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Milei enfrenta crise de popularidade e denúncias de corrupção na Argentina

A imagem internacional de Javier Milei atravessa um momento de tensão, marcado por críticas, queda de popularidade e questionamentos sobre a economia argentina e a corrupção galopante em sua administração. Começaram a se reorganizar setores da oposição que, apesar de sua debilidade, já projetam o cenário eleitoral de 2027, e o que era visto como uma campanha segura para a reeleição começa a parecer mais do que duvidoso.

Quase 40% da população considera que o principal problema do governo nacional é a corrupção, e mais de 65% avaliam que a gestão do presidente Javier Milei é ruim. Os dados correspondem a uma pesquisa privada. Quando começou a gestão libertária, a variável “corrupção” estava em torno de 20%, mas os casos $LIBRA, ANDIS e o de Manuel Adorni foram marcando picos na série.

O show de Manuel Adorni no Parlamento mostra muito mais do que parece à primeira vista. Não é apenas um espernear desesperado para mudar a agenda da crise econômica e dos escândalos por possível enriquecimento ilícito do outrora porta-voz estrela — que se somam aos já numerosos casos de corrupção neste governo —, mas algo que desnuda até a medula as fragilidades do governo e, junto com ele, as de toda uma época, afirma a revista Noticias.

Escândalo com irmã de Milei derruba farsa do combate à corrupção na Argentina

A decisão de Karina Milei de apoiar Adorni contra tudo e todos mergulhou na lama toda a administração libertária e teve consequências inesperadas: durante um dos intervalos, o mandatário insultou toda a imprensa — “são chorros (ladrões), corruptos” —, cena que deixou exposto o mau momento pessoal do mandatário.

Milei passa cada vez mais tempo encerrado na residência presidencial, tem pouco contato mesmo com seus funcionários mais próximos e está aumentando o tempo diário que dedica às redes sociais — mais de três horas por dia, em média —, ao mesmo tempo em que seu impacto no mundo virtual vem em franco declínio. É o mundo do avesso: o presidente aparece como defensor público do chefe de Gabinete, e, nesse apoio público, vai deixando rastros de sua própria imagem, afirma Juan Luis González, em Noticias.

A solidão presidencial e sua turbulenta personalidade estão alcançando níveis históricos. A paranoia do mandatário chegou a um nível que assusta até dirigentes libertários. Uma frase que repete tanto em privado quanto em público, e que causa estupor, é: “não há crise econômica, esta é uma invenção do jornalismo corrupto”.

Assim é visto pelo mundo capitalista

Dois dos mais influentes meios de comunicação globais, Financial Times e The Economist, analisaram o impacto dos escândalos políticos, o desempenho econômico e as disputas internas do governo na percepção do presidente no exterior. O Financial Times descreveu um cenário adverso para o mandatário, indicando que “a popularidade do presidente cai enquanto os funcionários enfrentam acusações de corrupção e o desemprego aumenta”, em um contexto em que a agenda política se vê dominada por investigações e conflitos internos.

O jornal acrescentou que a aprovação de Milei caiu de 40% para 30% em poucos meses, enquanto a confiança em sua administração retrocedeu 12% em abril, acumulando a quarta queda mensal consecutiva. Um dos episódios mais relevantes ocorreu durante a semana passada, em uma extensa sessão no Congresso, quando o chefe de Gabinete, Manuel Adorni, foi interrogado por suposto enriquecimento ilícito. “Não cometi nenhum delito e vou demonstrar isso nos tribunais”, afirmou o questionado funcionário.

Segundo o Financial Times, a desaceleração da atividade em setores como comércio e indústria, junto com a queda dos salários reais e um desemprego de 7,5%, erodiu o apoio social. The Economist esclareceu igualmente que os analistas esperam um crescimento de 3% para este ano, com expectativas centradas no “auge da extração de petróleo e do investimento internacional em gás e mineração”. Destacou ainda a compra de reservas, embora esclarecendo que o governo destina a maior parte ao pagamento da dívida.

Por último, o influente jornal britânico indicou, em vista das eleições presidenciais de 2027, que, apesar da forte queda da imagem de Milei, a oposição não consegue capitalizá-la. The Economist advertiu sobre “o frágil equilíbrio da Argentina” e sobre o impacto das pesquisas, afirmando que, se persistir a imagem ruim do oficialismo quando se aproximarem as eleições, poderia haver um impacto direto nos mercados, com menções ao “histórico de má gestão econômica dos peronistas populistas”. Acrescentou que Milei “não tem tempo a perder”.

