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Meninas de Minab: Big Tech põe inteligência artificial a serviço da máquina de matar de Israel

Na manhã de 28 de fevereiro, dezenas de meninas e professoras entraram na escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, uma cidade com mais de 70 mil habitantes no sul do Irã. Era sábado, o primeiro dia da semana de trabalho naquele país. Também era o primeiro dia da operação “Fúria Épica”, como o Pentágono denominou a ofensiva lançada contra o Irã em conjunto com Israel (Tel Aviv, por sua vez, chamou a operação de “Rugido do Leão”).

Por volta das 10h30, no horário local, um míssil Tomahawk atingiu a escola, perfurando o teto e provocando o colapso da estrutura. Análises forenses de imagens de satélite revelaram que, pouco depois, outro míssil atingiu o pátio, seguido por um terceiro que completou o ataque. Segundo as autoridades iranianas, pelo menos 168 pessoas, em sua maioria meninas entre sete e 12 anos, morreram no ataque. Não se tratou de uma falha técnica.

Os mísseis Tomahawk não são mísseis comuns. Eles podem percorrer mais de 2.000 quilômetros de forma autônoma, a velocidades próximas de 880 km/h, e atingir seu alvo com uma margem de erro de apenas alguns metros.

A escola estava localizada em um edifício que, há uma década, havia sido separado de uma base das forças navais do Corpo de Guardiões por meio de um muro. Essa base também foi atingida nos ataques de 28 de fevereiro. Por isso, é provável que os Estados Unidos tenham identificado a base como alvo militar, mas que os mapas utilizados para essa identificação não estivessem atualizados. Mas quem é responsável por esse erro em uma guerra travada essencialmente com inteligência artificial?

A cadeia da morte

Em termos militares, a cadeia da morte refere-se à sequência de ações que ocorre entre a identificação de um alvo, a decisão de atacá-lo e a execução do ataque. Durante quase um século, os exércitos tentaram comprimi-la o máximo possível, o que permitiria atacar o inimigo de forma mais rápida e eficaz.

Minab
Mulheres enteram os mortos em Minab – Twiter X

Esse desejo transformou-se em necessidade pela primeira vez durante a Guerra do Golfo, em 1991, quando os iraquianos utilizaram lançadores móveis de mísseis capazes de se deslocar vários quilômetros antes que os norte-americanos conseguissem coordenar uma resposta. As antigas técnicas analógicas, nas quais os analistas precisavam revisar manualmente mapas, gravações e outros dados, já não serviam. Eram necessárias máquinas capazes de voar tão baixo a ponto de escapar dos radares, identificar um alvo e eliminá-lo em questão de minutos. Em poucas palavras, drones armados: veículos capazes de voar (e atacar) sem tripulação a bordo.

O primeiro exemplo surgiu em 2001, quando o capitão da Força Aérea dos Estados Unidos Scott Swanson e o sargento-chefe Jeff A. Gunny Guay tentaram matar, sem sucesso, o mulá Omar, líder do Talibã e aliado de Osama Bin Laden, enquanto controlavam um drone armado Predator a partir de Langley, na Virgínia, a milhares de quilômetros de distância. Embora a missão não tenha alcançado os resultados esperados, os drones Predator e o mais pesado Reaper rapidamente se tornaram instrumentos centrais das operações militares tanto dos Estados Unidos quanto de Israel. Seu uso se expandiu enormemente durante a presidência de Barack Obama (2009-2017), chegando inclusive a ser considerado por alguns como mais “humano” do que outros tipos de ataque.

“A questão é saber se os drones nos tentarão a fazer coisas erradas. Mas não parece ser o caso, porque temos exemplos em que os drones foram usados de maneira justa, e parece que, na realidade, eles melhoram nossa capacidade de agir com justiça”, afirmou em 2012 ao jornal The Guardian Bradley Strawser, filósofo e então professor da Universidade Naval de Monterey. “Literalmente cada ação realizada por eles fica registrada. Diante de uma decisão difícil, os operadores podem até mesmo tomar seu tempo e chamar outras pessoas para a sala. Há mais espaço para controles e supervisão”, argumentou.

Mas, com o aumento dos dados, os mecanismos de controle e supervisão tornaram-se cada vez mais complexos. “Num futuro não muito distante, vamos nos encontrar nadando em sensores e nos afogando em dados”, previu em 2010 um alto funcionário da inteligência da Força Aérea estadunidense. E foi exatamente isso que aconteceu. A disseminação das redes sociais, dos drones e das tecnologias de vigilância em massa aumentou enormemente a quantidade de dados disponíveis para os exércitos identificarem e rastrearem alvos. Isso criou um gargalo. Quem poderia analisar tanta informação? A inteligência artificial trouxe a resposta.

Guerra sem piloto

“O objetivo dos sistemas de IA é liberar o ser humano do processamento cognitivo; tornar as coisas mais rápidas e eficientes”, comenta à La Marea Elke Schwarz, professora de Teoria Política na Universidade Queen Mary de Londres e autora do livro Máquinas da Morte: A Ética das Tecnologias Violentas (2018).

