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IA ameaça leitura, trabalho e memória da infância

Escrevo sabendo que também sou cúmplice do assassinato. Aqui, as palavras surgem empurradas por sugestões que não nasceram de mim, completadas por um corretor  de IA que me poupa do erro e, com ele, me rouba o desvio, a hesitação, a descoberta. Escrevo com a sensação de que a língua está sendo progressivamente pasteurizada, encurtada, reduzida a um fluxo previsível que o algoritmo valida antes mesmo que o pensamento se forme por inteiro. A tecnologia, que prometia expandir a expressão, talvez esteja nos fazendo escrever todos iguais, mais corretos e menos vivos. E, no entanto, é com ela que insisto em me fazer entendido, enquanto me pergunto se ainda serei capaz de escrever sozinho amanhã.

IA acelera leitura e esvazia experiência

E não é só a escrita que definha. A leitura também está sendo assassinada, e com um método ainda mais silencioso: o resumo. A inteligência artificial (IA) nos oferece a síntese perfeita de qualquer livro, qualquer artigo, qualquer pensamento alheio, e nós aceitamos, agradecidos, porque o tempo é curto e a oferta é infinita. Mas, ao ler apenas o extrato, perdemos o corpo do texto. Perdemos a respiração do autor, o desvio inesperado, a frase que não era essencial para o enredo, mas era essencial para nós. O resumo nos entrega a informação e nos priva da transformação. Ler não era só compreender, era demorar-se. E a IA, com sua eficiência devastadora, está nos convencendo de que o bastante é suficiente.

Talvez, no entanto, essa lógica não seja nova. A escrita nasceu por necessidade de registro, não de leitura. Os primeiros símbolos surgiram com os sumérios, na Mesopotâmia, por volta de 3500 antes de Cristo, e eram marcas de contagem: cabeças de gado, sacas de grãos, impostos. Eram anotações para controle, não para serem lidas por outros. A leitura como ato de decifrar um texto veio depois, como consequência. A escrita nasceu do poder. Do Estado que contava seus bens. Do templo que registrava oferendas. Do comércio que selava contratos. E a leitura, por muito tempo, foi privilégio de uma casta. O leitor comum, o leitor por prazer, o leitor que se demora é uma invenção tardia. A inteligência artificial não inaugurou a submissão da palavra à eficiência e ao controle. Ela a levou ao paroxismo. O que ela ameaça agora é justamente o que levamos milênios para conquistar: a leitura como ato de liberdade, a escrita como ato de descoberta.

Eu não sei se tenho medo da inteligência artificial ou se já deveria ter me acostumado com a ideia de que ela veio para ficar. Talvez as duas coisas coexistam, o medo e a aceitação, e talvez seja exatamente isso que torne tudo tão desconfortável.

Porque, no fundo, a pergunta que me persegue é esta: a IA vai nos servir ou vai nos substituir? Ela pode ser a ferramenta que nos ajuda, que abre espaço para novos tipos de trabalho, que nos liberta do cansativo e nos devolve o criativo. Essa é a promessa. Mas há também o outro lado, mais silencioso e mais brutal: o da máquina que não precisa de salário, não se cansa, não reclama e não se sindicaliza.

E o mais inquietante nem é a tecnologia em si. É o fato de que ela não tem consciência. A IA não deseja, não planeja, não tem ambição. Sozinha, ela não toma nada de ninguém, porque não quer nada.

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E talvez o próprio nome já carregue um exagero perigoso. No fundo, isso que chamamos de inteligência artificial não é inteligência nem artificial. É uma ferramenta estatística para mineração de dados. É digital, formada por pixels e probabilidades. É discreta, criada pela nossa inteligência, que é analógica, contínua, feita de matéria viva e incerteza. O analógico contém o discreto, e não o contrário. Chamar de inteligência aquilo que apenas calcula padrões talvez seja o primeiro passo para entregarmos a ela mais do que ela pode ou deve ter.

O problema é que, por não ter vontade própria, ela se torna o instrumento perfeito. O capital não dorme, mas agora também não precisa mais de nós. A riqueza que a IA gera não se distribui sozinha, ela escorre, inteira, para os donos dos meios de produção, com a verticalização da produção. Os mesmos de sempre. Só que agora mais fortes, mais rápidos e menos dependentes de gente.

Então o medo não é da máquina. É de um mundo onde o trabalho some e o capital fica. Onde quem já não tinha nada agora não tem nem o que vender.

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E, no entanto, há um medo ainda mais fundo, um medo que não começa na economia nem na tecnologia. Existe o esquecimento da infância, essa cicatriz que todos carregamos: queremos lembrar de algo, de um instante, de um cheiro, de nós mesmos antes da máscara, e não sabemos mais o dia exato em que nos perdemos da nossa própria naturalidade. A inteligência artificial não criou esse apagamento. Ela o aperfeiçoou. Porque, antes de nos tirar o trabalho, a leitura e a escrita, ela nos afasta do que um dia fomos sem esforço: matéria viva, contínua, analógica, capaz de silêncio e assombro. O que está em curso não é apenas o assassinato da palavra. É o sequestro da infância que ainda respirava em nós.

O que estamos perdendo agora, sem saber o dia nem a hora, não é só o emprego ou a palavra. É a infância de nós mesmos. E a infância da própria palavra. E isso, nenhum algoritmo poderá restituir.

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