e pastores cristãos nacionalistas repetem que este governo está liderando uma luta existencial em defesa da civilização cristã no mundo.
De fato, ainda antes desta guerra contra o Irã, foram divulgadas imagens nas quais o comandante em chefe aparece cercado por seus fiéis, que rezam por ele na Casa Branca. A Oficina de Fé da Casa Branca — criada pelo republicano em fevereiro de 2025 — é liderada por alguém que, há meses, repete mensagens de que as batalhas deste governo fazem parte de uma “guerra santa”. O próprio presidente também tem reiterado que sobreviver a uma tentativa de assassinato durante sua campanha foi “um sinal de Deus” para liderar o grande e sagrado esforço de “tornar a América grande novamente”. Esta presidência tem insistido em que representa uma grande missão cristã para “salvar” os Estados Unidos.
Na primeira semana de março foi informado que mais de 100 militares reclamaram que altos oficiais violaram a separação entre Igreja e Estado ao justificar a guerra contra o Irã. Alguns relataram que um comandante estadunidense disse a sua unidade militar que não tivesse medo, pois a guerra contra o Irã seria “parte do plano divino de Deus” e que Trump teria sido “ungido por Jesus” para impulsionar o Armagedom. Os denunciantes afirmam que esse tipo de mensagem foi recebido por militares em mais de 40 unidades e em mais de 30 bases militares dos Estados Unidos, segundo reportou a Military Religious Freedom Foundation, organização que monitora e defende a separação entre religião e Estado.
O embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, afirmou em entrevista a Tucker Carlson, em 20 de fevereiro, que seria muito bom se Israel tomasse “essencialmente todo o Oriente Médio”, já que isso estaria prometido na Bíblia.
O secretário da Guerra, Pete Hegseth, instituiu sessões de oração cristã no Pentágono desde que assumiu o cargo. Há algumas semanas, convidou o pastor cristão ultraconservador Douglas Wilson — que defende que a fé cristã deve se impor sobre o governo e a sociedade e que às mulheres não deveria ter sido concedido o direito ao voto, entre outras posições — para visitar e fazer um discurso no Pentágono.
Hegseth nunca escondeu sua lealdade a uma corrente cristã ultraconservadora, criticada por seu viés de supremacia branca. Ele tem tatuagens famosas com símbolos de sua fé — uma Cruz de Jerusalém, símbolo das Cruzadas cristãs, no peito, e as palavras Deus vult, que significam “Deus o quer”, expressão que alguns dizem ter sido um grito dos cruzados, entre outras — e afirmou que elas representam “uma cruzada cristã americana dos tempos modernos”.
Ao mesmo tempo, outro integrante do gabinete, o secretário de Estado Marco Rubio, comentou sem ironia a repórteres na terça-feira que o Irã é governado por extremistas religiosos: “deixem-me explicar em inglês simples, ok? O Irã é governado por lunáticos, por lunáticos religiosos fanáticos”.
Em meio a tudo isso, ecoa Com Deus ao nosso lado, uma já antiga canção de Bob Dylan: “Fui ensinado e criado a respeitar as leis / e que a terra onde vivo tem Deus ao seu lado… Os livros de história contam isso, contam tão bem… a cavalaria atacou, os índios morreram / oh, o país era jovem com Deus ao seu lado… [e conta outras guerras, as duas mundiais e mais]… ‘você não conta os mortos quando Deus está ao seu lado… nunca faz perguntas quando Deus está ao seu lado…’ / Então eu vou embora, infernalmente cansado / a confusão que estou sentindo nenhuma língua pode contar / as palavras enchem minha cabeça e caem no chão / de que, se Deus está do nosso lado, ele deterá a próxima guerra.”
Como dar sentido a uma política externa insensata – 23/02
Uma nova palavra ingressou no léxico político dos Estados Unidos: “sanewashing”, ou “lava-cordura”, termo que descreve o processo de atribuir uma explicação racional e sensata aos giros caóticos, contraditórios e, para alguns, até mesmo loucos da política estadunidense sob o presidente Donald Trump.
As maratonas verbais não são nada fáceis. O porta-aviões que navegava próximo às costas da Venezuela e depois ameaçou Cuba foi agora enviado ao Oriente Médio, como parte do que alguns meios de comunicação comparam à maior concentração de poder militar na região desde a invasão do Iraque, em 2003. No mesmo dia em que Trump inaugurou a reunião de sua “Junta de Paz”, cuja primeira tarefa está voltada para a reconstrução de Gaza — destruída por Israel com bombas estadunidenses —, o mandatário reconheceu que seu governo considera bombardear o Irã, algo que, segundo especialistas em diálogo com funcionários da Casa Branca, pode ser iminente.
Trump, que apresentou como tema de campanha o fim das guerras “estúpidas” e “incessantes”, reconheceu ter realizado ataques militares contra pelo menos sete países em seu primeiro ano de retorno a Washington: Venezuela, Síria, Iraque, Irã, Nigéria, Iêmen e Somália. Além disso, ameaçou realizar ações bélicas no México, Colômbia, Cuba, Groenlândia e Panamá. “Este hemisfério é nosso”, repetiu o secretário de Estado, Marco Rubio, acrescentando: “não vamos permitir que o continente americano seja uma base de operações para adversários, competidores e rivais dos Estados Unidos”.
O ressurgimento da Doutrina Monroe
Em novembro de 2025, o governo Trump divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional, que ressuscitou explicitamente a Doutrina Monroe. O documento antecipava o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e a intensificação da pressão contra Cuba. No entanto, ainda não incluía a exigência de Trump de que a Groenlândia deveria ser incorporada aos Estados Unidos, queira ou não — tema que o presidente ainda não havia apresentado como prioridade antes da publicação do texto.
Seis semanas depois, em janeiro deste ano, o governo divulgou sua Estratégia de Defesa Nacional, publicada pelo recém-rebatizado Departamento de Guerra, que passou a incluir essa nova prioridade: “garantiremos o acesso militar e comercial dos Estados Unidos a territórios estratégicos, especialmente o Canal do Panamá, o Golfo da América (conhecido pelo resto do mundo como Golfo do México) e a Groenlândia”.
O mandatário proclamou que a Junta de Paz, da qual é presidente, controlará Gaza e que seu genro, Jared Kushner, está “projetando” o desenvolvimento imobiliário, bases militares e moradias que seriam construídas sobre os escombros do genocídio cometido por Israel.
Enquanto assume o controle do território do povo palestino, Trump também reiterou outros desejos de expansão territorial de seu país, declarando que o Canadá deveria se tornar o 51º estado norte-americano — ou talvez Panamá e Groenlândia também.
“Este é um presidente de paz”, insistiu Rubio, mensagem que funcionários do Departamento de Estado foram orientados a enfatizar.
As figuras-chave
O que Rubio, o secretário do Tesouro Scott Bessent e o vice-presidente J.D. Vance compreendem é que uma parte significativa da base política de Trump acredita que os Estados Unidos se concentraram excessivamente em guerras e comércio exterior, e não o suficiente na melhoria da economia interna — daí, em parte, o lema “América Primeiro”. Para Rubio e Vance, ambos com ambições presidenciais para 2028, encontrar formas de apresentar suas políticas sob essa perspectiva é fundamental para seus futuros políticos.
