ataque-ao-ira:-a-exibicao-de-forca-de-uma-potencia-em-declinio

Ataque ao Irã: a exibição de força de uma potência em declínio

O Irã é somente um capítulo que, somado às intervenções na Venezuela e às ameaças à Groenlândia, visa enfraquecer a arquitetura russo-chinesa

O recente ataque militar a diversas cidades do Irã, protagonizado pela aliança Israel-EUA, culminou com a morte do aiatolá Ali Khamenei e é apenas mais um capítulo da escalada agressiva da política externa de Washington em busca de sinalizar aos demais países do globo sua supremacia de poder.

A ação dos EUA está em consonância com a doutrina de segurança nacional, que preza pelo intervencionismo de maneira a defender interesses de cunho político-estratégico. O Irã é somente um capítulo que, somado às intervenções na Venezuela e ao discurso de adquirir a Groenlândia, tem um objetivo claro: enfraquecer a arquitetura russo-chinesa que desafia a hegemonia estadunidense, enfraquecendo-a em esfera global.

O desafio, portanto, não está exclusivamente em entender o desfecho da morte do aiatolá como elemento central da disputa, mas sim em alertar potências que estão sujeitas ao poderio militar dos EUA e seus aliados. Considerando num primeiro olhar o Oriente Médio, a frágil costura entre países muçulmanos, ao se aliarem a Washington, não lhes garante segurança suficiente em eventual ataque às instalações militares, pois estes não possuem o “domo de ferro” presente em Israel. Portanto, são mais suscetíveis a ataques deliberados como resposta à ação, questionada sob a ótica do direito internacional, em território iraniano.

Há, porém, um recado sutil direcionado a endereços para além da região: Moscou e Pequim. O compromisso chinês com a Nova Rota da Seda e o da Rússia com o poderio militar pós-URSS afetam diretamente os interesses dos EUA, que enxergam o colapso de seu próprio domínio econômico. Recentes iniciativas de desdolarização em países do Brics, do qual o Irã faz parte, dão um recado para os EUA: a necessidade de intervenção. A arquitetura de Donald Trump busca atuar nas periferias em ações pontuais, com utilização de tecnologia superior, e, assim, trazer euforia aos mercados, que precificam as ações com aumento de insumos, o que perturba a economia global.

Nesse sentido, as ações do Irã se desdobram em segmentos que dificultam a construção da paz mundial. Sob a ótica econômica, o impacto mais sensível se localiza no transporte de produtos dos países vizinhos, visto que a nação iraniana se encontra sob sanções internacionais. O bloqueio do Estreito de Ormuz, um canal natural cujo ponto de estrangulamento é controlado pelo governo de Teerã, afeta o preço dos insumos no mercado internacional de forma sem precedentes, encarecendo produtos, serviços e o transporte global.

Na dinâmica da aviação civil, a constituição de hubs estratégicos nos últimos anos, em aeroportos de Doha e Dubai — cuja restrição do uso do espaço aéreo se reflete nas rotas —, aliada ao aumento da aviação, influencia o custo das passagens aéreas em nome da segurança internacional. Desta feita, os países são atingidos em escalada crescente, pois o modo de conexão não será mais seguro. Isso impacta a China pela utilização das conexões que faz com Europa, Américas e África.

Ataque ao Ira a exibicao de forca de uma potencia em declinio 2
Postura de Trump mostra que os rumos da maior potência global são instáveis, contaminando todo o mercado financeiro global.. (Charge: Latuff, 2020)

Paralelamente, a política de enfrentamento contribui para desestabilizar os países do Oriente Médio, que vivem sob acordos frágeis e, ainda, com as incertezas de Trump — quem, após invocar a destruição da civilização iraniana, conclama para um inesperado cessar-fogo. Essa postura mostra que os rumos da maior potência global são instáveis, contaminando todo o mercado financeiro global.

De toda forma, a nuance geopolítica aparece de maneira clara aos países do hemisfério norte: aumentar a porcentagem de seu Produto Interno Bruto (PIB) em defesa e segurança, contribuindo para maiores investimentos militares, os quais também contam com fundos privados que aproveitam esta janela de oportunidade para fornecer meios e equipamentos aos países de ambos os lados — um lado sombrio do conflito, uma vez que demandas importantes para o futuro da civilização, como a transição energética, ficam relegadas a segundo plano.

E não podemos esperar que tréguas possam normalizar rapidamente o fluxo do transporte marítimo. Há incertezas quanto ao alcance dos recentes acordos e, ainda, quanto à precificação de seguros sobre as embarcações, à segurança da tripulação e à cobrança de pedágio pelo uso do Estreito de Ormuz, cuja utilização vem se destacando como fiel da balança no presente conflito. A retomada da segurança da navegação nos próximos dias será o desafio e definirá os contornos das narrativas dos países beligerantes nesta questão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *