Deputados do Partido Nacional Libertário pedem que o governo Kast crie um “Museu da Verdade” sobre a Unidade Popular, em ofensiva revisionista contra a memória dos crimes cometidos pela ditadura de Pinochet
Deputados do extremista Partido Nacional Libertário (PNL), defensor da ditadura pinochetista, pretendem que o também direitista presidente do Chile, José Antonio Kast, instaure um “Museu da Verdade” para recordar o suposto “atropelo, a fome e a humilhação que significou para o povo do Chile o governo da Unidade Popular (UP)”, que entre 1970 e 1973 foi liderado pelo mandatário socialista Salvador Allende, morto pelas próprias mãos durante o golpe de Estado de 11 de setembro daquele ano.

O projeto de resolução — não vinculante e que deve ser votado — foi apresentado por sete dos oito parlamentares com os quais conta o PNL. Eles planejam “instruir o Ministério das Culturas, das Artes e do Patrimônio, o Ministério de Obras Públicas e o Conselho de Monumentos Nacionais para a elaboração e implementação” dessa iniciativa.
Justificam a proposta como uma forma de “preservar a memória histórica completa e verdadeira das vítimas do desabastecimento, da violência política, da ruptura do Estado de direito e da crise econômica que caracterizaram esse período”, para assim “educar as novas gerações de chilenos sobre a totalidade de sua história recente”, porque a descrição desse período “tem sido construída quase exclusivamente a partir da perspectiva de quem apoiava o governo da UP”.
Parece uma ideia revanchista, porque desde 2010, com recursos do orçamento nacional, existe no Chile o “Museu da Memória e dos Direitos Humanos”, onde são expostos os crimes contra a humanidade cometidos pelo Estado chileno entre 1973 e 1990, durante a ditadura de Augusto Pinochet.
A reconstrução da dor que aquele período significou sustenta-se em relatórios oficiais do Estado, sentenças judiciais, arquivos desclassificados, testemunhos de vítimas e décadas de investigação nacional e internacional sobre violações dos direitos humanos, com o objetivo de “dignificar as vítimas e seus familiares; estimular a reflexão e o debate sobre a importância do respeito e da tolerância, para que esses fatos nunca mais se repitam”.
O Chile conserva 1.168 lugares de memória onde militares, policiais e cúmplices civis sequestraram, assassinaram, torturaram, violentaram e fizeram desaparecer milhares de pessoas. Os registros oficiais indicam que cerca de 40 mil pessoas foram vítimas diretas do pinochetismo.

Em contraste, o pretendido “Museu da Verdade”, afirma o meio digital El Clarín, “carece de qualquer respaldo conhecido de universidades, historiadores, centros de estudos, pesquisadores especializados na Unidade Popular, museólogos ou instituições patrimoniais.
Não nasce do mundo da investigação histórica, mas de um setor político que há anos questiona os consensos democráticos construídos em torno da memória do golpe de Estado e da ditadura”.
Kast ameaça direitos reprodutivos no Chile
O líder do PNL, Johannes Kaiser, é um influenciador digital que primeiro se tornou deputado e, mais recentemente, candidato presidencial.
No primeiro turno da eleição de 2025, ficou em quarto lugar, com 13,9% dos votos. Durante sua campanha, não hesitou em reivindicar Pinochet, chegando a afirmar que apoiaria um novo golpe de Estado e suas consequências trágicas caso as circunstâncias de 1973 voltassem a se repetir. No segundo turno, Kaiser e seus apoiadores apoiaram Kast e não assumiram cargos em seu governo.
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