Entre cigarras, folhas secas, vaga-lumes, orvalho e o café das manhãs, Antonia encontra no cotidiano uma forma de contemplar o tempo e resistir ao tumulto da cidade
Antonia sempre admirou a beleza que habita na nostalgia do fim do verão. As pétalas dos girassóis já meio secas e o capim amadurecendo, com suas flores cheias de grilos. A tristeza melancólica do canto das últimas cigarras, abafado pelos dias de chuva, sempre foi uma melodia carregada de poesia silvestre.
Nos últimos dias do verão, o abafamento da umidade começa a se dissipar e, pouco a pouco, enquanto os campos se enchem das sementes dos carvalhos que caem de repente, anunciando o começo do outono, os pernilongos se despedem do banquete e dão lugar às cores do sapoti e da pitaia da estação do frio, que, na floresta, os bordos celebram com os tons de urucum e ocre que enfeitam suas folhas.

O cotidiano sempre provocou em Antonia uma espécie de assombro: a maneira como as aves constroem seus ninhos, a serenidade de começar do zero quando os ventos os destroem e a coragem de fazer do nada o seu lar.
A paciência das formigas carregando as migalhas que encontram pelo caminho, uma atrás da outra, organizadas como nenhuma outra espécie. O nascimento das libélulas, o encanto da lagarta que se transforma em borboleta. E o espelho que nasce nas poças d’água.
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O amarelo do pólen cobrindo as patinhas das abelhas. As pétalas secas das roseiras, que foram o encanto do verão, são para Antonia a beleza da passagem do tempo, como os cabelos brancos e as rugas na pele.
O mato começando a secar, a terra rachada pela canícula, as cascas das árvores e os galhos secos que encontra na trilha quando vai à floresta, o som deles se quebrando quando os esmaga sob os pés ao caminhar. Tudo, tudo faz parte da formosura do fim do verão.
Os vaga-lumes embelezando a hora da oração. E o vapor singular das alvoradas, com o orvalho sobre as folhas — beleza de fim de verão. O cotidiano é assim tão belo, pensa Antonia consigo mesma, sorvendo uma xícara de café de tortilla.
É poesia, é encanto, é parte da nuvem de loucura em que habitam aqueles que encontram no habitual um sopro que lhes permita continuar resistindo, em meio ao tumulto de uma metrópole de concreto e falsidade à qual os embusteiros deram o nome de progresso.
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