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Schwarz dedica-se há anos ao estudo das consequências reais e potenciais do esforço humano para automatizar ao máximo a prática de matar uns aos outros.

Sua pesquisa começou no início da década de 2010, anos antes da invasão russa da Ucrânia, uma guerra que se transformou em um campo de experimentação para o uso de algoritmos e inteligência artificial em combate.

“Muitas empresas emergentes levaram suas novas tecnologias para o conflito”, observa Schwarz.

Muito rapidamente, a assimetria do conflito na Ucrânia levou ao uso massivo de drones controlados remotamente. Diferentemente dos complexos e caros sistemas Predator, esses eram instrumentos baratos que, com um investimento de apenas US$ 500 e operados à distância, eram capazes de destruir tanques. No entanto, revelaram-se vulneráveis à guerra eletrônica, ou seja, a ataques que interrompem a comunicação entre o drone e seu piloto. Isso impulsionou o desenvolvimento de aeronaves com capacidades autônomas de voo e ataque.

Os drones autônomos são equipados com programas capazes de transportar explosivos ao longo de centenas de quilômetros e localizar alvos. Outro tipo de drone, de quatro hélices, passou a contar com inteligência artificial para atacar soldados russos sem intervenção humana quando as comunicações falhassem. O passo seguinte foram os enxames de drones, capazes de realizar ataques massivos sem a necessidade de dezenas de operadores.

Entre as inovações empregadas na Ucrânia, destaca-se o envio, em fevereiro de 2026, de dois robôs humanoides Phantom MK-1 para cumprir funções oficialmente descritas como “de apoio” e não de combate. Segundo a empresa Foundation, da Califórnia, que os criou, esse modelo seria o primeiro autômato projetado especificamente para zonas de conflito armado. “O que estamos vendo agora é a primeira tentativa desajeitada de como os robôs travarão nossas guerras”, declarou à revista Time Mike LeBlanc, cofundador da empresa e veterano dos Fuzileiros Navais com experiência no Iraque e no Afeganistão. “Mas, na realidade, eles estão apenas esperando o espetáculo começar”, acrescentou.

Independentemente do possível desenvolvimento desses robôs, atualmente as decisões de guerra já passam pelas principais empresas de inteligência artificial, as mesmas que desenvolvem os assistentes conversacionais utilizados diariamente por milhões de pessoas para corrigir e-mails.

Decisões de algoritmos

O livro A Construção da Bomba Atômica, de Richard Rhodes, publicado em 1986 e vencedor do Prêmio Pulitzer, tornou-se uma das leituras mais populares nos escritórios da Anthropic, empresa criadora do assistente conversacional Claude. Como escreveu Charlie Warzel em 2023 no veículo The Atlantic, a obra transformou-se em uma espécie de texto fundacional para determinado grupo de pesquisadores de IA: aqueles que acreditam que suas criações poderiam ter o poder de matar toda a humanidade.

Em fevereiro deste ano, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, exigiu da Anthropic acesso irrestrito a seus sistemas de inteligência artificial para qualquer uso militar. A resposta do diretor-executivo da empresa, Dario Amodei, foi uma negativa pública: “Em consciência, não podemos aceitar seu pedido”. Hegseth respondeu classificando a Anthropic como um “risco para a cadeia de suprimentos”, uma categoria normalmente reservada a empresas vinculadas a governos considerados adversários, como a chinesa Huawei ou a russa Kaspersky.

Em resposta, a Anthropic processou o governo, que, por sua vez, iniciou o processo de substituição do Claude pelos modelos de empresas que supostamente aceitaram suas condições, como o ChatGPT, da OpenAI, e o Gemini, do Google. Até aquele momento, a colaboração entre essa empresa — fundada por ex-integrantes da OpenAI — e o Departamento de Defesa havia sido estreita.

O Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) teria utilizado uma versão classificada do Claude para auxiliar em avaliações de inteligência, identificação de alvos e simulação de cenários de combate durante operações militares no Irã. Segundo revelou o The Wall Street Journal, o Claude também teria sido empregado na operação militar estadunidense que levou à captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro deste ano.

Além disso, a Anthropic já havia estabelecido uma parceria com a Palantir Technologies, gigante da análise de dados cofundada por Peter Thiel e um dos principais contratantes tecnológicos do Pentágono. Em particular, o Claude seria fundamental para o funcionamento do sistema Maven Smart, desenvolvido pela Palantir e supostamente utilizado pelo Exército dos Estados Unidos em sua guerra contra o Irã. O Maven é capaz de processar enormes volumes de dados sigilosos provenientes de satélites, sistemas de vigilância e outras fontes de inteligência, gerando a partir deles informações operacionais. Segundo Hegseth, durante as primeiras 24 horas da ofensiva, os Estados Unidos atacaram mais de mil alvos.