Corrupção a granel

“O caso de Adorni está erodindo todo o governo e eclipsando todo o bom trabalho que estamos fazendo”, reconheceu uma fonte citada pelo Financial Times, marcando a preocupação interna com o dano às reputações. O próprio Milei intensificou seu confronto com a mídia, com restrições ao acesso da imprensa à Casa Rosada e o uso reiterado da frase “não odiamos suficientemente os jornalistas”, o que contribui para tensionar ainda mais seu vínculo com a opinião pública.

Além disso, as disputas dentro do oficialismo, particularmente entre sua irmã e secretária-geral da Presidência, Karina Milei, e o assessor Santiago Caputo, somam ruído político. Antes eram apenas elogios para o presidente libertário da motosserra; hoje, o olhar do exterior é mais do que crítico.

Segundo The Economist, “Javier Milei está com sérios problemas”, descrevendo um cenário em que convergem uma economia debilitada e uma cadeia de questionamentos por corrupção, nos quais estão envolvidos os mais altos funcionários de sua administração, que chegou nesta semana ao pior nível de aprovação. De acordo com um levantamento da consultora Atlas Intel, a aprovação do mandatário se situa em torno de 35,5%, enquanto a desaprovação chega a 63%, ampliando a brecha negativa na opinião pública.

Entre os casos mais sensíveis de corrupção aparece o episódio vinculado à criptomoeda $LIBRA, em que registros telefônicos mostram contatos entre Milei e empresários envolvidos na estafa promovida pelo próprio mandatário. Também, a Justiça Federal avançou de maneira contundente sobre um dos esquemas de corrupção mais graves detectados na área de políticas públicas vinculadas às pessoas com deficiência.

O juiz federal Sebastián Casanello determinou o processamento de 19 pessoas — funcionários públicos, empresários farmacêuticos e colaboradores — por integrarem uma organização criminosa destinada ao desvio sistemático de recursos públicos no seio da Agência Nacional de Incapacitados (ANDIS). Karina Milei, irmã do presidente; Eduardo “Lule” Menem, subsecretário de Gestão Institucional da Presidência; e Martín Menem, presidente da Câmara de Deputados, aparecem envolvidos neste caso de propinas — 3% da arrecadação para cada um — pela compra de medicamentos.

Mas os argentinos sentem na própria carne a deterioração econômica, com uma queda do PIB de 2,6% em fevereiro e um impacto forte em setores como manufatura, comércio e construção, que concentram grande parte do emprego. Obviamente, a credibilidade do presidente continua sendo erodida e será difícil para ele reverter a percepção negativa antes do próximo ciclo eleitoral.

A isso se somam os escândalos que atingem funcionários do governo. A investigação sobre o chefe de Gabinete Manuel Adorni, assim como a renúncia de um funcionário do Ministério da Economia por ocultar propriedades e as revelações sobre uma suposta estafa com criptomoedas, amplificam o impacto negativo.

Uma fissura a mais

O apoio irrestrito dos funcionários do governo ao chefe de Gabinete Manuel Adorni começa a se abalar: a senadora de La Libertad Avanza Patricia Bullrich, que em 2025 fez campanha junto com ele na cidade de Buenos Aires, pediu que apresente sua declaração jurada “imediatamente”, somando pressão a um funcionário que está custando caro em imagem ao governo, e levou Milei a apoiá-lo novamente com palavras taxativas: “Nem a pau Adorni sai”.

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Patricia Bullrich, ministra de Seguridad de Argentina

Patricia Bullrich, presidenta do bloco de La Libertad Avanza no Senado, foi a primeira voz forte do oficialismo a exigir publicamente de Adorni que apresente “imediatamente” sua declaração jurada. Bullrich deixou claro que a demora “mergulha o governo na lama”, desgasta sua credibilidade e faz sofrer o país e a gestão. “Para que você vai esperar até 30 de junho se tem tudo provado?”, perguntou.

O pedido de Bullrich marca uma fissura no seio libertário e expõe a preocupação crescente enquanto avança o escândalo judiciário que envolve Adorni por enriquecimento ilícito.

