A segunda rodada de negociações entre Rússia e Ucrânia, com a mediação dos Estados Unidos, em Abu Dabi, foi concluída nesta quinta-feira (5) com um resultado modesto: a troca de 157 prisioneiros de guerra de cada lado, o primeiro intercâmbio num período de cinco meses. “Esse resultado — escreveu Steve Witkoff, um dos enviados da Casa Branca à capital emiradense, em sua conta na rede X — foi alcançado em negociações de paz que foram amplas e produtivas. Embora ainda haja muito trabalho a ser feito, esse tipo de passo mostra que os contatos diplomáticos permanentes conduzem a resultados relevantes e impulsionam os esforços para pôr fim à guerra na Ucrânia.”
A linguagem diplomática de Witkoff contrasta com o otimismo demonstrado por seu chefe, Donald Trump, que também na quinta-feira (5) afirmou em Washington, conforme se vê em um vídeo divulgado pela Casa Branca no YouTube: “Estamos trabalhando muito duro para acabar com esta guerra (entre Rússia e Ucrânia). Estamos muito perto de conseguir. Já quase conseguimos.”
Em outras palavras, em Abu Dabi não foi possível avançar na solução dos três principais obstáculos que dificultam alcançar consensos em torno do plano de paz de Trump. Ucrânia e Estados Unidos reduzem a articulação a 20 pontos, enquanto a Rússia considera que se deve retomar a versão de 28 pontos, muito mais favorável a Moscou.
Mantêm-se as divergências — segundo as agências noticiosas russas e fontes ucranianas —, para não dizer posições diametralmente opostas, em relação à ainda não resolvida “questão territorial” — isto é, o controle sobre as regiões de Donetsk e Lugansk, incluindo a quinta parte que a Rússia não conseguiu conquistar —, à divisão da energia gerada pela usina nuclear de Zaporíjia e às polêmicas garantias de segurança a Kiev, a maioria delas rejeitadas por Moscou por considerá-las uma ameaça à sua segurança nacional.
Confirmou-se, de certo modo, a conclusão pessimista antecipada por alguns observadores: enquanto o grupo de negociadores da Rússia for chefiado por Igor Kostiukov, diretor da inteligência militar, e seus integrantes forem exclusivamente militares de alto escalão do Ministério da Defesa, será possível avançar em questões técnicas — como demonstra a troca de prisioneiros —, mas não haverá acordo de paz, pois a delegação não está autorizada a tomar qualquer decisão que, na busca dos consensos necessários, permita se afastar do roteiro definido no Kremlin.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, após afirmar na quinta-feira (5) em Varsóvia — onde se encontra em visita — que “Estados Unidos, Ucrânia e Rússia concordaram em realizar em breve um novo encontro”, reiterou a posição inflexível de seu país diante da exigência de Moscou de que Donetsk e Lugansk lhe sejam cedidas e reconhecidas internacionalmente como parte da Federação Russa: “isso não servirá para nada. Como disse meu anfitrião polonês (o primeiro-ministro Donald Tusk), nem todos (os países) vão reconhecê-los (como parte da Rússia) e, além disso, a Ucrânia tem um presidente (ele próprio) que, graças a Deus, assina os documentos. Nenhum líder de outro país vai assinar por nós documentos essenciais. Nossos territórios são apenas nossos.”
À margem das negociações sobre a guerra na Ucrânia, Estados Unidos e Rússia concordaram em restabelecer o canal de comunicação entre os órgãos militares de ambos os países, revelou Witkoff.
Além disso, segundo o portal eletrônico Axios, estadunidenses e russos “falaram sobre a possibilidade de estender o tratado Novo START, que expirou na quinta-feira (5), e concordaram em começar a discutir as formas de renovar as limitações que decorrem desse instrumento, sem se comprometer a prolongar sua vigência ou a assinar qualquer texto a respeito, já que qualquer plano requer a aprovação dos presidentes da Rússia e dos Estados Unidos”.
A retomada das negociações
As negociações foram retomadas na quarta-feira (4) sob estrito hermetismo. As delegações, encabeçadas respectivamente pelo russo Kostiukov e pelo ucraniano Rustem Umerov, secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, são as mesmas que participaram da primeira rodada em Abu Dabi, nos dias 23 e 24 de janeiro (mais detalhes a seguir).
Os representantes haviam programado realizar um novo encontro nos dias 1º e 2 de fevereiro, a nível mais reduzido, sem a presença de Steve Witkoff e Jared Kushner, enviados do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Por fim, o encontro foi adiado para os dias 4 e 5 de fevereiro e contou com a presença de Witkoff e Kushner, além de Dan Driscoll, secretário do Exército dos Estados Unidos.