“Sendo franco, realmente não me importa o que aconteça com a Ucrânia de uma forma ou de outra”, afirmou o então senador J.D. Vance em um programa de Steve Bannon — ex-estrategista político de Trump — em 2022, antes de ser escolhido como companheiro de chapa nas eleições de 2024. “O que me importa é que, na minha comunidade, a principal causa de mortes entre pessoas de 18 a 45 anos é o fentanil mexicano que entra pela fronteira sul.”
Em privado, afirma-se que o vice-presidente é uma voz insistente contra novas operações militares externas.
Outro ator-chave na política externa do governo Trump é o secretário do Tesouro, Bessent. Enquanto o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, também estão envolvidos nas decisões sobre políticas comerciais, Bessent é visto como o principal elo com Wall Street e o grande empresariado. Cabe a ele a tarefa de explicar como as políticas tarifárias erráticas do presidente poderiam ser decisivas para ampliar o acesso a petróleo e minerais críticos, ao mesmo tempo em que se reduz o enorme déficit orçamentário.
Foi Bessent quem convenceu Trump, no ano passado, a anunciar uma pausa na implementação de tarifas que estavam deprimindo os mercados de títulos. Tudo indica que o presidente leva suas opiniões em consideração — ou, ao menos, as escuta.
Rubio é outro dos principais atores da política externa, um ex-senador historicamente associado à ala intervencionista neoconservadora da cúpula política estadunidense. Agora, porém, o político cubano-estadunidense foi obrigado a ajustar suas posições para servir a seu chefe e à base política do governo.
“Somos parte de uma civilização — a civilização ocidental. Estamos unidos pelos laços mais profundos que podem compartilhar as nações, forjados por séculos de história comum, pela fé cristã, pela cultura, pela herança, pelo idioma, pelos ancestrais e pelos sacrifícios feitos por nossos antepassados em nome da civilização que herdamos”, declarou Rubio a seu público em Munique, na Alemanha, em fevereiro.
Embora várias fontes tenham informado ao La Jornada que Rubio é a principal força por trás dos esforços dos Estados Unidos para derrubar o governo de Cuba e isolar a China, em sua passagem pela Alemanha seu foco foi explicar a política de “America first” defendida por Trump. “Construir uma cadeia de suprimentos ocidental para minerais críticos que não seja vulnerável à extorsão por outras potências, juntamente com um esforço unificado para competir pelos mercados das economias do Sul Global, é prioritário”, afirmou. “Juntos, não apenas podemos retomar o controle de nossas indústrias; podemos prosperar nos setores que definirão o século XXI”, acrescentou o funcionário. Trata-se quase da mesma formulação utilizada por Bessent.
Ao resgate
Embora tudo isso soe racional e faça certo sentido, o chefe de Rubio, Bessent e Vance frequentemente acaba complicando — e até contradizendo — seus próprios assessores, que em seguida precisam “lavar com cordura” essas incoerências.
Na terceira semana de fevereiro, conversando com repórteres durante um voo para a Geórgia, Trump foi questionado sobre um comentário de seu antecessor, Barack Obama, segundo o qual extraterrestres seriam reais. “Ele divulgou informação confidencial. Não deveria ter feito isso”, respondeu o presidente, aparentemente confirmando que o governo possui provas de vida extraterrestre. Sem dúvida, os “lava-cordura” agora terão o desafio de elaborar uma política de “America First” antes mesmo de lidar com extraterrestres.
Repúdio ao retorno da Doutrina Monroe e às medidas contra Cuba – 11/02
Legisladores federais progressistas, junto com atores, escritores e músicos renomados, condenaram os esforços do governo de Donald Trump para asfixiar o povo cubano e repudiaram a tentativa de ressuscitar a Doutrina Monroe ao promover uma resolução destinada a reformar a política estadunidense no hemisfério e pôr fim às intervenções e sanções unilaterais de Washington nas Américas.
Os legisladores federais apresentaram uma resolução formal que solicita que o governo dos Estados Unidos proclame que a Doutrina Monroe já não faz parte da política externa do país, que sejam anuladas as sanções unilaterais que provocam crises humanitárias — destacando hoje o caso imediato de Cuba —, que sejam desclassificados todos os arquivos oficiais sobre golpes de Estado e apoio a ditaduras nas Américas por parte de Washington, e que haja uma reforma das instituições financeiras internacionais para conceder maior voz aos países da região.
“A doutrina Trump representa um perigoso retorno ao intervencionismo fracassado, e estamos vendo isso se desenvolver em todo o hemisfério neste momento”, declarou no dia 11 de fevereiro a deputada Nydia Velázquez ao apresentar a resolução junto com outros 17 membros do Congresso. “Tanto Venezuela quanto Cuba demonstram claramente o interesse deste presidente — não do povo venezuelano nem do povo cubano — que é estrangular a economia de Cuba e também a da Venezuela.”
Velázquez foi acompanhada na coletiva de imprensa por seus colegas Delia Rodríguez, Rashida Tlaib e Jesús “Chuy” García para apresentar a resolução, semelhante a uma proposta anterior que chegou a contar com o apoio de 100 dos 435 legisladores da Câmara dos Representantes. Embora seja quase certo que a resolução não avance em um Congresso dominado pelos republicanos, Velázquez explicou que ela servirá como instrumento de organização tanto dentro do Congresso quanto entre movimentos sociais que buscam mudar a política externa estadunidense. “Um ano atrás, talvez oito meses atrás, ninguém esperava a reação do povo estadunidense rejeitando a violência do ICE. E precisamos continuar educando o povo estadunidense sobre as implicações da Doutrina Monroe”, afirmou.
Ela assinalou que o Center for Economic and Policy Research, a Alianza Americas e outras 29 organizações sociais anunciaram que pressionarão legisladores com base nessa resolução, incluindo a necessidade de frear as medidas contra Cuba e Venezuela.
Deixem Cuba viver
Ao mesmo tempo, multiplicam-se manifestações dentro e fora do Congresso contra as medidas aplicadas pelo governo Trump contra Cuba. “O que está acontecendo agora é que se tornou aceitável que todo o mundo ocidental olhe para o outro lado enquanto um povo é submetido à fome e à privação porque se opõe a determinados atores políticos e regimes”, criticou a legisladora progressista Alexandria Ocasio-Cortez em entrevista à revista digital Pablo Reports, ao ser questionada sobre a política em relação a Cuba. “O que estamos vendo é o risco de hospitais deixarem de ter combustível. Estamos falando de crianças inocentes, de mulheres que podem estar em perigo. Creio que cabe a todos nós defender os direitos humanos em qualquer lugar.”
“Esta é uma emergência”, advertiu no mesmo dia 11 a deputada federal Tlaib, a única palestino-estadunidense no Congresso. “Vemos isso na terrível nova ordem executiva do governo Trump para isolar e estrangular o povo de Cuba. O povo cubano está passando fome por causa de nosso país. Um país de 11 milhões de pessoas sem combustível. Pensem nisso: lares, escolas e hospitais sem eletricidade, crianças sem alimento ou medicamentos. Isso é pura crueldade. Por isso todos dizemos, juntos: deixem Cuba viver.”
Em outra iniciativa, os atores Mark Ruffalo, Susan Sarandon e Kay Penn, a escritora vencedora do Prêmio Pulitzer Alice Walker, 22 membros do conselho municipal de Nova York, professores universitários como Greg Grandin e Michael Hardt, o recentemente libertado preso político indígena Leonard Peltier, o Movimento por Vidas Negras, Pastores pela Paz, o The People’s Forum e a Coalizão ANSWER, entre outros, impulsionam uma petição intitulada “Deixem Cuba viver”. No documento, afirmam: “fazer uma população passar fome para submetê-la não é diplomacia. É uma forma de terrorismo”. E conclamam: “todas as pessoas de consciência a rejeitar essa crueldade e exigir o fim imediato do bloqueio”.
