Com 35 candidatos à presidência — um recorde histórico —, mas nenhum que entusiasme, e com um voto disperso em meio ao descrédito da classe política, o Peru passa pela última semana antes das eleições com baixo respaldo a todos os postulantes. Nenhum deles alcança 15%. A sete dias do pleito, cerca de 30% dos eleitores seguiam indecisos, segundo diversas pesquisas. As últimas quatro sondagens, que desde esta segunda-feira (4) já não podem mais ser publicadas devido às regras eleitorais, confirmam que haverá segundo turno, marcado para 7 de junho. É a única certeza. Há sete candidatos com chances de chegar ao segundo turno. Trata-se de uma disputa entre “nanicos eleitorais”. Dado o baixo apoio, pequenos movimentos de poucos pontos podem alterar completamente o cenário.
Nestas eleições, o país se joga entre o aprofundamento de um autoritarismo ultraconservador — em curso desde dezembro de 2022, quando Pedro Castillo foi deposto e o Congresso, dominado pela direita, assumiu o controle político — ou uma restauração democrática e de direitos. Nesse embate entre candidatos de apoio esquálido, o bloco autoritário chega à última semana de campanha em vantagem. A ultradireita, que capitaliza o temor da população diante de uma explosão da criminalidade com um discurso de “mão dura” e militarização, encabeça os levantamentos com três candidatos.
As pesquisas coincidem em colocar Keiko Fujimori em primeiro lugar, concorrendo pela quarta vez consecutiva, com índices entre 10% e 13,5%. O ator cômico Carlos Álvarez, que gosta de ser chamado de “Bukele peruano”, e o ultradireitista ex-prefeito de Lima Rafael López Aliaga aparecem em empate técnico pelo segundo lugar, alternando posições conforme o instituto. No entanto, Álvarez mostra tendência de alta, enquanto López Aliaga, conhecido como “Porky”, está em queda — algo apontado por todas as sondagens. Logo atrás, com diferenças mínimas e posições que variam conforme a pesquisa, aparecem quatro candidatos, que vão da esquerda à centro-direita, contrários ao chamado pacto mafioso autoritário.
O Instituto de Estudos Peruanos (IEP) atribui 10% a Keiko, 8,7% a López Aliaga, 6,9% ao comediante Álvarez, 6,7% ao candidato de esquerda Roberto Sánchez, 6,3% ao social-democrata Alfonso López Chau, 5,4% ao candidato de centro-direita Jorge Nieto e 5,2% ao populista Ricardo Belmont, ex-prefeito de Lima e candidato mais velho, com 81 anos, conhecido por sua trajetória como apresentador de televisão.
Já a pesquisa CPI aponta Keiko com 11,8%, López Aliaga com 9,2%, Álvarez com 8,5%, López Chau com 6,0%, Nieto com 4,8%, Belmont com 4,3% e Sánchez com 3,8%. Esse percentual mais baixo de Sánchez não reflete o crescimento do candidato de esquerda indicado por outros levantamentos.
Em uma simulação de voto com cédula idêntica à que será usada no dia da eleição, divulgada no domingo, o instituto Datum aponta Keiko Fujimori com 13,5%, Carlos Álvarez com 8,0%, López Aliaga com 7,6%, Nieto com 5,3%, Sánchez com 5,2%, Belmont com 4,8% e López Chau com apenas 3,4%, número que difere das demais pesquisas.
Eleições no Peru: desesperança e apatia política conduzem país à extrema-direita
São cifras baixas para todos os candidatos, que, em uma eleição convencional, não bastariam para liderar a disputa. Mas, neste cenário de muitos postulantes, voto fragmentado e repúdio generalizado à classe política, muito pouco pode ser suficiente para chegar ao segundo turno — e, depois, vencer a presidência.
A herdeira do ditador, na frente
A filha e herdeira política do falecido ditador Alberto Fujimori, que fez campanha reivindicando a figura do pai — condenado por crimes de lesa-humanidade e corrupção —, aparece em primeiro lugar em todas as pesquisas, ainda que com baixo respaldo; mas também concentra, com larga diferença, a maior rejeição. Cerca de metade do eleitorado afirma que não votaria nela em hipótese alguma. As sondagens indicam que, em um segundo turno, ela perderia — uma história que se repetiria. Keiko já chegou ao segundo turno e foi derrotada nas eleições de 2011, 2016 e 2021.
López Aliaga, personagem de linguagem violenta, que já ameaçou de morte jornalistas e autoridades eleitorais e é conhecido por difundir inverdades, admirador de Trump e Milei — a quem pretende emular —, liderou as pesquisas por um bom tempo, com apoio concentrado em Lima e nos setores médios e altos da capital, mas vem em queda. Segundo as pesquisas, parte de seus apoiadores começou a migrar para a candidatura do comediante Carlos Álvarez, em quem parecem ver um candidato com propostas direitistas semelhantes, porém com um estilo menos agressivo e menos extravagante.
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Álvarez se apresenta como uma figura nova na política e alheia ao chamado “pacto mafioso” — como é denominada a coalizão direitista que controla o Congresso, liderada pelos partidos de Keiko Fujimori e López Aliaga —, o que tem lhe permitido ganhar votos; suas propostas, no entanto, coincidem com as dos outros dois candidatos da ultradireita. Durante a ditadura de Fujimori, ele tinha um programa de imitações políticas no qual ridicularizava os críticos do regime e exaltava o ditador; em 2000, fez campanha pela reeleição de Fujimori.
No grupo de candidatos opostos ao autoritarismo da ultradireita, as pesquisas registram um crescimento importante, nas últimas duas semanas, do congressista de esquerda Roberto Sánchez, que nos últimos dias passou de cerca de 1% para entrar na disputa. Sánchez faz campanha reivindicando a figura do ex-presidente Pedro Castillo e, assim como o ex-mandatário hoje encarcerado, tem sua principal força no voto rural andino.
O social-democrata Alfonso López Chau, ex-reitor da Universidade Nacional de Engenharia (UNI), que havia se colocado como o mais bem posicionado para enfrentar a ultradireita, perdeu espaço nesta reta final, segundo as pesquisas. Economista de 75 anos, López Chau se tornou muito conhecido durante os protestos contra o governo de Dina Boluarte, no fim de 2022 e início de 2023, quando abriu as portas do campus da Universidade Nacional de Engenharia (UNI, na sigla em espanhol) para abrigar e proteger manifestantes que haviam chegado a Lima desde o interior do país e eram brutalmente reprimidos. Uma campanha contínua de ataques e deslegitimação por parte da direita, somada ao seu baixo carisma, parecem tê-lo afetado. O crescimento de Sánchez nas áreas rurais e, em menor medida, de Nieto na capital, teria reduzido seu apoio.
A uma semana das eleições, o cenário mais provável parece ser, novamente, um segundo turno com Keiko Fujimori na disputa. A grande incógnita, que mantém o país em incerteza, é se esse segundo turno será entre duas candidaturas da ultradireita — como indicam as pesquisas no momento — ou se um candidato do campo democrático conseguirá chegar à fase final. A divisão do voto entre os diversos candidatos da oposição democrática à ultradireita favorece a possibilidade de vitória dessa direita autoritária.