Milei disse: “não executo inocentes. Adorni não sai nem a pau”. Desta vez, diferentemente de suas viagens anteriores — desde que começou sua gestão foram 16 aos EUA —, foi sem sua irmã Karina, que ficou na Casa Rosada ocupada com reuniões políticas. Na sexta-feira (15), em sua volta, o mandatário participaria da reunião da mesa política que se realizaria na Casa Rosada, em que todos se veriam frente a frente.

Com relação à sua — desta vez — veloz viagem aos EUA, Milei fez com que o Estado argentino pagasse passagens para ele, para o chanceler Pablo Quirno, para o ministro da Economia Luis Caputo e para toda sua comitiva com destino a Los Angeles, para fazer um discurso no Instituto Milken. Sua mensagem, no entanto, não trouxe novidades: foi quase calcada na que fez dias antes no jantar da Fundação Libertad e, embora a viagem tenha sido paga com o dinheiro de todos os argentinos, não houve transmissão oficial do governo. Só se pôde ouvir o discurso do mandatário em um link da fundação, com dublagem em inglês.

A deputada Marcela Pagano afirmou que Manuel Adorni é “o caixa de Karina Milei”, sugerindo que ganhou três milhões de dólares na estafa com a criptomoeda Libra, promovida por Javier Milei. “Há uma cifra por aí; que não aconteça de este número começar a circular pela mão de Adorni”, disse, fazendo o três com a mão. Quando lhe perguntaram se eram 3% ou 3 milhões, respondeu que eram milhões “por uma operação em uma wallet”. Pouco antes, contou que Adorni tem uma conta na Lemon e pediu que se investigue a circulação do dinheiro.

A fala de Pagano coincide com uma crença em setores do governo nacional de que os irmãos Milei não soltam a mão de Adorni porque ele estava muito envolvido na trama da Libra. O então porta-voz foi um dos convidados do Tech Forum 2024, em que se gestou o lançamento da Libra, e também seria a estrela da frustrada edição de 2025.

Patricia Bullrich, chefe do bloco de senadores de La Libertad Avanza, não teve meias palavras e exigiu de Manuel Adorni que demonstrasse que não enriqueceu de maneira ilegal. “O chefe de Gabinete disse que tem uma explicação para os gastos que fez e que tem que apresentar sua declaração jurada. Bem, acho que tem que fazer isso imediatamente”, apressou-o em um canal de televisão.

A resposta não veio do protagonista do interminável “Adornigate”. Quem saiu para defendê-lo foi o próprio presidente Milei que, de Los Angeles, disse pela televisão que “Adorni não sai nem a pau”: “O que fez Patricia é spoiler. Manuel tem os números e isso não é um problema”. De toda forma, e em tom mais moderado, mandou uma mensagem direta para a senadora e para o restante dos ministros: “O presidente sou eu. Se alguém não gostar do que decido, ou engole ou vai embora”. Adorni manteve silêncio: sua permanência está ligada à sorte dos Milei.

Se a queda de Milei sair de controle, colocando em risco a integridade de seu mandato ou o êxito de qualquer candidatura pró-establishment nas eleições, Bullrich poderia assumir como chefe de Gabinete plenipotenciária, afastar os Milei e seu gabinete, montar sua equipe e governar por interposta pessoa enquanto faz campanha para ser eleita.

As tropelias de Manuel Adorni e suas misérias, a estafa $LIBRA de Milei, as propinas para sua irmã, os créditos do Banco Nación a seus funcionários, a evasão fiscal de Andrés Vázquez — funcionário que dirige nada menos que a Agência de Arrecadação e Controle Alfandegário (ARCA), encarregada do controle tributário dos contribuintes — se somam ao desmonte da rede de longa distância, reduzida a 50% da que existia em dezembro de 2023.

“A barbárie está nos destruindo. São cruzados de uma luta contra um comunismo inexistente, soldados de uma batalha cultural que na realidade é um combate contra a cultura, legionários medievais que investem contra a justiça social, os trabalhadores, o aquecimento global, as vacinas, a educação e a saúde pública, os aposentados, as pessoas com deficiência e, em geral, contra todo avanço humano e toda conquista social”, afirma Hugo Presman.

Se isso continuar assim — e não há nenhuma probabilidade de mudar, porque Milei veio para fazer esta demolição, salvo que se esgote a paciência popular —, o humor do poeta e filósofo Macedonio Fernández será realidade: “foi um desastre tão completo que até os sobreviventes pereceram”.

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