Parte da história
A resolução legislativa para pôr fim à Doutrina Monroe inclui um catálogo de intervenções, invasões e outras formas de interferência de Washington nos assuntos soberanos dos países do hemisfério ao longo de dois séculos, começando com a invasão militar do México em 1846. “De 1898 a 1934, os Estados Unidos realizaram intervenções militares em Cuba, Panamá, Honduras, Nicarágua, México, Haiti e República Dominicana, conhecidas como as ‘guerras das bananas’, destinadas a promover os interesses financeiros de poderosas empresas estadunidenses”, afirma o texto. O documento também menciona, nas décadas posteriores, golpes de Estado, ações da CIA contra diversos governos latino-americanos e o apoio à Operação Condor nos países da América do Sul.
Na coletiva de imprensa, a advogada estadunidense Jennifer Harbury descreveu como militares guatemaltecos, trabalhando com a CIA, desapareceram e assassinaram um líder guerrilheiro daquele país que era seu marido. A chilena Nieves Ayress relatou a tortura que sofreu sob a ditadura de Augusto Pinochet, respaldada por Washington.
Tlaib vinculou essas políticas externas ao que ocorre dentro dos próprios Estados Unidos: “Sabemos que povos em toda a América enfrentam as mesmas forças opressivas que enfrentamos aqui em casa. As táticas do Comando Sul estão intimamente ligadas aos sequestros realizados pelo ICE aqui dentro do país e aos assassinatos em território estadunidense. Estamos unidos por essa história de militarização dos Estados Unidos. É por isso que estamos aqui para lutar pelo fim da Doutrina Monroe em todo o hemisfério: um ataque contra um é um ataque contra todos nós. A esmagadora maioria dos estadunidenses está conosco.”
Trump celebra despojo do México – 04/02
Menos de uma semana depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elogiar a presidenta Claudia Sheinbaum como “uma líder maravilhosa e altamente inteligente”, a Casa Branca publicou, no dia 2 de fevereiro, uma “mensagem presidencial” celebrando o “triunfo” estadunidense na guerra contra o México, há 178 anos, quando foram anexados 1 milhão 359 mil 744 quilômetros quadrados do território mexicano. O texto ressalta que esse episódio marcou o início do domínio internacional do país do norte.
A mensagem também destaca que, até hoje, os Estados Unidos seguem defendendo sua “soberania” diante das ameaças provenientes do México e do restante do hemisfério.
As mensagens contraditórias são mais um exemplo do estilo de negociação de Trump: por um lado, mostra-se muito cordial pessoalmente com seus interlocutores, sem que isso impeça que, poucas horas depois, surjam insultos ou ameaças contra essas mesmas lideranças ou contra os países que representam. Basta observar o tom positivo da reunião com o presidente Gustavo Petro, realizada na Casa Branca, após semanas de ataques e ameaças, incluindo o aviso ao colombiano de que “deveria cuidar do próprio traseiro”.
Trump tem elogiado suas contrapartes mexicanas e, ao mesmo tempo, criticado o governo pela suposta falta de controle do narcotráfico, chegando inclusive a afirmar que os cartéis governam grande parte do país.
Assim, as mensagens da Casa Branca dirigidas ao México, apenas nas últimas semanas, vão desde a celebração do aniversário da perda de metade do território mexicano para os Estados Unidos até elogios à presidenta Sheinbaum, passando por declarações de que o México obedece ordens de Washington sobre Cuba e pela promoção de teorias conspiratórias segundo as quais mexicanos desejariam reconquistar seus territórios perdidos por meio de um “golpe” contra a potência norte-americana.
Essas mensagens contraditórias não fazem parte apenas de uma tática de negociação, mas também expressam diferentes correntes dentro do movimento político liderado por Trump, inclusive no interior da própria Casa Branca.
Em janeiro, em sua conta pessoal em rede social, o presidente estadunidense promoveu um livro que afirma que o governo mexicano e o partido Morena impulsionam um complô para realizar um “golpe invisível” nos Estados Unidos, com o objetivo de recuperar territórios perdidos, apoiar os democratas e promover a cultura mexicana. Embora a obra tenha sido amplamente ignorada por diversos meios nacionais, foi repetidamente promovida por veículos conservadores e chegou ao topo da lista de livros de não ficção mais vendidos do The New York Times.
O autor, Peter Schweizer, incorporou respostas oficiais e críticas ao livro como parte de sua estratégia de divulgação e informou que foi convidado a comparecer, em março, diante de um comitê do Senado para testemunhar sobre suas conclusões. Segundo reportagens, essas teses são promovidas pelo poderoso vice-chefe de gabinete Stephen Miller, arquiteto da política antimigração implementada por Trump e defensor de maior pressão sobre o México para conter a migração e subordinar-se aos interesses da superpotência.
Por sua vez, Joshua Treviño, um dos discípulos de Miller e atualmente integrante do America First Institute — organização fundada por Miller antes de retornar à Casa Branca no segundo mandato de Trump — publicou, no dia 02 de fevereiro um artigo na revista The Spectator intitulado: “Sim, existe uma aliança Estado mexicano-cartel”. Seu argumento central sustenta a existência de uma suposta coalizão entre Andrés Manuel López Obrador e o cartel de Sinaloa, sem apresentar provas.
Há um setor do movimento direitista nos Estados Unidos que mantém um ritmo constante de ataques contra o México e seus políticos, retratando-os como “ameaças”, não apenas entre as elites, mas também nas bases sociais. Esse discurso é alimentado por Trump e seus aliados — como ocorreu durante suas duas campanhas eleitorais — e, ao mesmo tempo, pressiona a Casa Branca e o Congresso a responder às demandas relacionadas ao controle migratório e ao combate às drogas.
Foi nesse contexto que alguém na Casa Branca decidiu publicar, como mensagem oficial do presidente Trump, a celebração do aniversário da guerra contra o México.
A declaração interpreta a conquista daqueles territórios mexicanos como “o restabelecimento da soberania estadunidense (…) que ampliou a promessa da independência por todo o nosso majestoso continente”, algo que teria sido “guiado pela fé constante de que nossa nação estava destinada, pela providência divina, a expandir-se até as costas douradas do oceano Pacífico (…) e surgir como um superpoder continental que o mundo moderno jamais havia visto”.
O texto cita a doutrina do Destino Manifesto, presente “em cada coração estadunidense”, como justificativa para a declaração de guerra contra o México, com o objetivo de “defender a segurança da nação, nossa dignidade e nossas fronteiras soberanas”.
Não há qualquer menção ao fato de que, em parte, essa guerra também serviu para defender a escravidão como instituição nos Estados Unidos.
A declaração insere esse passado em um contexto contemporâneo: “Guiados por nossa vitória nos campos do México há 178 anos, não poupei esforços para defender nossa fronteira sul contra a invasão, manter o Estado de direito e proteger nossa pátria das forças do mal, da violência e da destruição”. O texto enumera ações do governo para frear a entrada de drogas, conter a “invasão de estrangeiros ilegais” e desmantelar redes de “narcoterrorismo” no hemisfério, além de recordar que está sendo implementado o chamado Corolário Trump da Doutrina Monroe.
