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Talibã: Estudar escondida, trabalhar em casa, arriscar ser presa na rua: como mulheres resistem ao movimento afegão

Cinco anos depois de o Talibã ter retornado ao poder, Fawzia Koofi, ex-vice-presidente da Câmara do Parlamento afegão, denuncia o que descreve como “apartheid de gênero”.

Apesar das proibições, do terror e do apagamento sistemático das mulheres da sociedade, as afegãs continuam resistindo por meio de escolas clandestinas e redes de solidariedade on-line.

Koofi também foi integrante da delegação oficial que representou o governo afegão durante as negociações de paz de 2020 com o Talibã, em Doha, no Catar.

Desde a queda de Cabul, ela vive na Europa, depois de ter sido evacuada do Afeganistão, onde continua defendendo as mulheres afegãs e fazendo campanha por alternativas políticas ao governo do Talibã. Em entrevista à Inter Press Service (IPS), Koofi explica como o Talibã apagou sistematicamente as mulheres da vida pública, ao mesmo tempo em que descreve a resiliência e a determinação das afegãs em continuar resistindo.

IPS: Três anos depois de seu retorno ao poder, o Talibã gradualmente retirou das mulheres todos os seus direitos. Hoje, você descreve a situação como um verdadeiro apartheid de gênero. Como você descreveria a condição das mulheres afegãs?

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Fawzia Koofi – wikipedia

Fawzia Koofi: As mulheres perderam gradualmente seus direitos à medida que o Talibã impôs medidas cada vez mais restritivas por meio de uma série de decretos. Em 2021, as meninas foram proibidas de frequentar o ensino secundário.

Depois, em 2022, as mulheres foram impedidas de frequentar as universidades. Em 2024, elas já não podiam mais estudar medicina, nem mesmo ginecologia.

Hoje, todas as áreas da educação estão fechadas para elas. Em comparação com o primeiro regime do Talibã, as atuais restrições são ainda mais severas.

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Mesmo assim, as mulheres afegãs continuam resistindo porque sabem que a educação é essencial, e suas famílias compreendem que ela é fundamental. Elas frequentam aulas em escolas clandestinas instaladas em casas.

A maioria dessas escolas domiciliares é administrada por ONGs que pagam os salários dos professores e, às vezes, até cobrem os custos de conexão à internet dos estudantes. Elas também oferecem cursos on-line de inglês e informática. Essas escolas não emitem diplomas.

No entanto, as estudantes recebem uma educação que, às vezes, lhes permite iniciar um negócio on-line, fazer cursos a distância enquanto permanecem na clandestinidade ou ensinar outras meninas.

Como essas escolas clandestinas funcionam e como as mulheres conseguem escapar da repressão?

Oficialmente, essas escolas não existem; elas não são registradas. Como resultado, sempre que o Talibã as descobre, pode prender os professores, as estudantes ou os responsáveis por administrá-las. Foi exatamente isso que aconteceu, por exemplo, com uma das redes que ajudei a estabelecer na província de Ghor, no centro-oeste do Afeganistão, e também em Badakhshan, no nordeste do país. Eles invadiram as escolas e prenderam os funcionários. Em outros casos, porém, podem ser mais tolerantes quando integrantes de suas próprias famílias frequentam essas escolas.

O currículo concentra-se em ciências, informática e inglês para ajudar mulheres e meninas a obter bolsas de estudo, trabalhar on-line ou administrar negócios on-line. Algumas mulheres que conseguem construir pequenos negócios assumem pessoalmente a responsabilidade pelo marketing, na tentativa de ampliar suas atividades. Infelizmente, sem diplomas ou acreditação, as oportunidades profissionais continuam extremamente limitadas para a maioria das mulheres.

Muitas mulheres afegãs que vivem no exílio dedicam grande parte de seu tempo a oferecer educação on-line para mulheres dentro do Afeganistão. Nós as conectamos com estudantes universitárias e tentamos ensinar-lhes inglês ou outros idiomas. É lamentável que os governos ocidentais prometam repetidamente defender os direitos das mulheres, mas não forneçam o financiamento ou as bolsas de estudo que permitiriam às afegãs continuar seus estudos no exterior, retornar um dia ao país e ajudar a reconstruí-lo. O objetivo declarado do Talibã é apagar as mulheres da sociedade afegã em nome da moralidade islâmica.

Por que você usa o termo apartheid de gênero?

Porque, pouco a pouco, as mulheres foram completamente apagadas da vida pública. Algumas mulheres me dizem que, quando caminham pelas ruas de Cabul e encontram autoridades ou soldados do Talibã, muitas vezes são olhadas como se fossem criminosas.

Dizem a elas: “Você não tem permissão para trabalhar ou frequentar a universidade, então por que está na rua?”

Esse é precisamente o princípio do apartheid: separar um gênero ou um grupo de pessoas com base em seu sexo, raça ou religião e excluí-lo da sociedade. É exatamente isso que o Talibã está fazendo.

O silêncio da comunidade internacional é profundamente lamentável. Alguns governos ocasionalmente condenam o sistema do Talibã, mas isso é tudo.

Pior ainda, eles adotam práticas semelhantes.

O Reino Unido, por exemplo, continua dizendo: “Apoiamos as mulheres afegãs”, enquanto se recusa a conceder vistos de estudante por medo de que as solicitantes possam posteriormente pedir asilo político. Isso não faz sentido. Quantas delas realmente fariam isso? Duzentas estudantes? Em uma situação na qual elas não podem estudar nem trabalhar em seu próprio país, não deveria ser considerado um problema se solicitassem asilo.

