Irã encerrou, em 17 de agosto, sem resultados, o período de sessenta dias de negociações para a implementação do memorando de entendimento entre Teerã e Washington, assinado em 17 de junho.
Depois da retomada dos bombardeios em 7 de julho passado, a tentativa estadunidense de bombardear os termos do acordo que consagrava a derrota estratégica tanto de Israel como dos Estados Unidos fracassou uma vez mais. Enquanto Trump mantém seu bloqueio para asfixiar o Irã, o imperialismo se encontra em um ponto morto militar quase total.
Voltar ao ponto de partida
De uma perspectiva militar, as diversas campanhas empreendidas contra o Irã terminaram em fracasso estratégico. De 28 de fevereiro a 7 de abril, Israel e Estados Unidos bombardearam massivamente sem conseguir nenhum dos quatro objetivos da agenda de Trump: a mudança de regime fracassou, o Irã mantém seu programa nuclear e o de mísseis balísticos, e o chamado “eixo da resistência” demonstrou sua capacidade de resistir. O impacto global do fechamento do estreito de Ormuz por parte do Irã obrigou Trump a declarar um cessar fogo.

Embora o controle iraniano do estreito tenha assestado um duro golpe na pretensão hegemônica dos Estados Unidos de garantir a segurança do comércio mundial, este país travou uma guerra de menor intensidade mediante ataques aéreos limitados e impondo um bloqueio coercitivo desde 12 de abril, depois do fracasso das negociações em Islamabad.
A reabertura pela força do estreito tornou-se então o objetivo primordial. No entanto, um novo fracasso obrigou Trump a assinar um acordo de rendição que ratificava o levantamento total das sanções impostas desde 1979, o direito do Irã de vender seu petróleo no mercado mundial, o controle iraniano-omaniano do estreito de Ormuz e um pacote de ajuda de 600 bilhões de dólares para a reconstrução do país.
EUA e Israel queriam conter o Irã; a guerra ampliou sua influência regional
Se bem a vitória iraniana tenha significado uma esmagadora derrota para os Estados Unidos, Trump tentou eludir o controle iraniano do estreito antes de relançar uma intensa campanha aérea em 7 de julho e restabelecer as sanções.
O regresso à estratégia inicial também fracassou: Trump pôs fim à campanha de bombardeios depois de 13 dias de ataques noturnos e retomou a estratégia de bloqueio em 14 de julho.
Desde então, o bloqueio ao Irã continua. Mas é improvável que esta estratégia mude algo no equilíbrio de poder existente. O objetivo é paralisar o setor petroleiro iraniano bloqueando as exportações e saturando a capacidade de armazenamento do país.
Durante o primeiro bloqueio, Scott Bessent, secretário de Energia dos EUA e artífice do saque da Venezuela, se jactou de que só seriam necessários alguns dias para saturar a capacidade de armazenamento iraniana.
Mas o Irã provavelmente antecipara esta situação: ” Teerã está utilizando notavelmente o armazenamento flutuante em navios cisterna. O país já voltou a pôr em serviço tanques velhos ou parcialmente desmantelados. Também está utilizando instalações improvisadas em centros como Ahvaz e Assalouyeh e está tentando, de forma limitada, exportar por estrada de ferro para a China “, resumiu Umud Shokri para Le Monde.
Segundo um estudo do site Kpler, o Irã contava com uma capacidade de armazenamento ampliada de aproximadamente 90 a 95 milhões de barris no início do bloqueio.
Depois de quase um mês de bloqueio, as reservas iranianas tinham aumentado para 49 milhões de barris, longe de alcançar sua capacidade máxima. Graças ao memorando de entendimento, o Irã provavelmente pôde liberar parte de suas reservas, aumentando assim sua margem de manobra.
Ainda, segundo Kpler, a remessas de cru iraniano costumam demorar dois meses para chegar à China, enquanto o pagamento dos carregamentos se realiza dois meses mais tarde.
A estratégia que fez o Irã atravessar guerras, sanções e isolamento sem se render aos EUA
Em outras palavras, o Irã recebe os recursos pela venda de petróleo aproximadamente quatro meses depois da saída das remessas, o que mitiga significativamente os efeitos do bloqueio, que só serão sentidos dentro de vários meses.
Trump segue subestimando a determinação do regime iraniano. Em 11 de agosto, o comandante do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, Mohammad Reza, explicou que o Irã percebera que o exército estadunidense era mais débil do que parecia. Esta mudança também se reflete na nomeação de Mohsen Rezai para presidente do Conselho de Segurança Nacional.