A mensagem conclui afirmando: “neste aniversário de uma das primeiras demonstrações da força militar de nossa nação — e enquanto celebramos os 250 gloriosos anos da independência dos Estados Unidos — honramos a memória dos homens valentes que deram suas vidas em serviço à nossa nação. Cento e setenta e oito anos depois, seu legado permanece vivo em nossa força duradoura, nosso compromisso com a soberania e o poder incomparável do espírito estadunidense”.
Ao que tudo indica, essa guerra ainda continua — ao menos no discurso político atual.
Influências divergentes e contraditórias na política externa de Trump – 30/01
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apenas neste mês, ameaçou bombardear o Irã, invadir a Groenlândia e realizar ataques militares contra cartéis no México — embora depois tenha descartado uma incursão e, no dia 29 de janeiro, elogiado a presidenta Claudia Sheinbaum. Também decepcionou tanto liberais quanto conservadores antichavistas ao destacar sua relação “positiva” com a dirigente venezuelana Delcy Rodríguez.
Grande parte da base conservadora do Partido Republicano desaprova aventuras bélicas no exterior. “Os Estados Unidos não deveriam interferir em outros países que têm vínculos limitados com nossa nação”, opina a maioria dos integrantes do partido em uma pesquisa realizada pela Politico e publicada no fim de janeiro.
Em relação ao México, nesta mesma enquete, 44% dos que se identificam com o movimento Make America Great Again (MAGA), de Trump, afirmam que os Estados Unidos “não deveriam” lançar uma ação militar no país vizinho. No entanto, antes de qualquer alívio, 39% dos simpatizantes do MAGA apoiam uma ação militar no México. Mais ainda: o apoio a uma intervenção militar no país é maior do que o registrado entre aqueles que defendem uma operação bélica contra Cuba.
Mas a opinião pública não é a única — nem necessariamente a mais influente — sobre a política externa estadunidense, e às vezes apenas reflete o que escuta do próprio presidente. Por exemplo, na mesma pesquisa, surpreendeu que 21% da base MAGA considere que se deveria adotar uma ação militar contra a Islândia — país que nunca esteve na lista de possíveis alvos deste ou de governos anteriores. Tudo indica que isso resulta do fato de Trump ter confundido repetidamente Islândia com Groenlândia em seus discursos.
As diversas correntes e influências dentro e ao redor da Casa Branca
Às vezes surpreendem as suposições sobre as aparentes linhas ideológicas dentro da cúpula governamental. Por exemplo, tem sido difícil explicar, até mesmo para integrantes de seu próprio círculo, o apoio até agora demonstrado ao governo venezuelano representado por Delcy Rodríguez.
O secretário de Estado, Marco Rubio, foi interrogado repetidamente em uma audiência no Congresso no fim de janeiro sobre se o presidente Trump está, como ele próprio afirmou, mais interessado no acesso ao petróleo e aos minerais de países como a Venezuela, se sua motivação seria conter o narcotráfico ou se o objetivo principal seria enriquecer junto com sua família e aliados.
“Há relatos de que vocês concederam licenças sem concorrência a duas empresas para vender petróleo venezuelano, uma das quais é uma grande doadora do presidente. Para muitos estadunidenses, isso cheira mal”, declarou o senador democrata liberal Chris Murphy durante a audiência com Rubio.
Ele também perguntou: “Se Delcy Rodríguez, que é uma líder não eleita e esteve à frente de operações de tortura sob Nicolás Maduro, continuar no poder daqui a seis meses, isso significará que sua política foi um sucesso ou um fracasso?”.
Invertem-se os papéis
De forma inesperada, foram os democratas liberais que passaram a criticar o governo Trump por não promover uma mudança de regime profunda na Venezuela, enquanto Rubio se viu obrigado a defender os chavistas ainda no poder.
Para Trump, quase sempre suas políticas estão relacionadas ao dinheiro. Sua fortuna pessoal aumentou em mais de um bilhão de dólares apenas em seu primeiro ano como presidente, enquanto sua esposa e seus filhos também prosperaram com a permanência do patriarca na Casa Branca. Ao mesmo tempo, existem intensas disputas sobre política externa dentro de seu gabinete e círculo íntimo.
Segundo relatos, o secretário Rubio e o vice-chefe de gabinete Stephen Miller são defensores de ações militares contra Venezuela, Irã e até Cuba, enquanto o vice-presidente J.D. Vance e o filho mais velho do presidente, Donald Trump Jr., junto com outros integrantes das fileiras do MAGA, mostram-se mais relutantes e fiéis às promessas de campanha de evitar novas aventuras militares e invasões em outros países.
Trump chegou à Casa Branca em parte graças aos eleitores do movimento MAGA, enfurecidos com os gastos gerados por guerras intermináveis, enquanto não se priorizava o lema “América First”, outro dos pilares do movimento trumpista.
“O rumo irreversível adotado pelo partido e pelo presidente tem como plataforma central desse movimento conservador o antiglobalismo, o realismo e a moderação na política externa, restrições à imigração e o nacionalismo comercial”, explicou Curt Mills, diretor da publicação American Conservative, em um fórum organizado pelo Stimson Center em 29 de janeiro.
As vozes centrais desse movimento, acrescentou Mills, são os comentaristas e apresentadores de podcasts Tucker Carlson e Joe Rogan, cada um com milhões de seguidores, junto com o ex-estrategista político da Casa Branca Steve Bannon — que conta com cerca de um milhão de simpatizantes em suas redes sociais — e a ex-deputada Marjorie Taylor Greene.
Carlson e Greene classificaram como um erro e um mau uso de recursos a operação militar estadunidense ordenada por Trump para sequestrar Nicolás Maduro.
Rogan, com 20 milhões de inscritos no YouTube, declarou que seria uma “ideia terrível” continuar com ações militares contra a Venezuela, ao mesmo tempo em que comparou as táticas dos agentes federais de imigração em Minneapolis às da Gestapo. Essas figuras foram centrais para a vitória eleitoral de Trump.
Os conservadores
No entanto, setores tradicionais do Partido Republicano continuam sendo intervencionistas. O senador Ted Cruz, com ambições presidenciais para 2028, apoiou abertamente o sequestro de Maduro, defende medidas mais duras para derrubar o governo de Havana — ele é cubano-estadunidense — e é um firme defensor do apoio incondicional a Israel. A maioria de seus colegas republicanos no Congresso coincide com ele no respaldo a ações contra a Venezuela e nas ameaças militares ao Irã.
Mais perto de casa, muitos desses políticos, apesar de suas diferenças, concordam que os Estados Unidos devem adotar medidas cada vez mais firmes para enfrentar a crise de dependência de drogas em seu território e, como parte disso, “fechar” a fronteira, criticar o México por falhas no controle do narcotráfico e da migração — fatores que classificam como ameaças à “segurança nacional” da superpotência.
Como parte dessa narrativa, cresce a suspeita — e até acusações — de que o México seria um parceiro pouco confiável. O livro recém-publicado do direitista Peter Schweizer — aliado de Bannon e participante frequente do programa de Carlson — sustenta que existiria uma espécie de complô do governo mexicano e de seu partido, Morena, para promover um “golpe invisível” nos Estados Unidos por meio de seus emigrantes.
Após o endosso de Trump em suas redes sociais, o livro El golpe invisible alcançou o primeiro lugar na lista de obras de não ficção mais vendidas no fim de janeiro.
México conspira para invadir os EUA, diz livro promovido por Trump – 28/01
O presidente Donald Trump promoveu em suas redes sociais um novo livro que adverte sobre “um golpe de Estado invisível” contra os Estados Unidos, supostamente organizado pelo governo mexicano e pelo Morena ao “usar a migração em massa como arma política para influenciar eleições e minar a segurança nacional”.
