Da Cambridge Analytica ao caso da Romênia, evidências mostram que plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial deixaram de ser intermediários neutros e passaram a influenciar disputas eleitorais, circulação de informações e narrativas políticas
Algoritmos estiveram no centro de um dos episódios mais emblemáticos de interferência eleitoral recente. Em dezembro de 2024, o Tribunal Constitucional da Romênia anulou os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais, vencidas pelo ultranacionalista Calin Georgescu. A decisão foi tomada devido a um ataque cibernético orquestrado pela Rússia em favor do vencedor. Segundo as investigações dos serviços de inteligência, foram criadas mais de 25 mil contas na rede social TikTok para promover o extremista Georgescu.
O caso da Romênia foi ensaiado e anunciado vários anos antes. Em 2018, o mundo soube que a Cambridge Analytica, uma empresa britânica especializada em mineração de dados e comunicação estratégica com fins eleitorais, coletou sem consentimento os dados de mais de 50 milhões de usuários da rede social Facebook. As informações roubadas foram utilizadas para criar perfis psicológicos e direcionar publicidade política personalizada que incentivasse votos em favor de Donald Trump e do Brexit em 2016.
Quase 10 anos após esse experimento inédito na disputa democrática, cada vez mais especialistas no tema e ex-funcionários de empresas tecnológicas alertam sobre o perigo que as redes sociais e a inteligência artificial representam para as frágeis democracias ocidentais.
Em fevereiro de 2026, vieram à tona os resultados de uma investigação realizada pela revista Nature que, após analisar 4.956 perfis da rede social X (antigo Twitter), concluiu que o algoritmo da plataforma estava desenhado para dar maior difusão a conteúdos com posições de direita e incentivar os usuários a seguirem contas de orientação conservadora. Em relação à inteligência artificial, pesquisadoras da Universidade de Los Andes e da Quantil demonstraram em um estudo que as respostas de chats de inteligência artificial como Gemini, Claude, Deepseek, Meta, Lexi e GPT-4o reproduzem estereótipos de gênero, classismo, racismo e xenofobia.
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Existe informação de sobra para afirmar que as grandes empresas de tecnologia e as plataformas sociais não são neutras, e seus algoritmos se transformaram em árbitros capazes de inclinar a balança das narrativas que disputam a batalha de ideias. A minoria mais rica da história da humanidade tem o poder de regular editorialmente a dieta informativa e a opinião pública.
Redes como X, Instagram, Facebook e TikTok bloquearam atores sociais e políticos, ao mesmo tempo em que amplificam a circulação de outros. Em época de eleições, seus proprietários denegriram candidatos de quem não gostam e manifestaram apoio aberto a líderes da extrema direita. Além disso, a realidade demonstra que há maior promoção do conteúdo de ativistas e que o conteúdo dos meios de comunicação é obscurecido, aumentando as probabilidades de que a cidadania seja influenciada por fontes de desinformação.
Os marcos institucionais de nossas democracias não previram a ameaça, nem contam com ferramentas legais para frear o poder das plataformas. Alguns países começaram a impulsionar regulações que estabelecem precedentes.
Na Colômbia, a Fundação Karisma identificou que, para a legislatura 2023-2024, foram apresentados 54 projetos de lei com menções à tecnologia, enquanto para a legislatura 2024-2025 foram apresentados 75 projetos de lei sobre temas diversos: inteligência artificial, cibersegurança, crimes cibernéticos, proteção de dados e identificação, violência de gênero digital, entre outros.
Em sua análise, a fundação conclui que a quantidade de iniciativas fragmentadas é incompatível com a articulação institucional; que se pretende importar modelos normativos sem considerar a realidade colombiana; e que as problemáticas que se pretende abordar carecem de uma abordagem integral em temas como proteção de dados e regulação da inteligência artificial.
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Se os algoritmos não premiassem os discursos negacionistas, machistas, racistas, xenófobos e fascistas que acreditávamos terem ficado no passado, a América Latina não sofreria a governança de Bukeles, Mileis e Bolsonaros, mandatários que, sem qualquer constrangimento, incentivaram o ódio contra aqueles que são diferentes e manifestaram seu desprezo pelos direitos humanos e pelas mínimas regras democráticas.
Provavelmente, na próxima vez em que este jornal circular, a Colômbia já terá um novo presidente. Com o leque de candidatos muito mais claro, já começam a tomar forma as campanhas de ódio e desinformação que se propagam, sobretudo, através das redes sociais.
Em um país que parece acostumado a campanhas sem propostas inovadoras, repletas de discursos simplistas, toscos e de falsas afirmações que criam o ambiente e justificam possíveis atos violentos contra aqueles que supostamente representam um perigo para “os valores da sociedade”, torna-se urgente uma regulação estrutural que imponha limites à ingerência das tecnologias e das plataformas em nossos resultados eleitorais.
E, em particular, a realidade exige de Iván Cepeda e sua equipe que desenhem uma estratégia comunicativa para que o país conheça profundamente as propostas do candidato sobre este e os demais temas que compõem seu programa político; e que também sirva para neutralizar as estratégias midiáticas contra ele, pois é perigoso o triunfalismo sentido por uma parte da esquerda diante das pesquisas mais recentes.

