Presidente equatoriano repete discurso de Washington contra a corte criada para julgar genocídio e crimes de guerra enquanto sustenta que pescadores bombardeados por forças dos EUA atuavam para o narcotráfico, sem apresentar novas provas
Menos de um mês depois de várias reuniões do secretário do Tribunal Penal Internacional (TPI), Osvaldo Zavala Giler, com autoridades equatorianas, Daniel Noboa classificou o organismo como ideologizado, no mesmo tom em que vem se manifestando o governo estadunidense de Donald Trump.
“Certas instituições mundiais estão se ideologizando e acabam afetando, já não tratam os temas de maneira objetiva. Por exemplo, o Tribunal Penal Internacional já se ideologizou demais e, mais do que instituições imparciais, elas se transformam em ferramentas de determinadas correntes para atacar”, disse Noboa em entrevista a uma emissora de rádio, nesta quinta-feira, em Guayaquil.

Esta é a primeira vez que um mandatário latino-americano se refere ao tema depois que, em agosto passado, o secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, pediu aos países da Coalizão contra os Cartéis das Américas, entre eles o Equador, que abandonassem o organismo.
Os Estados Unidos não reconhecem a jurisdição do tribunal com sede em Haia, criado em 2002 pelo Estatuto de Roma para julgar genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade quando os sistemas judiciais nacionais não podem ou não querem fazê-lo.
Ataques dos EUA no Equador deixam 25 pescadores desaparecidos; Noboa reage com novo estado de exceção
Em 24 de agosto passado, o ministro do Interior, John Reimberg, reuniu-se com Zavala Giler e informou que abordaram temas relevantes para o país relacionados ao âmbito de competência do TPI. No entanto, não forneceu detalhes específicos sobre os assuntos tratados nem sobre possíveis acordos decorrentes do encontro.
Noboa justifica afundamento de embarcações
Na mesma entrevista desta quinta-feira, o mandatário equatoriano apontou os pescadores capturados por militares estadunidenses em alto-mar como traficantes de combustível a serviço de grupos do narcotráfico internacional: “Há evidências claras disso. Não digo que todos os pescadores sejam assim, de forma alguma, mas vemos certos pescadores que se corromperam e que se dedicam mais a traficar combustível do que a pescar. Também recebem determinados subsídios e, então, aproveitam-se dessa situação”, afirmou, sem dar mais detalhes.
Até ontem, no decorrer deste ano, pelo menos onze embarcações equatorianas foram interceptadas e bombardeadas pela Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental dos Estados Unidos, além da detenção de mais de 200 de seus tripulantes, oito dos quais até agora são considerados desaparecidos, depois que sua embarcação foi afundada em janeiro passado.
Em seus comunicados, o Comando Sul afirma que as embarcações operam como postos flutuantes de reabastecimento de combustível para lanchas que transportam drogas em direção aos Estados Unidos. No entanto, juízes equatorianos libertaram a maioria dos tripulantes detidos porque não foram apresentadas provas nem evidências de que as embarcações tenham transportado cocaína. Ao contrário, depoimentos de familiares e vídeos mostram carregamentos de toneladas de pescado.
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