Trump publica uma multidão de declarações diariamente em suas redes sociais e, até o momento, não voltou a convidar seus milhões de seguidores a comprar o livro The Invisible Coup: How American Elites and Foreign Powers Use Immigration as a Weapon, de Peter Schweizer. Ainda assim, seu endosso já ajudou a obra a alcançar o oitavo lugar entre os livros de não ficção mais vendidos da Amazon.
O livro do ativista de direita, sócio do ex-estrategista político e influente comentarista conservador Stephen Bannon — que, inclusive, participou no dia 27 de janeiro de seu programa War Room, com mais de um milhão de seguidores — pode reforçar a narrativa antimigrante, particularmente contra os mexicanos e o governo do México.
Schweizer, cujo livro anterior sobre Hillary Clinton chegou à lista de mais vendidos do New York Times, vem promovendo sua nova obra em programas de meios conservadores nacionais, onde repete a teoria conspiratória de que o governo mexicano e elites nos Estados Unidos estariam usando imigrantes como uma arma secreta para alterar a demografia e, assim, transformar a sociedade e a política estadunidense.
“México tem 53 consulados nos Estados Unidos; o Reino Unido e a China têm 6 e 7, respectivamente. Como argumento no livro, os funcionários consulares estão ocupados apoiando atividades políticas [nos EUA], tentando influenciar as eleições presidenciais”, afirmou Schweizer no programa de entrevistas Takeout, da CBS News, apresentado por Major Garrett. “Acredito que é inadequado que o governo mexicano e seus diplomatas estejam envolvidos nesse tipo de atividade política dentro dos Estados Unidos.”
Em seu livro, o autor sugere que políticos mexicanos falam abertamente em “reconquistar” os Estados Unidos. Como exemplo, escreve que, em fevereiro de 2023, José Gerardo Rodolfo Fernández Noroña, membro do Parlamento mexicano pelo partido governista Morena, da presidente Claudia Sheinbaum, declarou no plenário do Congresso da União que Califórnia, Texas e Novo México eram, entre outros territórios, “territórios ocupados”. Segundo o autor, Noroña acrescentou posteriormente que o México “deveria avaliar esse despojo e voltar a exigir a recuperação desses territórios” dos Estados Unidos. “Essas declarações extravagantes certamente não prejudicaram sua carreira. Pelo contrário, ajudaram. Um ano e meio depois, foi eleito presidente do Senado mexicano.”
Schweizer reconhece que muitos integrantes da elite política mexicana utilizam esse tipo de retórica e provavelmente não defendem literalmente a devolução desses territórios, mas sim “o afastamento cultural e político do sudoeste dos Estados Unidos e sua transformação para que se assemelhe à civilização mexicana”. Em seus argumentos, cita declarações de Andrés Manuel López Obrador, do deputado migrante Aniceto Polanco e de “ativistas do partido Morena que vivem nos Estados Unidos”, além de antigas declarações de Ernesto Zedillo, todos os quais, segundo ele, teriam afirmado que os imigrantes mexicanos podem e devem induzir mudanças nos Estados Unidos.
Schweizer argumenta ainda que o ex-presidente López Obrador visitou cidades estadunidenses em fevereiro de 2017 com o objetivo de convocar imigrantes mexicanos a se oporem às políticas antimigratórias promovidas por Trump, alegando que tais políticas tiveram impacto negativo nos lucros de cartéis que, por sua vez, apoiariam López Obrador.
Em relação a Sheinbaum, o autor afirma que ela apoiou a canção El himno del migrante e chegou a reproduzi-la em uma coletiva de imprensa. “E embora minha certidão de nascimento diga americano, sou puro mexicano”, afirma a música, segundo Schweizer. “Mudamos de lugar, mas não de bandeiras / Tenho o verde, branco e vermelho em minhas veias.”
“México está usando a ‘migração como arma’ para minar a soberania dos Estados Unidos”, afirmou a Fox News em sua resenha do livro. “Esses funcionários consulares têm se dedicado a organizar atividades políticas dentro dos Estados Unidos, o que constitui uma clara violação de seu status diplomático”, declarou Schweizer à emissora conservadora. Ele acrescentou que consulados distribuem livros didáticos mexicanos em escolas estadunidenses com grande presença latina, nos quais os Estados Unidos seriam apresentados como “o inimigo” do México. “A pergunta é: por que estamos tolerando isso? Acho que já é hora de dizer ‘basta’.” Acrescentou ainda: “Precisamos de uma política de tolerância zero. Estamos nos preparando para as eleições de meio de mandato e, com base no histórico, isso não deve ser tolerado.”
Schweizer, ativista de direita, deixa claro que sua principal preocupação é que autoridades e políticos mexicanos estariam apoiando democratas e outros opositores de Trump.
Pela legislação estadunidense, é ilegal que qualquer governo ou indivíduo estrangeiro faça contribuições a candidatos políticos no país, em qualquer nível. No entanto, todo cidadão — incluindo os mexicano-estadunidenses — tem pleno direito de participar do processo político. Caso estejam promovendo ou representando interesses de outro país, porém, devem registrar-se oficialmente perante o governo.
Tudo indica, embora isso não tenha sido explicitado, que a publicação do livro tenha motivado o comunicado emitido pela embaixada do México em Washington, no qual reafirma que sua rede consular nos Estados Unidos mantém estrita neutralidade política e se dedica exclusivamente à assistência consular e a funções administrativas.
Primeiro ano de Trump detona a resistência popular nos EUA – 21/01
Líderes religiosos, sindicalistas, ativistas comunitários, estudantes e artistas em todo o país fazem parte de uma crescente onda de oposição e resistência às políticas e à agenda direitista de Donald Trump, cujas manifestações, ao longo de seu primeiro ano como presidente, constituem os maiores protestos populares da história dos Estados Unidos.
“Saia e marche contra o fascismo”, clamaram estudantes do ensino médio que abandonaram suas salas de aula no dia 20 de janeiro, na capital do país, para marcar o primeiro aniversário do governo, enquanto, em Minnesota, sindicatos estaduais, igrejas, pequenos comerciantes, universitários e organizações comunitárias convocaram uma paralisação estadual para o dia 23 do mesmo mês. Em diversas regiões do país multiplicam-se ações de protesto, desde vigílias e marchas até iniciativas em defesa de imigrantes.
Em Minneapolis, Chicago, Los Angeles, Charlotte e Nova Orleans, entre outras cidades, todos os dias são ouvidos apitos — símbolo da resistência — usados para alertar sobre operações e batidas de agentes federais.
“Desde que Trump retornou ao cargo, o número de protestos nos Estados Unidos já superou o registrado no mesmo período de seu primeiro governo”, informou o The Guardian na semana do dia 19 de janeiro, com base em cálculos da Universidade de Harvard. “Houve mais de 10.700 protestos em 2025, um aumento de 133% em relação aos 4.588 registrados em 2017, o primeiro ano da primeira presidência de Trump.” Especialistas acrescentam que ao menos um protesto foi registrado em quase todos os condados do país, incluindo centenas vencidos eleitoralmente por Trump.
Essas expressões de resistência incluíram as maiores marchas nacionais já registradas sob o lema “Sem reis”, realizadas no verão passado, com participação estimada entre 5 e 7 milhões de pessoas em um único dia, em ações distribuídas por milhares de cidades e localidades, além de atos simbólicos menores, porém constantes, realizados quase semanalmente.
