A coluna CAFÉ COM VODKA é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil) em parceria com a Diálogos do Sul Global.
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Em setembro de 2026, participei do Festival Internacional da Juventude (IFY 2026), em Ecaterimburgo, que reuniu cerca de 10 mil jovens lideranças de 191 países. Estive no evento como representante da delegação brasileira, trazendo também a experiência de quem hoje cursa mestrado na China Agricultural University, em Pequim.
Durante a programação, visitamos a Estação de Melhoramento Hortícola de Sverdlovsk, e a experiência reforçou uma convicção que venho construindo desde a graduação. A cooperação agrícola entre Brasil e Rússia, hoje concentrada no comércio, tem muito a ganhar se avançar para o campo da ciência, em especial a ciência de adaptar a produção de alimentos às condições de cada território.
A Estação de Sverdlovsk, fundada em 1935, é a única instituição científica dedicada à fruticultura do norte nos Urais Médios. Seu trabalho central é o melhoramento genético de frutas e frutos silvestres com foco na resistência ao inverno, isto é, na capacidade das plantas de suportar invernos longos, com quedas bruscas de temperatura e pouca cobertura de neve.

Em 90 anos, a estação desenvolveu mais de 300 variedades, das quais 87 estão inscritas no registro estatal russo e 37 são patenteadas. Esse trabalho se apoia em um banco de germoplasma com mais de 2.100 acessos de origem local, nacional e estrangeira.
A fruticultura russa opera com o conceito de variedades regionalizadas, que são variedades testadas durante anos em uma região específica e oficialmente recomendadas para ela. A premissa é que não existe uma variedade universalmente superior, mas sim variedades adequadas a cada ambiente.
Essa abordagem tem raízes na tradição científica russa. Nikolai Vavilov, formulador da teoria dos centros de origem das plantas cultivadas, defendia que a diversidade genética é a base da segurança alimentar e contribuiu para estruturar o sistema russo de ensaios estatais de variedades.
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Vale lembrar que Vavilov esteve no Brasil entre o fim de 1932 e o início de 1933, em sua última grande expedição, coletando sementes de espécies nativas e cultivadas. A relação científica entre os dois países em torno dos recursos genéticos vegetais, portanto, não é nova.
O Brasil também construiu uma trajetória sólida de adaptação agrícola ao território. Durante minha formação em Engenharia Florestal na ESALQ/USP, em Piracicaba, tive contato com essa tradição, que entende a pesquisa agronômica como uma resposta às condições próprias do país, e não como a simples importação de modelos. O exemplo mais expressivo é a soja, cultura de origem temperada que a pesquisa pública, com papel central da Embrapa, adaptou às baixas latitudes e aos solos ácidos do Cerrado, transformando a região em uma das mais produtivas do mundo.
A fruticultura temperada seguiu caminho semelhante. Na Serra Catarinense e nos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, a pesquisa da Epagri e da Embrapa viabilizou a produção de maçã em regiões onde o frio do inverno nem sempre é suficiente para a dormência da planta. O desafio brasileiro é, de certo modo, o inverso do russo. Enquanto nos Urais a questão é resistir ao excesso de frio, no Sul do Brasil a questão é produzir com frio insuficiente.
A experiência chinesa acrescenta uma terceira perspectiva a essa comparação. Em 2026, participei de uma Summer School em Sanya, na ilha de Hainan, onde aprendemos sobre técnicas de transferência genética e visitamos distritos da ilha. Sanya abriga o Nanfan (南繁), expressão que significa “propagação no sul” e designa o maior polo de melhoramento de sementes da China.
Há décadas, pesquisadores de todo o país levam seus materiais genéticos para Hainan durante o inverno, aproveitando o clima tropical para cultivar uma geração adicional por ano e encurtar o tempo necessário para desenvolver novas variedades. Foi também em Sanya que, em 1970, a equipe de Yuan Longping encontrou a planta de arroz selvagem que tornou possível o arroz híbrido chinês. Se nos Urais o clima é o obstáculo a ser superado, em Hainan ele se torna um instrumento a serviço da ciência.