Assim como na rodada anterior de negociações, segundo se pode observar nas fotografias divulgadas pela chancelaria do país anfitrião, as três delegações participaram inicialmente, em sua totalidade, de uma reunião mais protocolar do que prática e, em seguida, dividiram-se em pequenos grupos para abordar diferentes aspectos do plano de paz.
Para a quinta-feira (5), o plano seria tentar sincronizar as posições de cada parte e encontrar consensos. Foi o que indicaram o chefe da delegação ucraniana e uma fonte anônima russa à agência noticiosa Tass. De acordo com declarações anteriores, as negociações tinham como objetivo avançar na solução dos três temas mais espinhosos que impedem abrir caminho para a paz. O mais difícil continua sendo a “questão territorial”. Outro tema não menos complexo é a gestão da usina nuclear de Zaporíjia. E, por fim, as controversas garantias de segurança à Ucrânia oferecidas por seus aliados europeus.
O encontro de Abu Dabi foi precedido, na madrugada de terça-feira (3), por um intenso bombardeio com 70 mísseis e 450 drones contra Kiev e outras cidades ucranianas, em um dos dias mais frios do ano, com temperaturas próximas de 20 graus negativos. O ataque ocorreu logo após o término da chamada “trégua energética” que Trump pediu a Putin para vigorar durante uma semana e que, segundo Zelensky, durou muito menos e serviu apenas para acumular mísseis e drones.
Independentemente de quem tenha razão sobre a duração da trégua solicitada pelo chefe da Casa Branca, parece evidente que ela não cumpriu o objetivo que o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, descreveu: “Criar condições favoráveis para as negociações” em Abu Dabi. No entanto, ele já havia sugerido que não será possível avançar se a Ucrânia insistir em não cumprir as condições da Rússia. Já o chanceler Serguei Lavrov responsabilizou os aliados europeus de Kiev por frequentemente reformular as iniciativas dos Estados Unidos.
“O diálogo continua. Apoiamos as iniciativas estadunidenses, mas os europeus vão imediatamente a Washington para modificar essas propostas já aprovadas pelo presidente Vladimir Putin”, lamentou Lavrov, em entrevista ao canal de televisão RT.
Ainda assim, ao término do primeiro dia, Umerov fez uma declaração enigmática à imprensa de seu país: “Substancioso e produtivo, o trabalho concentrou-se em passos concretos e soluções práticas. Estamos preparando um relatório para o presidente (Zelensky).”
Expira o tratado Novo START
A Rússia classificou como uma “atitude errônea e lamentável” o fato de os Estados Unidos terem deixado sem resposta oficial, “pelos canais bilaterais”, a proposta do presidente do Kremlin de estender por um ano as limitações — 1.550 ogivas nucleares implantadas e 800 lançadores de mísseis e bombardeiros pesados — previstas no tratado Novo START. O acordo é o último instrumento de redução de armas estratégicas entre os dois países e expirou nesta quinta-feira (5).
Em consequência, segundo comunicado de sua chancelaria, a Rússia “atuará de maneira responsável e ponderada”, dependendo das ações do governo dos Estados Unidos, e advertiu que está preparada para “adotar contramedidas técnicas e militares decisivas para neutralizar possíveis ameaças adicionais à sua segurança nacional”.
Ao mesmo tempo, Moscou afirmou que “continua disposta a buscar, mais adiante, vias político-diplomáticas para estabilizar a situação estratégica”, desde que se criem “as condições adequadas para esse tipo de interação”.
A primeira rodada em Abu Dhabi
A primeira rodada de conversações foi iniciada em 23 de janeiro com a mediação dos enviados da Casa Branca, Steve Witkoff e Jared Kushner, e serviu para constatar o que já se sabia de antemão: que Rússia e Ucrânia não conseguem chegar a um acordo sobre o que é considerado o principal obstáculo para a paz — o controle dos territórios ocupados — e que nenhuma das partes está disposta a fazer concessões capazes de tirar as negociações do impasse.
Há muitos outros problemas a resolver, inclusive os que não constam nos 20 pontos do plano de paz de Trump, como as garantias de segurança que Grã-Bretanha, França e outros países europeus estão dispostos a oferecer à Ucrânia, incluindo o envio de um contingente de pacificação. A Rússia tem reiterado que considera essa possibilidade inadmissível, por entender que se trataria de “soldados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)”, e uma de suas exigências é que a Ucrânia renuncie à adesão à aliança ou à presença de tropas estrangeiras em seu território.
O fato de que o grupo de negociadores enviados pela Rússia tenha sido composto exclusivamente por militares de alto escalão — o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, confirmou que se tratava de “funcionários do Ministério da Defesa”, mas não quis divulgar nomes, exceto o do almirante Igor Kostiukov — sugere, segundo analistas, que foram tratados assuntos técnicos, como a disposição das tropas e do armamento de ambos os países em um eventual cenário de cessar-fogo, após Moscou e Kiev firmarem um acordo político para encerrar a guerra.