A resistência não se limita a manifestações nas ruas e praças, mas também se expressa em ações cotidianas. Professores e pais têm se organizado para proteger estudantes diante de ameaças de agentes federais; voluntários vêm sendo treinados junto a seus vizinhos para formar comitês locais de proteção a imigrantes; e iniciativas de ajuda mútua distribuem alimentos e assistência a moradores que temem sair às ruas.
Nas trincheiras contra a ofensiva conservadora dirigida à educação e à cultura, surgem participantes inesperados da resistência: bibliotecários, curadores de museus, enfermeiros, cientistas e outros profissionais enfrentam tentativas de censura de livros, exposições e narrativas históricas, além de ataques contra a educação e a saúde pública.
Novas coalizões ecumênicas também têm surgido, reunindo fiéis cristãos, muçulmanos, judeus, budistas e integrantes de outras tradições religiosas, fortalecendo a resistência e criando novas formas de oposição e defesa de princípios éticos — desde presépios natalinos que denunciam a perseguição a refugiados, comparando-os a Jesus, até vigílias diante de centros de detenção e participação organizada em marchas. Um novo papa estadunidense nomeou cardeais defensores de imigrantes e refugiados para Nova York e Palm Beach, onde Trump mantém seu clube-residência, Mar-a-Lago.
Artistas apoiam migrantes
Artistas famosos — e outros menos conhecidos — também se somaram ao coro de críticas às políticas de Trump, desde ataques à cultura e à liberdade artística até medidas contra imigrantes. Entre eles estão Bad Bunny; Bruce Springsteen, que também na semana do 19 de fevereiro pediu que a imigração “pare de perseguir Minneapolis”; a banda Green Day, que gritou em espanhol “chinga la migra”; além de atores como Jane Fonda, Mark Ruffalo e Susan Sarandon, entre inúmeros outros artistas que oferecem ritmo, voz e beleza à resistência.
Essa mobilização não se limita à indignação ou a ações de solidariedade: também se traduz em mudanças políticas no terreno eleitoral. A vitória do novo prefeito socialista democrático Zohran Mamdani em Nova York; a eleição de outra socialista democrática, Katie Wilson, como prefeita de Seattle; e a reeleição da progressista Michelle Wu como prefeita de Boston, entre outros resultados, indicam o surgimento de uma nova geração política progressista diante do avanço da direita. Confrontos diretos com o governo Trump por parte de lideranças mais centristas — como governadores de Illinois e Califórnia e prefeitos de Chicago, Los Angeles, Charlotte e Nova Orleans —, além de vitórias recentes de candidatos democratas em disputas eleitorais em Miami e nas eleições para governador da Virgínia e de Nova Jersey, também são vistos como respostas à tentativa da direita de se impor em todo o país.
A Casa Branca tenta sustentar, por meio de sua estratégia de comunicação, a narrativa de que mantém controle absoluto do país, mas, diariamente, essa versão é contestada pelos fatos. O presidente chegou a mobilizar forças armadas em Los Angeles e ameaçou fazer o mesmo em Seattle, Chicago, Nova York e agora Mineápolis, além de cogitar invocar a antiga Lei de Insurreição para impor controle militar e político sobre essas cidades — medida da qual acabou recuando diante da oposição interna e de decisões judiciais.
Desde o início, Trump tem acusado opositores, críticos e adversários de integrarem a “esquerda radical”, afirmando que protestos e atos de desobediência civil seriam promovidos por “anarquistas” e “comunistas” interessados em destruir o país. Alguns analistas alertam que ele buscaria provocar confrontos para justificar repressões e intervenções em cidades e estados governados por adversários políticos, ou ainda para criar um espetáculo permanente que acredita beneficiar seus aliados eleitoralmente. A possibilidade de que membros do governo estejam dispostos a reprimir, prender e até matar cidadãos estadunidenses provoca temor entre críticos que consideram que esta administração seria capaz de qualquer medida.
O fato, porém, é que, apesar de ameaças, assassinatos, detenções e violações de direitos civis e liberdades básicas, o governo não conseguiu impor o silêncio. Ao completar um ano, a resposta popular torna-se cada vez mais forte e audível.
Os apitos continuam soando.
“Não preciso da lei internacional” – 21/01
Quando foi perguntado sobre os limites de como exerce seu poder no âmbito internacional, Donald Trump respondeu: “Apenas minha própria moralidade… Não preciso da lei internacional”. Em 20 de janeiro, circulou uma imagem do mundo que deseja, com um mapa no qual a bandeira estadunidense aparece sobre a Groenlândia, o Canadá, a Venezuela e o Canal do Panamá.
Em seu primeiro ano de segundo mandato na Casa Branca, o comandante em chefe realizou — unilateralmente ou de forma conjunta com outros — um total de 822 bombardeios, empregando aviões ou drones, segundo cálculo reportado pela Al Jazeera e elaborado pela organização de monitoramento de conflitos armados Armed Conflict Location & Event Data (ACLED – Dados de localização e eventos de conflitos armados, em tradução livre). Venezuela, Irã, Síria, Iraque, Nigéria, Iêmen e Somália estão entre os locais que foram alvo das armas à sua disposição.
O mandatário que chegou à Casa Branca há um ano prometendo pôr fim às “guerras sem fim” dos Estados Unidos notificou, no fim de janeiro, o governo norueguês de que, já que não lhe concederam o Prêmio Nobel da Paz, “já não me sinto obrigado a pensar apenas na paz”.
O mundo mudou desde seu retorno ao poder. Ninguém esperava que, 82 anos após o fim de uma guerra mundial em que os Estados Unidos se uniram a seus aliados europeus para frear a expansão militar da Alemanha, hoje a própria Alemanha estivesse se juntando a aliados europeus para conter o expansionismo dos Estados Unidos ao defender a Groenlândia. Tampouco se imaginava que a Groenlândia algum dia figuraria na lista de territórios ameaçados por uma intervenção estadunidense ao longo da história.
À 1h da manhã de 20 de janeiro, o mandatário publicou em sua conta nas redes sociais uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece no Salão Oval diante de um grupo de pessoas, ao lado de um mapa do mundo com bandeiras estadunidenses sobre a Groenlândia, o Canadá, a Venezuela e os Estados Unidos. “Acho que ele apenas quer um grande mapa que mostre que controla mais território do que qualquer outro”, explicou uma veterana analista de Washington, que pediu anonimato porque sua organização trabalha com a Casa Branca em alguns temas de política externa.
Não faltam teorias e especulações sobre o que o presidente deseja no cenário internacional, mas talvez seja preciso começar pelo que ele próprio afirma. Trump tem repetido que seus objetivos na Venezuela, na Groenlândia e em outros países são proteger o acesso estadunidense ao petróleo e a recursos naturais, incluindo minerais considerados críticos.
Questionado pelo New York Times sobre a existência de limites ao exercício de seu poder internacional, respondeu que apenas sua “moralidade” e “sua mente” poderiam detê-lo, descartando qualquer outra limitação ao afirmar que “não preciso da lei internacional” — posição reiterada por assessores próximos, como Stephen Miller.
Mas, evidentemente, existem outros limites ao poder estadunidense. Trump retirou tarifas impostas à China depois que o gigante asiático respondeu que interromperia o fluxo de minerais críticos aos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, os custos internos de sua arma econômica favorita elevaram o custo de vida a tal ponto que se espera que muitas dessas tarifas sejam revogadas antes das eleições legislativas de novembro — e talvez muito antes, caso a Suprema Corte determine que foram aplicadas ilegalmente.
