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Da Venezuela ao voto: como o império dos EUA corrói a democracia dentro do próprio país Diálogos do Sul Global

Da guerra e da exploração do petróleo venezuelano à retirada de direitos dentro dos EUA, o artigo mostra como a expansão imperial convive historicamente com o enfraquecimento das liberdades e da democracia no país.

Desde os seus primórdios, os EUA tiveram que conviver entre as contradições de sua própria existência, algo que só se intensificou ao se tornar uma superpotência.

A retórica da igualdade, liberdade, democracia, paz e respeito às liberdades civis — palavras proclamadas desde que esta república foi fundada até pouco tempo atrás — coexistiu com a realidade da escravidão, da conquista e do quase extermínio dos povos indígenas, e de guerras incessantes, intervenções e operações clandestinas até os dias de hoje (segundo uma contagem, os Estados Unidos intervieram em outros países mais de 200 vezes desde 1950).

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James Madison – wikipedia

E isso apesar de, repetidas vezes, ter sido advertido que a primeira coisa seria sacrificada ou anulada pela segunda.

Na Convenção Constitucional de 1787, James Madison, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, advertiu que “nenhuma nação pode preservar sua liberdade em meio a uma guerra contínua. Uma força militar ativa, com um Executivo demasiado grande, já não serão companheiros seguros da liberdade. Os meios de defesa contra o perigo estrangeiro sempre foram os instrumentos da tirania em casa”.

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Essa advertência, compartilhada com outros fundadores, continua vigente, escreve Katrina Vanden Heuvel, diretora da revista progressista The Nation, em uma introdução a uma edição especial que marca o 250º aniversário dos Estados Unidos (a revista foi fundada por abolicionistas há 161 anos), na qual lembra que sempre existiu uma dissidência contra as ações imperiais deste país.

Essa longa história da contradição fundamental entre um império e uma democracia acompanha um país que, por um lado, se proclama como uma força do bem abençoada por Deus, a “nação indispensável” dedicada a salvar o mundo e impor sua “liberdade” (nunca perguntando quem a convidou a assumir esse papel), mas que, por outro, é “o país mais violento do mundo”, como resume Jeffrey Sachs.

Thomas Jefferson tem uma frase famosa que encapsula essa contradição e tenta resolvê-la: “Estou convencido de que nenhuma constituição jamais foi tão bem calculada quanto a nossa para um império extenso e o autogoverno”, escreveu a Madison em 1809.

A ideia de que a “liberdade” individual requer uma expansão constante de um império benevolente que promove a democracia, da qual surge a ideia de “polícia do mundo” para garantir a lei e a ordem, está no cerne de conceitos como a Doutrina Monroe e o Destino Manifesto, lembra o historiador William Appleman Williams em seu livro Império como forma de vida. Mas os inconformados e dissidentes deste país, durante décadas e até séculos, rejeitaram esse papel do país no mundo.

Anti-imperialistas e opositores às guerras, intervenções e invasões, desde os primórdios do país até os dias atuais — entre eles figuras como Mark Twain e Martin Luther King, além de inúmeras vozes ao longo da história do país, muitas pagando as consequências de ousar questionar o poder — advertiram que as ações bélicas injustas e criminosas em nome do império minam e poderiam até destruir a democracia, a liberdade e os direitos aqui dentro.

Hoje temos o imperialista mais honesto da história dos Estados Unidos. O presidente deixa isso claro quando fala sobre seu “triunfo incrível” na guerra de horas com a Venezuela. Não menciona democracia, liberdade, igualdade, mas apenas petróleo e quantos milhões de barris os Estados Unidos extraíram de lá. Esse é o triunfo.

Da mesma forma, com a renovada Doutrina Monroe, a Casa Branca afirma claramente: ninguém pode questionar a dominação dos Estados Unidos no hemisfério americano. Ao mesmo tempo, especialistas e defensores dos direitos apontam que, dentro deste país, a democracia estadunidense está em xeque como nunca antes, com a anulação de direitos ao voto, das mulheres, dos direitos e das liberdades civis.

Talvez seja pura nostalgia imperial de outra época e a retórica oficial seja apenas o último grito de algo que já começa a desaparecer.

Yo-Yo Ma, a Boston Symphony e convidados. “We the People”.

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