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Análise | O desgaste de Rodrigo Paz e a reorganização do campo popular na Bolívia

Rodrigo Paz não cumpriu os compromissos eleitorais (como não privatizar nem se endividar com o Fundo Monetário Internacional (FMI)), razão pela qual uma fração importante do campo popular o apoiou no segundo turno eleitoral de 2025; esse respaldo nas urnas não foi um cheque em branco, mas, em boa parte, a definição pelo mal menor diante da possibilidade de que “Tuto” Quiroga — a direita mais radical — se tornasse presidente.

Também decepcionou seu eleitorado ao distanciar-se de seu vice-presidente, Edman Lara, que era visto por boa parte do campo popular como a ponte do Governo com esses setores. Paz chegou a aprovar um decreto que o habilitava a governar remotamente quando estivesse fora do país e retirou atribuições constitucionais do vice-presidente. O campo popular recebeu isso como um sinal claro: Lara ficava encurralado pelo Governo.

File:Rodrigo Paz Pereira en junio de 2025.jpg - Wikimedia Commons
O presidente da Bolívia Rodrigo Paz Pereira – Wikimedia

Depois de sua vitória, aliou-se às opções eleitorais derrotadas na disputa, como Samuel Doria Medina, e àqueles que haviam apoiado Quiroga no segundo turno, como o setor agroindustrial, o grande empresariado e tecnocratas das finanças. Seu gabinete, de fato, é formado por representantes desses grupos de poder.

Isso se refletiu nas primeiras medidas adotadas ao chegar à Presidência, como a eliminação do imposto sobre as grandes fortunas e a aprovação do Decreto 5503 — pelo qual se pretendia reinstalar o neoliberalismo na Bolívia —, ou a mais recente Lei 1720, que pretendia converter a pequena propriedade agrária em média ou empresarial, possibilitando a concentração da propriedade da terra no país.

Por outro lado, a ineficiência governamental ficou evidente em um tema sensível para a população, como o dos combustíveis. Embora Paz tivesse se comprometido a restabelecer o fluxo normal de combustível desde o primeiro dia de seu Governo, nesses seis meses não apenas foram detectadas irregularidades no preço de importação de diesel e gasolina, como também a má qualidade do combustível destruiu os motores de milhares de veículos de transporte público, de particulares e de pequenos transportadores privados, como os mototaxistas. Paz não cumpriu até o momento sua promessa de ressarcimento dos danos.

As demonstrações de ineficiência do Governo e os fatos que vinculam várias de suas autoridades à corrupção são numerosos e minaram a credibilidade do Governo de forma acelerada. Entre eles destacam-se: i) a transferência irregular de 32 maletas dos EUA em um voo fretado por uma ex-deputada do partido de Luis Fernando Camacho (sócio político de Paz).

Esse fato é investigado por suspeita de tráfico de substâncias controladas e divisas, pois não houve controle alfandegário; ii) a disposição de anular a validade de algumas séries de cédulas depois do acidente de um avião da Força Aérea boliviana que transportava moeda nacional. Esse fato afetou aqueles que possuíam cédulas dessas séries, porque não podem utilizá-las.

Tampouco se sabe a quantidade de dinheiro que transportava o avião nem a cobertura dos seguros; iii) o desaparecimento do conteúdo de cofres apreendidos do narcotraficante uruguaio Marset após sua detenção na Bolívia; e iv) a detecção, no Chile, de 68 toneladas de substâncias controladas impregnadas em madeira pertencentes a uma empresa vinculada ao ministro do Desenvolvimento Produtivo.

Um Governo sem estrutura política

Paz chegou ao Governo com uma sigla emprestada, o Partido Democrata Cristão (PDC), e desde o início de seu mandato esse espaço começou a se fragmentar. Por exemplo, a bancada na Assembleia Plurinacional dividiu-se em pelo menos três setores: os que respondem a Paz, os leais a Lara e os que fazem parte da estrutura do partido. Apesar de ter tentado, por meio de manobras irregulares no Tribunal Superior Eleitoral, criar sua própria estrutura reativando o Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), partido de seu pai, Jaime Paz, depois de quase 20 anos sem participar de processos eleitorais, não conseguiu apresentar-se com essa sigla nas últimas eleições subnacionais.

O presidente tampouco conseguiu acordos na Assembleia Legislativa com a aliança LIBRE, que se autodefiniu como oposição ao Governo. Embora tenha praticamente um cogoverno com a Aliança Unidade, de Samuel Doria Medina, e proximidade com Manfred Reyes Villa — que possui uma bancada menor no Legislativo —, o Governo não aprovou na Assembleia nenhum dos projetos anunciados.

Por exemplo, durante o “Grande Encontro Nacional”, organizado pelo Governo na cidade de Cochabamba em 9 de maio, em meio à atual crise política, Rodrigo Paz anunciou um pacote de dez leis: lei da eletricidade, lei de investimentos, lei dos hidrocarbonetos, lei da mineração, lei da economia verde, lei do empreendedor boliviano, lei eleitoral, lei de reforma da Justiça, lei de segurança nacional e lei de redução do Estado e da burocracia.

O presidente anunciou, também em pleno desenvolvimento da atual crise política, a criação de uma comissão de reforma constitucional. Para levar adiante uma reforma parcial da Constituição é necessária a aprovação de dois terços do Legislativo; Paz não pode obter o apoio dessa quantidade de parlamentares sem um acordo com Tuto Quiroga.