Uma motivação constante do presidente é fechar acordos que gerem ganhos financeiros para ele, sua família e seus aliados. A primeira venda de petróleo venezuelano após o sequestro do presidente Nicolás Maduro colocou dinheiro no bolso de um doador de Trump. A família do magnata teria acumulado bilhões de dólares apenas neste primeiro ano por meio de investimentos, manobras financeiras e acordos em países com os quais a Casa Branca negocia, segundo estimativas do New York Times e do Wall Street Journal.
Não há consenso em política externa dentro de seu círculo mais próximo nem entre as correntes de apoio a Trump, embora não haja dúvida de que é ele quem toma as decisões finais. O secretário de Estado, Marco Rubio, e o vice-chefe de gabinete, Stephen Miller, defendem a reafirmação do domínio estadunidense nos assuntos globais, começando por este hemisfério.
Por sua vez, o presidente solicitou um aumento de 500 bilhões de dólares no orçamento do Pentágono para o próximo ano, o que elevaria o gasto militar total em 50%, alcançando um orçamento bélico de 1,5 trilhão de dólares — o maior da história.
O vice-presidente J.D. Vance tem defendido uma posição mais isolacionista, propondo que os Estados Unidos se retirem da guerra russo-ucraniana e de outros conflitos prolongados. Ao lado do filho mais velho do presidente, Donald Trump Jr., ele tem questionado os gastos militares e o envio de tropas ao exterior, representando uma corrente ultraconservadora da agenda “América Primeiro” dentro da base trumpista.
O próprio Trump provocou irritação entre esses setores ao manter sua estreita aliança com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e seu apoio incondicional não apenas às ações em Gaza, mas também aos ataques israelenses contra o Líbano, a Síria e o Irã. Em 2o de janeiro, Trump anunciou a intenção de realizar, em Davos, a primeira sessão de sua “Junta de Paz para Gaza”, com a participação convidada de líderes do Canadá, da Turquia, da Argentina e do Egito. A iniciativa, vista como uma tentativa de contornar a Organização das Nações Unidas diante da condenação quase universal a Israel, foi repudiada pela comunidade internacional.
A ONU e a chamada “comunidade internacional”, porém, tornaram-se alvo de desprezo e escárnio por parte do governo Trump, que não tem ocultado seu desdém não apenas pela lei internacional, pela Carta da ONU e por outras normas, mas também tem continuado a minar o chamado ordenamento internacional. A Casa Branca retirou-se não só do Acordo de Paris sobre o Clima e da Organização Mundial da Saúde, como também de múltiplas agências, comissões e entidades vinculadas às Nações Unidas.
Ao que tudo indica, o governo também considera romper relações com outras organizações e alianças multilaterais, incluindo a Otan.
Em seu lugar, ao menos neste hemisfério, Trump deixou claro o que pretende colocar no lugar da antiga ordem: uma versão da “Doutrina Monroe”, segundo a qual proclama que “o hemisfério é nosso”.
De fato, três cardeais da Igreja Católica dos Estados Unidos — a primeira organização transnacional — declararam que as políticas externas de Trump estão “destruindo as relações internacionais e conduzindo o mundo a um sofrimento incalculável”.
EUA abrem segunda frente de ataque a Cuba – 15/01
O governo dos Estados Unidos deixou claro que sua nova iniciativa “humanitária” para conceder assistência alimentar ao povo cubano por meio da Igreja Católica faz parte de uma estratégia destinada a pressionar o governo cubano a deixar o poder.
Na semana do dia 15 de janeiro, o Departamento de Estado anunciou os primeiros envios de arroz, feijão, macarrão e outros alimentos à Igreja Católica em Cuba como assistência humanitária às vítimas do furacão Melissa, que devastou parte da ilha há dois meses. “Nosso compromisso com Cuba é firme — com o povo cubano, não com o governo cubano”, afirmou Jeremy Lewin, funcionário do Departamento de Estado responsável por assistência e assuntos humanitários, durante coletiva de imprensa no dia 15. No entanto, deixou claro que o objetivo não é apenas fornecer ajuda, mas também minar o apoio popular ao governo na ilha.
“O governo cubano tem uma opção: ou permite que ajudemos diretamente o povo cubano, ou decide interferir nesses envios”, declarou Lewin. “Isso certamente faz parte da estratégia do secretário [de Estado, Marco Rubio] e do presidente [Donald Trump]. Nosso apoio ao povo cubano é absoluto. Mas é o regime que lhes está negando a possibilidade de viver suas vidas.”
No início de janeiro, Trump declarou que o governo cubano estava “prestes a cair”. Lewin afirmou agora que essa assistência integra essa estratégia de mudança de regime. “O regime cubano, como já disse o presidente, deveria fazer o correto: sair do poder, para que o povo cubano seja livre”, acrescentou.
Quando jornalistas perguntaram por que a entrega da assistência demorou tanto — sendo enviada mais de dois meses após o impacto do furacão — e por que ocorreu logo depois da intervenção estadunidense na Venezuela, Lewin respondeu que o cronograma foi determinado pelos esforços da Igreja Católica para obter as autorizações necessárias para a entrega da ajuda.
Mais uma vez, porém, indicou que a iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla. “O que está ocorrendo na Venezuela deve deixar claro ao regime cubano e a qualquer outro déspota no mundo que não se deve desafiar o presidente Trump. A debilidade e a desordem, o conflito e a interferência estrangeira em nosso hemisfério chegaram ao fim.”
Questionado se não haveria contradição entre a pressão de Washington para que a Venezuela suspenda toda assistência — incluindo o fornecimento de petróleo a Cuba — enquanto os próprios Estados Unidos enviam ajuda alimentar, Lewin insistiu que se tratam de questões distintas.
“Apesar do tom triunfalista do Departamento de Estado e das tentativas dos meios de comunicação tradicionais de apresentar os Estados Unidos como benevolentes ao ajudar os cubanos, a realidade é que os cubanos foram intencionalmente abandonados para gerar ainda mais sofrimento ao povo”, argumentou o colunista Arturo Domínguez. Segundo ele, até dezembro, Venezuela, México, Colômbia e Panamá já haviam enviado petróleo e milhares de toneladas de ajuda humanitária a Cuba.
O Rasputin de Trump – 15/01
O subchefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, é tão poderoso que alguns funcionários o chamam de “primeiro-ministro”. Ele é o arquiteto da brutal política antimigratória do atual governo e, segundo versões extraoficiais, está entre os que defendem ataques militares no México. Também se tornou um dos porta-vozes mais confiáveis do presidente Donald Trump — a quem acompanha desde o primeiro mandato —, sendo frequentemente responsável por explicar as medidas mais extremas adotadas pelo magnata.
“Somos um superpoder e, sob o mandato do presidente Trump, vamos nos comportar como um superpoder”, afirmou Miller à CNN na semana do dia 05 de janeiro, após ser questionado sobre a legalidade do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Ele insistiu que a lei internacional e essas “coisinhas” são irrelevantes, já que, no mundo real, o poder é o único fator que conta.
Defensor da missão sagrada dos Estados Unidos
Às vezes, Miller apresenta o que considera uma visão moral da missão sagrada de seu país. “Vamos prevalecer sobre as forças do mal”, declarou em um discurso no qual colocou os Estados Unidos no centro da cultura mundial. “Nossa linhagem e nosso legado remontam a Atenas, a Roma, à Filadélfia e a Monticello [a casa de Thomas Jefferson]. Nossos ancestrais construíram cidades, produziram arte e arquitetura e ergueram a indústria”, afirmou.