A outra face da experiência chinesa está na forma como a inovação chega ao campo, e essa percepção veio de uma disciplina do meu próprio mestrado. Entre as matérias do curso de International Development Policy and Governance na China Agricultural University está Community Based Natural Resources Management (Gestão Comunitária de Recursos Naturais), que discute como comunidades locais podem assumir papel ativo na gestão da terra, da água e dos recursos biológicos dos quais dependem seus meios de vida.
Em uma saída de campo da disciplina ao distrito de Pinggu, em Pequim, vimos essa ideia aplicada dentro da agenda chinesa de revitalização rural. Conhecemos uma antiga subestação de energia transformada em museu de arte da vila e o Local Lab for Creation, que capacita moradores em design e habilidades criativas. Visitamos também uma base de ervas medicinais na vila de Dongfangezhuang, onde as plantas são cultivadas sob o dossel da floresta, deixando as terras agrícolas livres para a produção de alimentos.
O exemplo mais claro foi o Parque de Demonstração Frutícola Jingwa, parte de um centro maior de inovação agrícola criado em parceria entre o governo de Pequim e a Universidade de Wageningen, na Holanda, uma das principais referências mundiais em ciência agrícola. Além da fruticultura, o centro trabalha com pecuária leiteira e horticultura protegida, mas seu eixo estratégico declarado é o que os chineses chamam de “indústria moderna de sementes”, ou seja, o melhoramento genético de variedades agrícolas por meio de técnicas de biotecnologia, incluindo edição e seleção genômica assistida por dados.
É esse trabalho de base genética que sustenta, no campo, o parque de demonstração que visitamos. Lá, o parque cultiva pêssegos, maçãs, peras europeias e tomates-cereja para supermercados de alto padrão em Pequim, usando tecnologia holandesa de plantio em alta densidade e alcançando de 8.000 a 10.000 jin por mu em quatro a cinco anos, cerca de 60% a mais do que pomares tradicionais.
Drones e inteligência artificial monitoram a saúde das árvores, e as maçãs são cultivadas sem ensacamento, o que reduz a mão de obra e o uso de agrotóxicos. Como o nome indica, o parque também funciona como espaço de demonstração, mostrando aos agricultores da região o que é possível para que a tecnologia se difunda, unindo em um só lugar o melhoramento genético de ponta e a extensão rural.
Colocadas lado a lado, as três experiências revelam estratégias complementares. A Rússia se destaca pela pesquisa de longo prazo, financiada pelo Estado, e pela conservação da diversidade genética. O Brasil acumula uma experiência rara de adaptação de culturas inteiras a ambientes tropicais. A China demonstra capacidade de articular pesquisa genética de ponta, uso estratégico do próprio território e difusão rápida de tecnologia até o produtor, envolvendo as comunidades rurais nesse processo. Nenhum desses modelos é suficiente sozinho, e é justamente por isso que a cooperação entre eles faz sentido.
Atualmente, o vínculo agrícola mais visível entre Brasil e Rússia é comercial, marcado pela forte dependência brasileira dos fertilizantes russos. Essa relação é relevante, mas explora apenas uma fração do potencial existente.
Há espaço concreto para intercâmbios entre bancos de germoplasma, programas conjuntos de melhoramento voltados à adaptação às mudanças climáticas, parcerias entre a Embrapa, as universidades brasileiras e os centros de pesquisa agrária russos, e mobilidade de estudantes e pesquisadores entre os dois países. O BRICS, que reúne Brasil, Rússia e China, oferece o marco político para essas iniciativas, e as universidades agrícolas dos três países podem funcionar como pontes.
A cooperação que defendo não se baseia na transferência vertical de tecnologia, em que um país ensina e o outro apenas recebe. Baseia-se na troca horizontal entre parceiros que enfrentam problemas distintos com o mesmo rigor científico. A visita a Sverdlovsk mostrou que a adaptação da agricultura ao território pode seguir caminhos muito diferentes. O desafio, agora, é fazer com que esses caminhos dialoguem de forma permanente.