O Governo tomou a decisão política de apresentar candidatos nas eleições subnacionais, prescindindo da sigla que o levou à Presidência e mantendo distância de seus opositores de direita. Tinha a pretensão de transformar o recente triunfo das eleições gerais em controle territorial. No entanto, ocorreu justamente o contrário.

O Governo venceu apenas em nove governos departamentais do país, e o outro governador apoiado por Paz (Luis Revilla), que foi empossado no departamento de La Paz, carrega uma pesada carga de ilegitimidade, porque não se realizou o segundo turno eleitoral nesse departamento. Dos dez principais municípios do país, venceu em apenas um deles.

Como resultado do confronto eleitoral, o Governo postergou a consolidação de alianças, enquanto, na atual crise política, seus opositores de direita se afastam, em alguns casos exigindo abertamente que seja decretado estado de sítio (Comitê Cívico de Santa Cruz) e, em outros, pedindo uma profunda reestruturação do Órgão Executivo.

Os triunfos do campo popular apesar da proscrição eleitoral

Entre dezembro do ano passado e janeiro de 2026, o campo popular, a partir da convocação da Central Operária Boliviana (COB) e da ação conjunta do setor indígena originário camponês, conseguiu derrubar o Decreto 5503.

Isso significou interromper, a menos de dois meses do início da gestão, a reinstalação de políticas neoliberais. Embora os mobilizados tenham aceitado a necessidade da retirada parcial do subsídio aos combustíveis, deixaram claro que não aceitam as privatizações das empresas públicas nem o desfinanciamento da educação e da saúde públicas. Mas, e isso é fundamental, foi o início da construção de uma agenda comum de resistência por parte do campo popular.

Em 10 de abril passado, o Governo promulgou a Lei 1720 de conversão da pequena propriedade agrária. Dois dias antes, partiu uma marcha composta por indígenas e camponeses dos departamentos de Beni e Pando rumo à cidade de La Paz. Marcharam durante 29 dias e fizeram vigília às portas da Assembleia Legislativa por outros 15 dias até conseguir a revogação da norma.

Com essa mobilização, freou-se a reconcentração da propriedade da terra na Bolívia, embora a vitória não tenha caráter permanente, uma vez que, no momento de aceitar a revogação da lei, os representantes do agronegócio (como Branko Marinkovic) no Parlamento anunciaram que voltarão a apresentar uma proposta de lei em 60 dias.

A atual mobilização na Bolívia teve como estopim inicial a promulgação da Lei 1720, mas também teve outras exigências desde o início. Em março, a Central Operária Boliviana apresentou suas reivindicações de 2026 ao Governo, que incluem aumento salarial de 20% (equivalente à perda do poder de compra dos trabalhadores), manutenção de direitos adquiridos como os bônus, repúdio a qualquer projeto de lei que penalize as manifestações sociais e outras demandas setoriais.

Dez dias depois, o Governo enviou uma resposta à COB, descartando o aumento salarial, argumentando que o Decreto 5516 já havia elevado o salário mínimo de 2.750 para 3.300 bolivianos (algo mais de 50 dólares pelo câmbio paralelo atual).

A COB, em um conselho municipal convocado em 1º de maio em El Alto, decidiu convocar greve nacional por tempo indeterminado, exigindo que 100% dos dólares provenientes das exportações de empresas privadas sejam entregues ao Banco Central da Bolívia, que seja aprovado um aumento salarial que recomponha o poder de compra dos trabalhadores, que não sejam implementadas estratégias de privatização, que não sejam aplicados cortes orçamentários às empresas estatais nem medidas de flexibilização trabalhista, e que não haja medidas tributárias que afetem os pequenos comerciantes (em regime simplificado), entre outras demandas.

O Governo, em vez de convocar a COB para mesas de negociação, optou por tentar fragmentar os trabalhadores, promovendo diálogos setoriais, emitindo ordens de prisão contra o principal dirigente da COB (Mario Argollo), além de outros dirigentes camponeses, e criminalizando o protesto social.

A mobilização que começou com mais força no altiplano boliviano e teve como epicentro inicial o departamento de La Paz foi se espalhando com forte apoio do setor camponês até alcançar mais de 50 pontos de bloqueio em sete dos nove departamentos do país. O Governo respondeu com repressão de forças conjuntas da Polícia e das Forças Armadas, o que gerou mais de 150 detidos, dezenas de feridos e pelo menos duas pessoas mortas, segundo as organizações sociais mobilizadas. Simultaneamente, a exigência passou a ser a renúncia de Rodrigo Paz.

Essa mobilização teve até o momento uma conquista central: a reorganização do campo popular, que constrói as alianças mais importantes durante a luta, e não apenas nos períodos eleitorais. Essa mobilização está restabelecendo as alianças entre os setores indígenas aimará e quíchua, entre operários (mineiros e trabalhadores industriais), professores, camponeses, jovens universitários e uma ampla gama de espaços, com a possibilidade de voltar a consolidar um bloco popular unificado e sólido para retomar o horizonte histórico e impedir as privatizações, o saque dos recursos naturais e que o custo da crise seja pago pelos mais pobres.

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