Todas essas contradições, juntamente com a falta de ação da comunidade internacional, apenas encorajam e fortalecem o Talibã, que interpreta isso como uma forma de reconhecimento e legitimidade.

Muitos especialistas dizem que as mulheres estão desaparecendo do espaço público no Afeganistão. Você concorda com essa avaliação?

Imagine a realidade enfrentada pelas mulheres que vivem lá hoje, que sequer têm permissão para sair livremente de suas casas. Tomemos como exemplo a distribuição de ajuda humanitária.

Em muitas regiões, a distribuição da ajuda é controlada pelo Talibã com a assistência dos conselhos locais que eles nomearam. Os beneficiários são selecionados entre parentes ou apoiadores.

Mulheres solteiras, como viúvas de guerra com filhos dependentes ou mulheres que perderam seus empregos sob o governo do Talibã, são excluídas do recebimento de ajuda. E, quando protestam, os membros dos conselhos locais nomeados pelo Talibã as denunciam, e elas são presas.

Houve casos de violência sexual nas prisões do Talibã.

O Talibã fechou todo o sistema ao controlar sistematicamente o país e todas as suas instituições. Se os membros dos conselhos locais se rebelam ou deixam de cooperar de forma suficiente, são simplesmente substituídos. É assim que o sistema funciona.

Ainda assim, as mulheres continuam resistindo e protestando para sobreviver, embora isso esteja longe de ser fácil. Algumas abrem salões de beleza ou pequenas lojas dentro de suas próprias casas.

Alguns poucos canais de televisão que chegaram a acordos com o Talibã e cumprem a censura ainda têm permissão para empregar mulheres, mas elas são obrigadas a usar máscaras cobrindo o rosto enquanto estão no ar. Na prática, elas se tornaram porta-vozes do Talibã, que controla rigorosamente as notícias que elas transmitem.

Ainda existem espaços onde as mulheres possam desfrutar de algum grau de liberdade?

Eles estão se tornando cada vez mais raros. No mês passado, em Herat, no oeste do Afeganistão, o Talibã prendeu mais de 60 mulheres que não usavam a burca, mas sim um grande lenço cobrindo a cabeça, de acordo com a tradição local. Suas famílias e outras mulheres protestaram e, pela primeira vez, os homens também foram às ruas. O Talibã respondeu abrindo fogo. Para eles, a vida humana tem muito pouco valor. Eles prendem, encarceram, torturam e matam.

Em 28 de abril, eles prenderam três integrantes da minha família, além de um de nossos jardineiros. Depois, confiscaram minha casa. Meus parentes ficaram em confinamento solitário durante uma semana e foram torturados. Conseguimos mobilizar as redes sociais e, finalmente, minha família foi libertada. Tudo isso simplesmente porque consigo falar com a imprensa e me comunicar com a Missão de Assistência das Nações Unidas em Cabul.

Na maioria dos casos, porém, as famílias sequer sabem onde seus entes queridos estão sendo mantidos. Eles podem desaparecer por meses. A imprensa não noticia esses casos porque é controlada pelo Talibã. Essa é a realidade para todos. As mulheres continuam escrevendo e protestando pelas redes sociais, cada uma à sua maneira.

Você sente que o mundo se esqueceu do Afeganistão e das mulheres afegãs?

Sim. O mundo abriu caminho para o retorno do Talibã.

Lembremos do Acordo de Doha, assinado entre o Talibã e os Estados Unidos, que não diz absolutamente nada sobre a condição das mulheres ou sobre os direitos humanos em geral. Tudo isso encorajou o Talibã.

Participei dessas negociações, e o Talibã me disse que os direitos das mulheres não estavam entre as prioridades dos meus amigos estadunidenses e europeus. Infelizmente, eles estavam certos.

Agora, a União Europeia convidou o Talibã para negociar o retorno de afegãos que vivem irregularmente no exterior ou de indivíduos considerados uma ameaça à segurança. Essa abordagem é bastante estranha e paradoxal porque, enquanto as condições no Afeganistão não melhorarem, as pessoas continuarão querendo sair.

Todos os que vivem no país querem partir. Falo por telefone todos os dias com afegãos, e todos eles me dizem que querem sair. Sem trabalho, sem educação e sem liberdade, não há dignidade.

É absurdo. A União Europeia está negociando com o Talibã, que simplesmente explorará essas negociações em seu próprio benefício.

A atenção dos países ocidentais, e de fato do mundo como um todo, está concentrada em outros grandes conflitos. Acredito que isso seja um erro porque, mais cedo ou mais tarde, o Afeganistão se tornará uma base de retaguarda para vários grupos extremistas violentos.

O Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP), o Estado Islâmico (ISIS) e a Al-Qaeda continuam altamente ativos na região. Na verdade, o líder da Al-Qaeda foi morto a apenas dois quilômetros do palácio presidencial do Talibã, em julho de 2022.

Afirmar que o Talibã combaterá efetivamente esses grupos enquanto lhes permite governar o país é, na minha opinião, pura hipocrisia. O mundo precisa agir antes que seja tarde demais. Não estamos pedindo o retorno das tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Estamos, sim, pedindo aos governos que não incentivem nem apoiem o Talibã.

Infelizmente, tenho a sensação de que os direitos humanos — e, em particular, os direitos das mulheres — simplesmente não são considerados uma questão estratégica ou uma prioridade. Essa é a realidade.

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