O ministro da Defesa do Peru, Rafael Belaúnde, afirmou que os militares “não terão um papel decorativo”. Além disso, anunciou ações para agilizar a expulsão de estrangeiros vinculados a atividades ilegais.
Sob o argumento de combater a criminalidade, o governo de Keiko Fujimori iniciou a militarização do país. Uma medida cuja eficácia para enfrentar com sucesso a criminalidade é questionada e que representa um alto risco repressivo para a democracia e os direitos dos cidadãos, risco que se multiplica em um governo de uma agremiação política como o fujimorismo, com uma antiga e profunda tradição autoritária.

Como parte dessa militarização da segurança interna que o regime fujimorista começou a implementar nestas três primeiras semanas de seu governo, o ministro da Defesa, Rafael Belaunde, anunciou que as Forças Armadas ficarão encarregadas de custodiar os presídios. Ao fazer esse anúncio, afirmou que os militares “não terão um papel decorativo” nas ações “contra a insegurança dos cidadãos”, deixando clara a aposta do governo na militarização.
O ministro também anunciou ações para agilizar a expulsão de estrangeiros que sejam vinculados a atividades ilegais. Enquanto o governo começa a militarizar o país, na Câmara dos Deputados, de maioria oposicionista, foi apresentada uma moção de interpelação contra o ministro da Defesa.
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“Vamos (as Forças Armadas) assumir o controle perimetral dos presídios. Vamos ter um contingente (militar) para controlar a entrada de tudo, inclusive do pessoal do INPE (Instituto Nacional Penitenciário, encarregado da vigilância dos presos).
Tudo vai passar por esse controle”, anunciou o ministro da Defesa. Essa ação é anunciada como parte do combate aos crescentes crimes de extorsão e sicariato. No Peru, há cerca de 100 mil detentos, com um nível crítico de superlotação. Keiko Fujimori, que tem um discurso militarista e de mão dura, manifestou sua vontade de replicar a política carcerária do regime autoritário do presidente Nayib Bukele, de El Salvador.
Ricardo Soberón, ex-chefe da agência antidrogas peruana Devida, afirmou ao Página/12, da Argentina, que “com esta decisão, o governo erra o alvo na luta contra a criminalidade, assim como Trump erra o alvo na luta contra o narcotráfico ao bombardear lanchas; os delitos que são organizados a partir dos presídios são minoria, os presídios são o último elo, não o primeiro, na luta contra a criminalidade, seu efeito sobre a delinquência será mínimo”.
Por sua vez, Ricardo Valdés, ex-vice-ministro do Interior e codiretor do Observatório de Crime e Violência, declarou a este jornal: “Não se conhecem detalhes do controle perimetral das Forças Armadas nos presídios; para que um controle dos presídios possa funcionar, é preciso investir em tecnologia, bloquear sinais de celular e realizar outras ações, e para isso não é necessária a presença militar. O ministro da Justiça, de quem dependem os presídios, não disse nada. A sensação é de que há ações dispersas, sem coordenação entre os integrantes do gabinete ministerial”.
A militarização dos presídios faz parte de uma série de ações que apontam para a entrega às Forças Armadas do controle da segurança interna. Dias atrás, o governo determinou a presença de militares armados nos ônibus de transporte público, como resposta [governamental] aos atentados contra os transportadores cometidos por quadrilhas de extorsionários. O transporte público é um dos setores mais afetados pelas extorsões e pelos atentados destinados a obrigá-los a pagar. Mas essa medida não teve impacto na redução dessas ações criminosas. Pelo contrário, durante o governo de Fujimori, os assassinatos por armas de fogo aumentaram.
Nestes primeiros 20 dias do regime fujimorista, foram registrados oficialmente 102 homicídios, dos quais 77,5% foram cometidos com armas de fogo. Antes da chegada do fujimorismo ao governo, o percentual de assassinatos por armas de fogo em relação ao total de homicídios era de 71%.
O nível de homicídios no país é de 10,4 por 100 mil habitantes. Em 2026, registra-se um aumento de 15% nos homicídios em relação ao ano anterior e 20% a mais nas denúncias de extorsão, que em 2025 foram 25 mil — estima-se que apenas 20% das extorsões sejam denunciadas —, tendência de alta que se mantém com o discurso de mão dura e a militarização do fujimorismo.
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A preeminência das Forças Armadas nas tarefas de segurança interna, deslocando a polícia, é reforçada com a militarização do Ministério do Interior, sob o comando do general reformado do Exército César Astudillo, que colocou oficiais do Exército nos principais postos de comando do ministério. Isso provocou tensão com a polícia.
Nesse contexto de militarização, Keiko Fujimori anunciou que seu governo busca integrar-se ao Escudo das Américas, promovido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sob o argumento de combater a criminalidade internacional, e que isso constitui uma submissão aos interesses do regime trumpista e se articula com um discurso militarista para reprimir as esquerdas e os movimentos populares.
“Com essas medidas do governo, temos um domínio da luta contra o crime organizado a partir de uma estratégia militar. Essa militarização é um perigo para a democracia, para a justiça e para a luta contra o crime organizado. As investigações policiais são uma área sobre a qual os militares não têm conhecimento. Por isso, essa militarização para combater a criminalidade, que é uma medida populista, está destinada ao fracasso.
Sobre o Escudo das Américas, a primeira coisa é que os instrumentos de luta contra as drogas da Escola das Américas já foram testados e fracassaram. O Escudo das Américas representa uma profunda ameaça nas questões domésticas, perda de soberania, ao permitir operações conjuntas com militares norte-americanos”, afirma Soberón.
No governo fujimorista, a militarização da luta contra a criminalidade também é a militarização repressiva contra o movimento social e a oposição. “Sem dúvida — adverte Soberón —, o objetivo dessa militarização é expandir o controle social repressivo, especialmente no sul andino e na Amazônia”.