Este veterano da guerra Irã-Iraque obteve uma reputação em 1988 ao opor-se a um cessar fogo e defender um plano quinquenal para reverter a situação militar, um plano que, segundo se informa, dissuadiu Khomeini de continuar a guerra. Agora, em uma posição chave na hierarquia iraniana, Rezai parece estar buscando concessões mais significativas que as estipuladas no memorando de entendimento, adotando um enfoque mais agressivo.
Se Trump está delirando e agora quer transformar o estreito de Ormuz em “território estadunidense”, suas opções militares são extremamente limitadas: uma operação terrestre, já mencionada durante a primeira fase da guerra, parece um suicídio, enquanto as fortes limitações —políticas, sociais e econômicas— minam a capacidade dos Estados Unidos para levar a cabo campanhas aéreas de alta intensidade ou para manter o bloqueio à nação iraniana.
Nó górdio
Por um lado, a moral das forças armadas estadunidenses está desmoronando, como demonstra a tentativa de suicídio ocorrida, segundo se informa, no porta-aviões Abraham Lincoln depois de 260 dias de operações no mar. Esta redução de tropas é agravada pelo problema das reservas de munições, como afirma o Foreign Police :
Segundo os informes, os Estados Unidos utilizaram 1.500 mísseis interceptores Patriot desde o início da guerra e ainda lhe restam aproximadamente 1.700. Cada interceptor Patriot custa cerca de 4 milhões de dólares e sua fabricação requer mais de dois anos. Informa-se ainda que o exército estadunidense utilizou quase 80% de seu arsenal de interceptores THAAD, deslocou praticamente todos os seus mísseis de precisão de longo alcance e perdeu cerca de uma quarta parte de seus drones MQ-9 Reaper.
As limitações técnicas geram contradições políticas, já que estas munições desempenham um papel crucial na credibilidade da dissuasão estadunidense na Ásia, no marco da estratégia para conter a China. Enquanto Washington dirige estas reservas para o Oriente Médio, o bloqueio contínuo obriga os Estados Unidos a reacomodar também seus ativos navais: o USS George Washington, com base no Japão, foi deslocado para substituir o USS Lincoln, debilitando assim o aparato militar-naval do imperialismo no Indo-Pacífico.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos devem enfrentar as consequências de uma possível escalada da crise energética. Desde 20 de julho, o Irã acionou os rebeldes huthis no Iêmen e começou a reforçar seu controle sobre o estreito de Bab el-Mandeb no mar Vermelho, ameaçando bloquear um ponto estratégico tão crucial como o estreito de Ormuz. A curto prazo, o bloqueio huthi afeta principalmente os petroleiros sauditas, mas o cenário de Ormuz poderia repetir-se, já que o aumento dos custos dos seguros marítimos resulta mais eficaz do que as minas para impedir a passagem dos navios.
Enquanto Riad tentava evitar o estreito de Ormuz transportando seu petróleo para o porto de Yambu pelo oleoduto Este-Oeste, os huthis atacaram vários navios cisterna. Esta situação gera temores nos mercados financeiros. O cru Brent disparou repentinamente a 100 dólares em 23 de julho, e a comoção se propagou rapidamente pelos mercados de bônus. A situação poderia piorar, especialmente porque a crise do Ormuz foi enfrentada por várias tendências importantes, como indicam Jason Bordoff e Meghan L. O’Sullivan em Foreign Affairs.
A crise do estreito de Ormuz provocou até agora incrementos relativamente moderados nos preços do petróleo, graças a uma combinação inusual de condições de mercado favoráveis e anos de investimento em medidas de segurança energética.
Antes da guerra estourar, o mercado petroleiro sofria um excesso de oferta, os estoques eram relativamente altos, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos tinham construído oleodutos para evitar o estreito, e tanto os governos como as empresas tinham acumulado importantes reservas de emergência e estoques comerciais.
Além disso, a China contribuiu para estabilizar o equilíbrio do mercado petroleiro mundial reduzindo suas importações, aproveitando sua imensa capacidade para ajustar para baixo os volumes de petróleo que compra para reservas, armazena, refina para exportação e consome internamente.
Com as reservas de emergência parcialmente esgotadas e as rotas alternativas agora no ponto de mira, a crise energética poderia agravar-se e erodir ainda mais a hegemonia estadunidense, especialmente na Ásia, onde os aliados de Washington dependem em grande parte dos fluxos energéticos do Oriente Médio. Além disso, supõe um ameaça direta para Trump em nível interno às vésperas das eleições de metade do mandato, dado que quase 58% da população estadunidense desaprova suas políticas.