Presença de alto nível
A presença entre os mediadores de Dan Driscoll, secretário do Exército dos Estados Unidos, indica que outro dos temas discutidos por russos e ucranianos foi a participação estadunidense no monitoramento e na verificação de um eventual processo de encerramento do conflito.
Além disso, em favor dessa hipótese, do outro lado da mesa também estavam militares ucranianos. Além de Rustem Umerov, chefe dos negociadores e secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, participaram Kirylo Budanov, atual chefe do Escritório da Presidência e ex-diretor da inteligência militar; Andrii Hnatov, chefe do Estado-Maior do Exército; e Vadym Skibitsky, diretor adjunto da inteligência militar, entre outros.
As negociações ocorreram, segundo a imprensa russa, em “diferentes formatos”, ou seja, em vários grupos de trabalho que abordaram separadamente os aspectos militares do plano de paz de Trump.
Frente às pressões de Washington, Moscou e Kiev demonstraram, na capital emiradense, que não se recusam a negociar um acordo político. Contudo — avaliam observadores —, sem concessões recíprocas, dificilmente será possível avançar rumo à paz.
A Rússia exige a devolução dos territórios ocupados
Na madrugada de 23 de janeiro, por volta das 4h15, ao término da reunião de três horas e meia que o presidente russo, Vladimir Putin, manteve exclusivamente com os enviados estadunidenses, o assessor de Política Externa e Defesa da Presidência da Rússia, Yuri Ushakov, deixou bem clara a posição do Kremlin: “Enquanto não se resolver a questão territorial com base nos entendimentos de Anchorage (Alasca), não se poderá falar em negociar um acordo político”, e Moscou “seguirá alcançando as metas que estabeleceu em sua operação militar especial pela via militar”.
Desde que Putin e Trump se reuniram no Alasca, em agosto de 2025, os porta-vozes oficiais russos, ao se referirem aos Estados Unidos no contexto das negociações com a Ucrânia, mencionam sempre os chamados “entendimentos de Anchorage”, ainda não detalhados.
Ainda em 23 de janeiro, repórteres perguntaram ao porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, a que se referia Ushakov ao falar dos “entendimentos de Anchorage”. O funcionário respondeu: “Nós, evidentemente, não queremos falar em detalhes sobre os assuntos que estão sendo discutidos. Por isso, o que se entende exatamente pela fórmula ‘entendimentos de Anchorage’ não posso dizer e não o farei”.
Em contrapartida, Peskov enfatizou: “As tropas ucranianas devem abandonar o território do Donbass (a parte que a Rússia ainda não controla em Donetsk e Lugansk). Devem sair dali. Esta é uma condição muito importante”.
Com essa linha e um estreito espaço de manobra, Kostiukov chegou a Abu Dabi para exigir o que o presidente Vladimir Putin expôs naquela madrugada, em Moscou, a Witkoff e Kushner. Em particular: que a Ucrânia entregue à Rússia a totalidade das regiões de Donietsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia, hoje ocupadas parcialmente; que a comunidade internacional as reconheça como parte legítima da Rússia, assim como a Crimeia, anexada em 2014; que a Ucrânia se desarme e renuncie a ingressar na Otan, além de uma longa lista de outras exigências, consideradas inexequíveis enquanto não houver uma debacle ucraniana nos campos de batalha.
Em geral, muitos analistas consideravam que essa reunião em Abu Dabi terminaria com resultados modestos. Para citar apenas um, o cientista político Aleksandr Morozov, exilado em Praga, acredita que a Rússia aceitou enviar uma delegação à capital emiradense para não desagradar Trump, enquanto continua os bombardeios às infraestruturas energéticas da Ucrânia — um tema especialmente sensível quando a população civil fica sem eletricidade, água e aquecimento, com temperaturas em torno de 15 °C abaixo de zero.
Paralelamente, Steve Witkoff e Kiril Dmitriev, assessor do Kremlin para investimentos estrangeiros e projetos econômicos, reuniram-se para discutir as perspectivas de uma eventual cooperação econômica após o fim da guerra.
“Há resultados”
Em suma, essa primeira leva de negociações foi concluída em 24 de janeiro também sem avanços rumo a uma solução negociada que ponha fim à guerra russo-ucraniana. Não obstante, fontes da delegação ucraniana, citadas pela imprensa de seu país, haviam qualificado as negociações trilaterais como “positivas e construtivas”, enquanto a agência noticiosa oficial russa Tass havia assegurado que “há resultados”, sem especificar quais.