Irã e a reconfiguração dos equilíbrios de poder globais

“Eles sugerem milhares de alvos e depois você tem uma pequena equipe de pessoas para verificá-los ou validá-los, mas elas precisam fazer isso em altíssima velocidade”, destaca Schwarz em entrevista à La Marea. “Tudo acontece tão rápido que precisamos nos perguntar se pode existir uma supervisão significativa ou se o ser humano simplesmente vai dizendo ‘sim, não, sim, não’, absorvido pela lógica funcional do sistema de IA, pela lógica da máquina.”

Segundo uma investigação publicada em 2024 pela revista israelo-palestina +972 Magazine, Israel empregou o sistema Lavender em Gaza para analisar dados de vigilância em massa de praticamente todos os 2,3 milhões de habitantes da Faixa. O sistema atribui a cada indivíduo uma pontuação de 1 a 100 de acordo com a probabilidade de ele ser um militante. A investigação indica que a supervisão humana frequentemente se reduzia a uma validação meramente formal de cerca de 20 segundos por alvo, tratando na prática a sugestão da máquina como uma decisão definitiva.

Após se constatar que o Lavender supostamente alcançava 90% de precisão na identificação de vínculos com o Hamas, o Exército autorizou seu uso generalizado. A partir desse momento, segundo as fontes da +972 Magazine, se o Lavender determinasse que um indivíduo era um militante, os operadores deveriam tratar essa decisão como uma ordem, sem necessidade de verificar de forma independente o raciocínio algorítmico nem examinar os dados nos quais ele se baseava.

“Para tornar possível a violência em massa, é necessário desumanizar o inimigo”, conclui Schwarz. E, para isso, a inteligência artificial oferece grandes oportunidades. “Quanto maior a distância entre a aplicação da força e seus efeitos, maior também é a distância emocional e moral que se gera.”

Diferentemente dos sistemas de armas convencionais, fabricados por empresas como a Lockheed Martin e sujeitos a marcos regulatórios, o uso militar da inteligência artificial carece de regulamentação.

Frear a máquina

Em um dos muitos cafés da moda existentes no Brooklyn, diante de um cappuccino, Peter Asaro admite que negociar um tratado para regular armas com altos níveis de automação é uma tarefa titânica dentro do labiríntico sistema da ONU. Esse filósofo da ciência, da tecnologia e dos meios digitais já havia concedido entrevista à La Marea em outubro de 2023, na sede das Nações Unidas.

Hoje, Asaro, vice-presidente do Comitê Internacional para o Controle de Armas Robóticas (ICRAC) e porta-voz da campanha Stop Killer Robots, mostra-se esperançoso em relação ao estado atual do projeto de negociação de um marco jurídico comum nas Nações Unidas que permita exercer controle sobre armas com altos níveis de automação.

Após várias tentativas fracassadas de proibir completamente o uso de armas autônomas, o estágio atual das negociações concentra-se em regulamentar seu emprego e definir em quais contextos elas são aceitáveis. É o caso, por exemplo, dos sistemas de defesa antimísseis, que precisam operar de forma imediata para neutralizar ameaças em larga escala. O debate central está em determinar até que ponto é imprescindível manter um ser humano no processo e qual nível de intervenção pode ser considerado “significativo”. Por isso, as discussões se concentram na definição de um “controle humano apropriado ao contexto”.

“A ideia é que ‘apropriado’ não seja um termo vazio”, esclarece Asaro. “Isso exige algum tipo de avaliação humana contextual que confirme que o sistema opera em um ambiente conhecido e que é capaz de fazê-lo corretamente.”

Esses esforços regulatórios esbarram na oposição de potências muito ativas no desenvolvimento de armamentos, convencidas de que a inteligência artificial lhes proporcionará uma vantagem tática decisiva. Países como os Estados Unidos, a Rússia, a China, Israel, a Coreia do Sul e a Turquia preferem substituir um tratado vinculante por simples “diretrizes” ou “boas práticas”.

Espera-se que, em novembro de 2026, as Nações Unidas votem o início oficial das negociações. Caso isso ocorra, o tratado formal poderá surgir em 2027, seguido por um árduo processo de ratificação global que certamente os países opositores tentarão sabotar. No entanto, Asaro lembra que essa não é uma situação inédita e que a história demonstra que o progresso é possível mesmo diante da resistência das grandes potências.

No caso das armas nucleares, um tratado de proibição conseguiu estabelecer normas claras. Embora as potências nucleares não o tenham assinado, o apoio da maior parte do mundo consolidou uma norma internacional que declara essas armas “imorais e ilegais”. Da mesma forma, embora a Síria jamais tenha assinado o tratado sobre armas químicas, a comunidade internacional a responsabilizou por seu uso. “Esperamos alcançar algo semelhante. No mínimo, que possamos restringir o uso desses sistemas e afastar a inteligência artificial das aplicações bélicas mais perigosas que possamos imaginar”, conclui Asaro.

Assim, ao menos, a responsabilidade pelas mortes de civis poderá continuar sendo identificável e não ficará soterrada sob algoritmos indecifráveis.

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