Nestas circunstâncias, Trump enfrenta um verdadeiro dilema. Por um lado, continuar a guerra supõe um custo muito elevado para o imperialismo estadunidense, cujo poder retórico —sua capacidade para controlar e proteger os fluxos do comércio mundial— se vê permanentemente erodido, sobretudo em sua tentativa de conter a expansão da China na Ásia. Mas o imperialismo teme que, ao retirar-se do conflito e ceder às demandas iranianas, debilite ainda mais sua hegemonia.
Assim, tanto continuar como terminar a guerra ameaçam diretamente o domínio estadunidense, enquanto, nesta situação militar transitória, onde as negociações estão estancadas e o bloqueio estadunidense persiste, o equilíbrio geoestratégico da região se deteriora progressivamente.
A expansão da guerra imperialista e a tripolarização do Oriente Médio
Os eventos de finais de julho demonstram a dinâmica extremamente perigosa do recrudescimento e da expansão da guerra imperialista. Por um lado, o ataque da Ucrânia a um navio iraniano mostra os riscos de que os conflitos regionais se interconectem, inclusive se fundam e se descontrolem, no contexto de uma situação internacional convulsiva. Por outro lado, o conflito continua estendendo-se regionalmente.
Depois de um ataque coordenado contra refinarias sauditas, provavelmente levado a cabo pelos huthis e milícias pró-iranianas, a Arábia Saudita participou diretamente, junto com Washington, dos ataques contra o Iraque, em 29 de julho.
Em resposta, o Irã atacou a Jordânia, um objetivo cada vez mais frequente de seus ataques contra países aliados do imperialismo estadunidense. A participação militar direta da Arábia Saudita suscita temores de que possa retomar sua sangrenta guerra contra o Iêmen, já que os huthis ameaçam diretamente a capacidade exportadora do Reino, preso entre Hodeidah e Teerã.
Como mostra o acadêmico Farea al-Muslimi, é possível que estejam sendo preparadas operações terrestres sauditas no Iêmen: “Os sauditas já reforçaram suas tropas na fronteira e desenvolveram uma zona de amortecimento no lado iemenita, apoiada por forças locais, o que oferece a possibilidade de lançar operações terrestres caso seja necessário “.
Enquanto o Iraque sofre o constante ataque dos Estados Unidos, que tenta debilitar as milícias respaldadas pelo Irã, o conflito já se estendeu muito além da região do Golfo: no Egito, um drone atacou um petroleiro estadunidense no porto de Damietta em 29 de julho. Israel continua devastando o sul do Líbano, depois da assinatura de um acordo de rendição com o governo pró-imperialista de Joseph Aoun e o estancamento das negociações celebradas em Roma no princípio de agosto.
Quanto a Gaza, o sionismo ataca com renovada força desde o princípio de agosto, o que aumenta os temores de uma retomada da guerra genocida de alta intensidade, especialmente agora que Netanyahu rejeitou oficialmente o plano de Trump e o Hamas começou a fazer concessões em questões chave.
Paralelamente a esta escalada do conflito, a dinâmica de poder regional está se tornando cada vez mais tripolar, com o aparecimento de um novo ator, junto à “coalizão abrahâmica” liderada por Israel e os Emirados Árabes Unidos, e o polo iraniano. Formado por Turquia, Paquistão, Catar e Arábia Saudita, este novo grupo tenta defender seus próprios interesses frente à crise de credibilidade do imperialismo estadunidense e às guerras em curso de Israel, ao mesmo tempo em que mantém uma posição equilibrada frente ao Irã.
Outro indício do surgimento deste eixo sunita é o Acordo de Defesa Conjunta de Meca, assinado em 7 de agosto por Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, que amplia o acordo de defesa mútua alcançado entre estes dois últimos países em 2025. O acordo estipula que um ataque contra um dos signatários constitui um ataque contra todos os membros desta coalizão, que também prevê diversas formas de cooperação militar.
Este novo acordo incrementa o risco a curto prazo de uma escalada do conflito, especialmente dado que a Arábia Saudita é alvo de ataques iranianos e huthis. A incorporação da Turquia a esta aliança representa um passo mais para Ankara, que busca consolidar-se como o principal centro de exportação de produtos energéticos do Golfo com destino à Europa, uma ambição compartilhada por Israel, o que intensifica as tensões entre os dois países.
O recente acordo nuclear assinado entre Arábia Saudita e Estados Unidos também foi causa da oposição de Israel, que teme uma nova ameaça a seu monopólio nuclear. Esta fragmentação da região e o surgimento de potências mais autônomas demonstram a erosão da capacidade dos Estados Unidos de impor suas condições no Oriente Médio, ao mesmo tempo em que aplainam o caminho para uma intensificação das rivalidades regionais.
