O salário mínimo e os números do mercado de trabalho e da renda no Brasil escancaram uma realidade que muitas vezes é ocultada pelas estatísticas macroeconômicas: a imensa maioria dos brasileiros vive com rendimentos insuficientes para garantir uma vida digna. O país continua convivendo com uma estrutura de distribuição de renda profundamente desigual, na qual milhões de trabalhadores sobrevivem com salários que mal cobrem as necessidades básicas.

Em 2011, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), 23,6% da população vivia com até um salário mínimo. Outros 22,4% sobreviviam com renda entre um e dois salários mínimos, enquanto apenas 9% recebiam entre dois e três salários mínimos.
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Naquele ano, o salário mínimo necessário para sustentar uma família, calculado pelo Dieese, era de R$ 2.329,35. O salário mínimo real, porém, era de apenas R$ 545. Em outras palavras, mais de 55% da população vivia com rendimento inferior ao valor considerado necessário para uma sobrevivência minimamente digna.
Passados mais de dez anos, o quadro continua alarmante. Em 2022, cerca de 35,3% dos trabalhadores ocupados recebiam até um salário mínimo. Mais grave ainda: 60% da população brasileira vivia com rendimento domiciliar per capita de até um salário mínimo. Quase 70% sobreviviam com até dois salários mínimos. Na outra ponta, apenas 7,6% da população possuíam rendimento superior a cinco salários mínimos, algo em torno de R$ 6.060 na época.
Educação abandonada, violência crescente
A situação torna-se ainda mais dramática quando se compara o salário mínimo oficial com o salário mínimo necessário calculado pelo Dieese. “Atualmente, esse valor se aproxima de R$ 8 mil mensais, cerca de cinco vezes acima do salário mínimo vigente. “O trabalhador que recebe o piso nacional dispõe oficialmente de R$ 1.621. Descontada a contribuição previdenciária, restam aproximadamente R$ 1.499,42 líquidos para enfrentar todas as despesas com alimentação, moradia, transporte, saúde, educação, vestuário e lazer.

Somente a cesta básica já consome parcela expressiva dessa renda. Segundo o Dieese, o custo médio da cesta básica, composta por 13 itens essenciais, está em torno de R$ 952.
Depois de adquiridos os alimentos indispensáveis à sobrevivência, sobra muito pouco para pagar aluguel, energia elétrica, água, transporte público, medicamentos e demais despesas inevitáveis do cotidiano.
Essa realidade ajuda a compreender por que a desigualdade continua sendo uma das principais marcas da sociedade brasileira.
Não se trata apenas de um problema econômico, mas de uma questão social e política. Um país em que a maioria trabalha muito e recebe pouco convive permanentemente com insegurança alimentar, endividamento, precarização do trabalho e dificuldades de acesso a direitos básicos.
O debate sobre crescimento econômico perde sentido quando a riqueza produzida não melhora efetivamente a vida da maioria da população. O desafio nacional continua sendo construir um modelo de desenvolvimento capaz de gerar empregos de qualidade, elevar os salários e distribuir melhor a renda. Enquanto milhões de brasileiros permanecerem vivendo com um salário mínimo de fome, a desigualdade seguirá sendo a principal barreira ao desenvolvimento do país.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

