No possível narcoestado dos EUA, uma polêmica tática policial que permitiu que quantidades assombrosas de fentanil mortal chegassem às ruas enquanto as autoridades federais buscavam montar casos antidrogas de maior envergadura está agora sob investigação dos republicanos do Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos.

O presidente do comitê, James Comer, enviou uma carta ao secretário de Justiça, Todd Blanche, para solicitar registros relacionados à controversa estratégia da Administração de Controle de Drogas dos Estados Unidos (DEA, na sigla em inglês) de vigiar — mas não apreender — grandes carregamentos de fentanil.
A solicitação retoma as preocupações levantadas por autoridades do Novo México, epicentro da crise dessa droga, onde informantes da DEA revelaram recentemente que receberam ordens para se afastar em vez de apreender centenas de milhares de comprimidos de fentanil, em possível violação das normas do Departamento de Justiça destinadas a proteger as comunidades.
Cannabrava | Brasil, um narcoestado?
O Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos EUA investiga a Administração de Controle de Drogas (DEA, na sigla em inglês) por uma polêmica tática policial que permitiu que “quantidades assombrosas de fentanil mortal” chegassem às ruas enquanto as autoridades federais buscavam montar casos antidrogas de maior envergadura.
De acordo com informantes da agência entrevistados por autoridades do Novo México — entidade considerada o epicentro da crise do fentanil —, seus superiores lhes ordenaram que se afastassem em vez de apreender centenas de milhares de comprimidos de fentanil, em possível violação das normas do Departamento de Justiça destinadas a proteger as comunidades.
Há dois meses, a agência de notícias Associated Press revelou que, entre 2023 e 2025, em meio à epidemia de drogas mais mortal da história dos Estados Unidos, agentes da DEA permitiram que mais de 3 milhões de comprimidos de fentanil chegassem às ruas com o suposto propósito de fortalecer processos criminais.
Em Albuquerque, a cidade mais populosa do Novo México, agentes da DEA permaneciam à margem e observavam, a partir de helicópteros e veículos de vigilância, como distribuidores de drogas entravam em hotéis com mochilas que, acreditava-se, carregavam até 100 mil comprimidos de fentanil.
De acordo com a própria agência, sete em cada dez comprimidos contêm droga suficiente para provocar a morte por overdose de um adulto médio, ou seja, por cada mochila que deixavam passar, tornavam-se cúmplices de 70 mil homicídios. É claro que é absurdo supor que cada dose resulte em uma morte, mas a DEA e a Casa Branca utilizam essa métrica ao falar dos “terroristas” que traficam os entorpecentes.
Talvez os estadunidenses possam se surpreender ao conhecer as táticas questionáveis de suas corporações de combate à criminalidade, mas em toda a América Latina é bem conhecido o duplo padrão de Washington. Como exemplo, a operação Rápido e Furioso, o esquema perverso por meio do qual, entre 2009 e 2011, o Escritório de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos dos Estados Unidos permitiu deliberadamente a venda e o tráfico ilegal para o México de mais de 2 mil armas de fogo, sabendo que os compradores eram grupos do crime organizado e que esses dispositivos seriam usados contra policiais e civis mexicanos.
Hipocrisia
A hipocrisia se estende ao âmbito financeiro: há um ano, o Departamento do Tesouro forçou o fechamento de dois bancos e de uma corretora de valores mexicanos por “facilitar o envenenamento de inúmeros estadunidenses ao movimentar dinheiro para os cartéis”; de acordo com as acusações, as entidades movimentaram, juntas, menos de US$ 17 milhões de procedência ilícita. Em contraste, o mesmo Tesouro impôs uma multa irrisória de US$ 125 milhões e permitiu que a UBS Financial Services continue operando, apesar de essa filial do grupo financeiro suíço ter realizado transferências de mais de US$ 10 bilhões sem monitorar a possível origem ilícita dos recursos.
Na semana passada, o procurador-geral do Novo México, Raúl Torrez, processou o Departamento de Justiça a fim de obrigá-lo a entregar alguns dos mesmos registros que os republicanos da comissão estão solicitando.