No México e em outras partes da América Latina, Miller é conhecido como o homem no centro do esforço para deportar um milhão de imigrantes por ano, além de ser o funcionário que convoca uma teleconferência diária, às 10 da manhã, para monitorar o progresso dessa campanha.
“Miller exige relatórios de avanço sobre sua campanha de deportação em massa e emite ordens a todas as agências federais” encarregadas de implementar suas medidas, informou a revista The Atlantic, em janeiro. “Ele pega o telefone e grita com todos. Ninguém escapa de sua fúria”, comentou um funcionário que participa das chamadas.
Durante o primeiro governo Trump, Miller concentrou-se quase exclusivamente na política migratória, incluindo a política de separação forçada de mais de 5 mil crianças — algumas ainda bebês — de seus pais, como forma de “dissuadir” a imigração de famílias, além de outras medidas extremas.
Diante do fracasso em alcançar suas metas naquele primeiro mandato, desenvolveu planos para uma política ainda mais agressiva neste segundo período, incluindo não apenas esforços para deportar um milhão de pessoas por ano, mas também mudanças profundas nas leis migratórias, a eliminação de programas temporários de proteção a estrangeiros, restrições à concessão de vistos, o esvaziamento efetivo do direito de asilo, questionamentos à cidadania por nascimento nos Estados Unidos e ações mais duras contra os fluxos migratórios provenientes do México e de outros países.
Impulsionador de uma nova guerra contra as drogas
“Nos primeiros meses deste governo, Miller, arquiteto das políticas antimigratórias e de controle fronteiriço, e sua equipe começaram a discutir o lançamento de uma nova guerra contra as drogas, com ataques a cartéis e supostos traficantes no México”, informou o Washington Post em dezembro.
Nem o subchefe de gabinete nem o presidente desmentiram essas informações. Embora o governo Trump tenha direcionado mais sua atenção ao sul, especialmente à Venezuela, a pressão sobre o México permanece e reaparece publicamente de forma recorrente.
Miller, o secretário de Estado Marco Rubio e o “czar” antiterrorismo da Casa Branca, Sebastian Gorka, têm atuado em conjunto para promover ações militares unilaterais dos Estados Unidos, como ocorreu na Venezuela e agora em outras regiões do mundo. Assim, o subchefe de gabinete já não está focado apenas na política interna estadunidense, mas cada vez mais na projeção do superpoder que tanto exalta.
Miller, de 40 anos, cresceu na Califórnia, filho de pais imigrantes liberais. Seus antepassados judeus chegaram aos Estados Unidos vindos do que então era Belarus para “escapar das dificuldades econômicas e da perseguição religiosa e construir uma vida melhor para si e para seus filhos”, segundo uma história familiar publicada pela revista New Republic.
Provocador desde o ensino médio
Desde jovem, ainda no ensino médio e na universidade, Miller é lembrado como um provocador, fazendo declarações cada vez mais repugnantes para chamar atenção. “Eu farei coisas que ninguém dirá ou fará”, afirmou em um vídeo gravado na escola e obtido pelo The Washington Post.
Miller manteve esse talento em suas frequentes aparições diante das câmeras da imprensa em frente à Casa Branca.
Em suas entrevistas e comentários, o chefe de gabinete de Trump deixa evidente a amplitude de seu mandato: fala de assuntos econômicos, da guerra na Ucrânia, da necessidade de que os Estados Unidos assumam o controle da Groenlândia, do odiado Partido Democrata e dos “hippies” e “esquerdistas” que “odeiam” o país, além de temas comerciais.
Foi a equipe sob o comando de Miller que redigiu várias das dezenas de ordens executivas assinadas no início desta presidência, incluindo o “fechamento” da fronteira, a tentativa de anular o direito à cidadania por nascimento, a classificação de traficantes de drogas como “narcoterroristas”, o anúncio de medidas contra dissidentes estadunidenses considerados “comunistas”, “anarquistas” ou da “esquerda radical”, bem como a justificativa para o bombardeio de lanchas no Caribe.
Advogados sob o comando de Miller também impulsionaram esforços para processar e posteriormente suspender fundos federais destinados a universidades que não se submetessem à supervisão de suas normas e programas, incluindo Harvard e Columbia.
Mas Miller é, acima de tudo, um assessor onipresente e porta-voz. Em suas apresentações públicas, costuma formular a narrativa oficial que depois passa a orientar os demais integrantes do governo. Às vezes, segundo relatam funcionários da Casa Branca à imprensa, suspeita-se que, quando perde um debate interno, ele recorra às câmeras e aos microfones de veículos alinhados — sobretudo a Fox News — para continuar essa disputa no espaço público.
Segundo tudo o que se relata e se observa, Miller exerce uma influência superior à de quase todos os demais integrantes do círculo ao redor de Trump até o momento. Ao mesmo tempo, sua imagem pouco elegante e pouco conciliadora — e sua agressividade ao defender episódios e argumentos sem evidências — é utilizada por críticos e opositores, dentro e fora do país, como prova do extremismo deste governo.
Ao que tudo indica, isso não o incomoda nem um pouco.
Projeto de lei para impedir guerra contra o México – 14/01
Legisladores democratas apresentaram no dia 14 de janeiro, na Câmara dos Representantes, um projeto de lei para impedir uma guerra não autorizada no México.
O deputado Joaquín Castro, o democrata de maior posição no Subcomitê sobre o Hemisfério Ocidental, junto com seus colegas Sara Jacobs e Greg Stanton, introduziu a “Lei contra uma guerra não autorizada no México”, cujo propósito é proibir o uso de fundos públicos em ações bélicas no México que não tenham sido aprovadas pelo Congresso.
“Lançar os Estados Unidos em outra guerra desnecessária — e não autorizada — na América Latina é uma medida desestabilizadora que acabará voltando para atingir a própria nação”, declarou o deputado Castro. Ele assinalou que as pessoas que representa “não desejam que os Estados Unidos gastem bilhões de dólares em outra guerra que corre o risco de desestabilizar a região, provocar migração massiva e abusos de direitos humanos”, e argumentou que é necessário “proteger nossa relação com um aliado próximo e evitar o desperdício do dinheiro dos contribuintes com o uso de força militar no México”.
Castro afirmou que decidiu impulsionar o projeto de lei depois que os Estados Unidos realizaram vários ataques próximos às costas do México e após o presidente Donald Trump comentar que “agora vamos começar ataques terrestres contra os cartéis”, mencionando o México nesse contexto.
“Uma guerra com o México — autorizada ou não — colocaria em risco as vidas de estadunidenses e mexicanos e destruiria a relação dos Estados Unidos com seu parceiro comercial mais importante”, declarou a deputada Jacobs. “Bombardear o México não resolverá de maneira eficaz a crise do fentanil nem os problemas representados pelos cartéis… Temos que fazer todo o possível para evitar o que seria um erro catastrófico.”
“Trump está ameaçando iniciar um conflito militar no próprio entorno dos Estados Unidos. É certo que uma ação militar unilateral contra o México seria um desastre”, acrescentou o deputado federal Stanton. Ele afirmou que “os objetivos de segurança dos Estados Unidos devem ser alcançados trabalhando em conjunto com o México, e não atacando-o”.
Em um Congresso controlado pela maioria republicana, é pouco provável que a iniciativa avance, mas ela busca provocar um debate público e registrar oposição à política bélica da Casa Branca.
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