Os números da violência revelam uma tragédia cotidiana que atinge principalmente mulheres, crianças e jovens
O Brasil vive uma guerra civil não declarada. Em 2024, o país registrou 42.590 homicídios, uma média de 117 assassinatos por dia. Em 2025, as intervenções policiais resultaram em 6.519 mortes, o equivalente a 18 mortes por dia. Embora inferiores aos registrados em anos anteriores, esses números continuam incompatíveis com qualquer ideia de normalidade e revelam uma realidade de violência permanente.
Não estamos diante de fatos isolados. Os números revelam um padrão estrutural de violência que atravessa toda a sociedade brasileira e atinge principalmente os setores mais vulneráveis da população.

A situação das mulheres é particularmente dramática. Segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero, no primeiro semestre de 2025 foram registrados 33.999 estupros de mulheres no Brasil, o equivalente a 187 casos por dia. No mesmo período, o país registrou 718 feminicídios, média de cerca de quatro mulheres assassinadas por dia em razão da violência de gênero. Os números revelam uma realidade alarmante e mostram que a violência contra as mulheres permanece como uma das mais graves chagas sociais do país.
As crianças aparecem entre as maiores vítimas dessa realidade. Grande parte dos casos de violência sexual ocorre dentro do próprio ambiente familiar ou é praticada por pessoas próximas da vítima. São crimes que deixam marcas profundas e comprometem o desenvolvimento de gerações inteiras.
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Outro aspecto alarmante é a letalidade policial. As 6.519 mortes registradas em intervenções policiais durante 2025 mostram que o país continua apostando em um modelo de segurança baseado no confronto permanente. O combate ao crime é necessário, mas a produção contínua de mortes demonstra que a repressão isolada não tem sido capaz de resolver o problema.
É evidente que o crime organizado precisa ser combatido. Mas também é evidente que a violência não será derrotada apenas com mais violência. A experiência das últimas décadas demonstra que a repressão, desacompanhada de políticas sociais, produz resultados limitados.
A segurança pública não pode ser reduzida à ação policial. É necessário fortalecer a inteligência, a investigação e o combate às estruturas financeiras do crime organizado. Mas também é indispensável investir em educação, cultura, esporte, saúde, moradia e oportunidades de trabalho.
O silêncio diante do estupro também é violência
Nenhuma sociedade constrói paz duradoura apenas pela força. A verdadeira segurança nasce da inclusão social, da redução das desigualdades e da presença efetiva do Estado nos territórios mais vulneráveis.
Os números revelam uma realidade insustentável. Homicídios, estupros, feminicídios e mortes decorrentes de intervenções policiais compõem um quadro de violência estrutural que compromete o presente e o futuro do país. Não se trata apenas de uma questão de segurança pública, mas de uma crise social que exige respostas amplas e duradouras.
O grande desafio nacional é substituir a cultura da morte por uma política de preservação da vida. A segurança pública deve ter como objetivo principal proteger as pessoas, especialmente mulheres, crianças e jovens, que figuram entre as principais vítimas da violência. Um Estado verdadeiramente forte não é aquele que mata mais, encarcera mais ou reprime mais. É aquele que salva vidas, previne a violência antes que ela aconteça e oferece condições para que seus cidadãos vivam com dignidade, segurança e esperança no futuro.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.