“Embora os agentes da DEA talvez não tenham os recursos para interceptar cada carregamento conhecido, uma política que lhes ordene não interceptar grandes carregamentos é inconcebível e, sem dúvida, provocou danos consideráveis e a perda de vidas”, escreveu Comer na carta. A DEA ainda não respondeu a um pedido de declaração sobre o assunto.
A ação judicial e a investigação do Congresso ocorrem dois meses depois de uma investigação da AP ter constatado que agentes da DEA monitoraram repetidamente grandes carregamentos de fentanil no Novo México entre 2023 e 2025, que tiveram permissão para chegar às ruas enquanto as autoridades federais fortaleciam processos criminais.
O fentanil não foi apreendido em meio à epidemia de drogas mais mortal da história dos Estados Unidos, mesmo quando a DEA liderava uma campanha de conscientização pública — One pill can kill (Uma pílula pode matar) — que enfatizava que poucos miligramas da substância podem ser letais. No ano passado, a Casa Branca classificou o opioide sintético como uma “arma de destruição em massa”.
Comer solicitou registros que abrangem exclusivamente o governo de Joe Biden, citando o que descreveu como seu “afrouxamento dos protocolos de mitigação dos riscos do fentanil”, desenvolvidos durante o primeiro mandato de Trump. Esses protocolos, argumentou, deveriam ter impedido que o fentanil chegasse às ruas em quantidades tão grandes.
Sujeito ao critério policial
A política anterior, adotada em 2017, determinava aos agentes que “apreendessem ou impedissem de outra forma a distribuição” de fentanil “assim que fosse possível”. O Departamento de Justiça reescreveu essas normas em 2024 para dar às forças policiais muito mais discricionariedade sobre a decisão de agir para impedir o tráfico de fentanil, citando “os benefícios que seriam alcançados ao preservar a investigação”.
A investigação da AP revelou que a estratégia investigativa — conhecida como permitir que as drogas “caminhem” — continuou durante o segundo governo de Trump, no período que antecedeu a maior apreensão de fentanil da história da DEA, uma operação anunciada em maio de 2025 pela então secretária de Justiça, Pam Bondi.
Como parte disso, as autoridades apreenderam cerca de 3 milhões de comprimidos de fentanil, mas quantidades maiores não foram apreendidas, enquanto agentes em Albuquerque permaneciam à margem e observavam, a partir de helicópteros e veículos de vigilância, como distribuidores de drogas entravam em hotéis com mochilas que, acreditava-se, carregavam até 100 mil comprimidos.
Toda a rede poderia ter sido desmantelada seis meses antes, segundo um ex-supervisor da DEA que trabalhou no caso e que agora está entre os três denunciantes que alertam sobre a prática de longa data. O órgão de controle interno do Departamento de Justiça anunciou neste mês uma revisão em nível nacional das políticas governamentais e das investigações com escutas telefônicas para determinar se as autoridades federais utilizaram a mesma tática em outros lugares.
“Nossas investigações são de longo prazo, são complexas e são realizadas sob a orientação da lei”, declarou o administrador da DEA, Terry Cole, em uma entrevista concedida neste mês à Fox News, na qual deu boas-vindas à revisão do inspetor-geral. “Continuaremos fazendo isso, mas precisamos nos manter 100% focados no adversário”.
O pretexto intervencionista do narcotráfico
Esse padrão de comportamento confirma que Washington não está interessado em combater o crime organizado dentro de suas fronteiras nem em impedir que as drogas cheguem aos seus cidadãos, mas em usar o narcotráfico como pretexto para interferir em outros países.
Na prática, existe uma proteção sistemática e bipartidária ao negócio bilionário dos entorpecentes. Um editorial do jornal mexicano La Jornada questiona se os EUA são o verdadeiro narcoestado.
Desde a organização do transporte da cocaína para financiar a guerra contra o governo nicaraguense na década de 1980, até o auge do cultivo de papoula durante a ocupação do Afeganistão; desde o indulto ao narcotraficante e ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, até o programa de recompensas às chamadas testemunhas protegidas, é impossível ocultar que, durante o último meio século, os Estados Unidos foram um verdadeiro narcoestado, conclui.
