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As pipas de Gaza: quando a infância palestina se torna um pretexto israelense para a guerra Diálogos do Sul Global

Em meio ao deslocamento e ao cessar-fogo, transformar a brincadeira de uma criança palestina em risco militar desloca a fronteira entre vítima e ameaça e pode preparar a opinião pública para uma nova escalada

Em Gaza, na guerra, as batalhas nem sempre começam com a abertura de fogo; às vezes, iniciam-se com a construção de uma narrativa para justificá-lo. Quando uma pipa, empinada por uma criança palestina em um campo de deslocados, é transformada em uma “ameaça à segurança” no discurso israelense, a questão transcende a mera hipérbole militar. Isso revela uma tentativa de fabricar um pretexto — um que possa ser usado para justificar uma escalada e preparar a opinião pública para um possível retorno à guerra.

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Reprodução: pixabay/hosnysalah

A questão não é a pipa em si, mas a mentalidade política e militar capaz de perceber uma criança deslocada como uma fonte de perigo. Estará a ocupação realmente buscando segurança ou procurando uma nova justificativa para a guerra?

Da brincadeira de criança ao pretexto

Após anos de guerra, destruição e deslocamento, as crianças de Gaza vivem em um ambiente onde foram privadas dos elementos mais básicos da infância: escolas destruídas, casas perdidas e campos de deslocados transformados em espaços de existência forçada.

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Nesse contexto, uma pipa torna-se uma simples tentativa de recuperar um fragmento da infância — uma pequena janela que se abre para o céu.

No entanto, ressignificá-la como uma “ameaça à segurança” reflete uma inversão perigosa na forma como vítimas e ameaças são definidas. Uma criança — que deveria ser objeto de proteção — é redefinida como fonte de perigo, enquanto a potência ocupante se apresenta como a parte que exerce o “direito à autodefesa”.

A fabricação do perigo muitas vezes começa com a mudança de nomes: um brinquedo torna-se uma ameaça, uma criança vira suspeita e um campo de deslocados transforma-se em uma “zona operacional”. De repente, a escalada militar torna-se um conceito comercializável para o público.

Gaza não é uma carta eleitoral

As ameaças contra Gaza não podem ser dissociadas do cenário político israelense, onde considerações de segurança se entrelaçam com cálculos partidários e eleitorais. A experiência mostrou que intensificar tensões externas pode reorganizar as prioridades públicas e conceder margem de manobra à liderança política.

Contudo, os palestinos não podem servir de combustível para crises políticas israelenses. Vidas civis não são uma carta eleitoral, e o sangue palestino não é uma ferramenta em uma disputa de poder. Aqui, ressoa a voz de Mahmoud Darwish: “Nesta terra, há algo que faz a vida valer a pena.” A terra palestina não é mera geografia, e a vida não é apenas sobrevivência; é o direito humano de sonhar, aprender, brincar e viver com dignidade.

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Reprodução: pixabay/hosnysalah

De Samih al-Qasim e Fadwa Tuqan a Abd al-Rahim Mahmud, Mu’in Bsisu, Kamal Nasir e Ghassan Kanafani, a literatura palestina testemunhou que o ser humano é a essência da causa e que agarrar-se à vida e à identidade não é um detalhe marginal no conflito.

O cessar-fogo precisa de proteção

Se o cessar-fogo é a porta de entrada para interromper o derramamento de sangue e iniciar a recuperação, sua proteção não pode ficar refém de declarações políticas.

O que se exige são mecanismos claros de monitoramento e responsabilização, garantias internacionais para evitar o retorno à guerra e ações concretas por parte de mediadores, Estados garantidores e do Conselho de Segurança sempre que surgir qualquer tentativa de minar o acordo.

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Além disso, a implementação dos arranjos acordados para a gestão da Faixa, a garantia do fluxo de ajuda e o início da reconstrução são passos essenciais para proteger os civis e impedir que a crise humanitária seja transformada em ferramenta de pressão política.

Gaza quer viver

Talvez a imagem de uma criança empinando uma pipa sobre uma tenda de deslocados sintetize toda a tragédia de Gaza. É uma criança que não deseja ser soldado, estatística em um noticiário ou peão em uma eleição. Ela quer brincar, ir à escola, voltar para um lar seguro e olhar para o céu sem medo.

Assim, a verdadeira questão não é “Qual será o próximo pretexto de Israel?”, mas sim: “Como o mundo pode impedir que qualquer pretexto se transforme em uma nova guerra?”

O problema não está na pipa, mas na mentalidade que a vê como um alvo.

Se uma pipa assusta a ocupação, talvez seja porque ela carrega uma mensagem mais poderosa do que a guerra: a de que Gaza, apesar de tudo o que suportou, ainda se agarra ao seu direito à vida.

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