À medida que cresce a possibilidade de Roberto Sánchez chegar à Presidência, aumenta também a inquietação da direita peruana diante de um resultado que pode frustrar seus planos políticos. Bem se poderia dizer que as eleições de 7 de junho estão “logo ali na esquina”. Ou seja, acontecerão em poucos dias, razão pela qual se intensificam as ações dos grupos golpistas, assustados diante da possibilidade real de se verem envolvidos em uma nova e catastrófica derrota.

Por enquanto, já se conhecem inclusive iniciativas de ordem legal orientadas a anular o próximo processo eleitoral, alegando questões que não resistem à menor análise. O que ocorre, simplesmente, é que a DBA — “a Direita Bruta e Descarada”, como a chamou, em um momento de desespero, um de seus integrantes — não sabe o que fazer, onde se colocar nem como enfrentar o que está por vir.
Ela tem em suas mãos todos os mecanismos do poder. Durante cinco anos trabalhou empenhadamente na tarefa de capturar, uma a uma, todas as instituições do Estado: o Congresso da República, o Tribunal Constitucional, o Ministério Público, a Defensoria do Povo, o Conselho Nacional de Justiça, a Controladoria; enfim, tudo o que, de alguma maneira, pudesse influir no cenário eleitoral que hoje se apresenta diante dos olhos dos peruanos.
Por esse mesmo caminho, conseguiu presença decisiva no Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), no Júri Nacional de Eleições e em outros organismos ligados à estrutura eleitoral, porque está convencida de que, tendo sob seu controle a organização do Estado, parecerá imbatível.
Além disso, foi isso que os meios de comunicação a seu serviço, as organizações empresariais, a cúpula militar, as altas esferas da administração pública e até os espaços que conseguiram assegurar no Poder Judiciário lhe fizeram acreditar. Ali, até hoje, manobram para intimidar seus opositores e silenciá-los.
Seguramente apenas no Peru ocorreu o caso de que, por via parlamentar, tenham sido suspensos por dez anos os direitos políticos de pessoas apenas por surgirem na vida peruana com uma aparente possibilidade de disputar a Presidência da República com chances reais. Assim, inabilitaram ou simplesmente encarceraram pessoas como Martín Vizcarra ou Guillermo Bermejo, que poderiam derrotar facilmente Keiko Fujimori no primeiro turno.
Um dos poucos — talvez o único — que escapou dessa surpreendente “varredura” de punições foi Roberto Sánchez, por uma circunstância fortuita: quem o substituiria em caso de uma sanção desse tipo era uma pessoa identificada como transexual. E isso o puritanismo hipócrita da extrema-direita mais conservadora e medieval não podia tolerar.
Roberto Sánchez entra na mira da direita
Mas agora, quando Roberto Sánchez cresce e surge como aquele que lhes tirará a vitória há muito ambicionada, abriram processos contra ele, marcaram uma audiência judicial para 27 de maio e haverá outra em 4 de junho para ver se ele aprende a lição ou se intimidam seus eleitores.
De todo modo, já saberá, se for eleito, que terá a espada de Dâmocles sobre o pescoço para ser destituído na primeira oportunidade, porque — como disse a senhora Yarrow — “já fizemos isso com Castillo e agora faremos com Sánchez”. Em outras palavras, neste país, os únicos que têm direito de governar são eles, os “destituidores”.
As coisas não estão saindo como eles querem. Inclusive já se soube, por parte de especialistas em pesquisas eleitorais, que 20% dos que votaram no primeiro turno em López Aliaga, da Renovação Nacional, votarão desta vez em Sánchez porque não suportam a senhora Keiko, a quem seu chefe chamou, com um desprezo incomum, de “vagabunda imprestável”.
Já se disse, e é verdade, que um povo, nas condições mais adversas, quando enfrenta inimigos muito poderosos e furiosos, possui duas armas letais: o instinto e a memória. Ambas lhe são decisivas e desempenham um papel fundamental em todas as circunstâncias.
O instinto ajuda o povo a perceber o perigo e enfrentá-lo até vencê-lo. E a memória lhe serve para sustentar as razões de sua vitória. E o povo peruano, que demonstrou seu instinto para derrotar as imposições do neoliberalismo desde as eleições de 1990, haverá de confirmá-lo nesta circunstância porque, ao seu instinto, soma sua memória, aquela que lhe fará recordar tudo o que significa o fujimorismo na história nacional.
Assim veremos diante de nossos olhos os 15 mil desaparecidos; os assassinatos de Barrios Altos, La Cantuta, El Santa e muitos outros; a morte de Pedro Huilca; a demissão de milhões de trabalhadores; a destruição do aparato produtivo do Estado; o roubo de seis bilhões de soles do patrimônio nacional; a liquidação das empresas públicas; as violações dos Direitos Humanos; os calabouços do SIN; os vídeos da corrupção; e tudo o que pudemos ver ao longo dos anos e que Keiko ressuscitou com sua desmedida ânsia de poder.
Na hora das definições, como dizia César Vallejo, “há irmãos muitíssimo a fazer”.

