Presidente prometeu agir desde o primeiro dia contra o crime, mas ainda não pediu os poderes legislativos anunciados, mantém quadros de governos anteriores e levou seis dias para mobilizar três helicópteros para retirar 600 pessoas presas nas estradas do sul do país
A três semanas do início de seu mandato, Keiko Fujimori oferece ao país apenas uma torrente de imagens e palavras. Antes de assumir sua função, ela assegurou que, desde o primeiro dia, governaria com “mão forte”, colocando em prática “todos os seus planos” voltados a “derrotar definitivamente” o sicariato e a extorsão.
Alguns poderiam supor que se trata de uma estratégia, ou simplesmente de um ardil astuto destinado a surpreender os incautos. Mas não. Todos os antecedentes registrados na política nacional nos permitem deduzir que, de fato, foi projetada uma imagem de autenticidade que não foi adequadamente percebida pela população, embora tenha sido percebida por aqueles que acompanharam atentamente a trajetória da senhora K desde seus anos de juventude,

A frivolidade, a dupla face, a falsidade dissimulada, a perfídia camuflada foram traços predominantes em uma personalidade que conheceu o poder desde a adolescência.
Além disso, quem vive cercado pelo crime opta pelo camuflagem, desdobra sua personalidade, oculta seus desejos e esconde suas ações. E, na maioria das vezes, faz isso por trás de imagens e palavras.
Desde que foi conhecida a composição do Gabinete Ministerial, pôde-se observar a fragilidade do projeto de Fuerza Popular. Keiko usou uma frase — “nos deixaram uma catástrofe” — para se eximir de responsabilidade, que era o que queria, mas nomeou como titulares de diversas pastas ex-ministros ou antigos altos funcionários dos governos catastróficos aos quais aludira discretamente.
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A coisa não ficou por aí. À margem dos ministérios, ocupou os principais cargos do Estado com funcionários recrutados de administrações anteriores.
Ter trabalhado sob a égide de Dina Boluarte, José Jerí ou Balcázar foi como o salvo-conduto indispensável para ocupar uma função de destaque na administração de Keiko.
Isso demonstrou, adicionalmente, que a Senhora K não tinha — nunca teve — uma equipe eficiente para dirigir o país. Ela não tinha interesse em governar.
O que queria era ostentar o cargo presidencial para “estar no Palácio” e “exercer o Poder”. Uma maneira prática de satisfazer seu ego muito caro e sua fantasia. O problema é que agora ela não sabe como administrar a função que iniciou em 7 de junho por meios pouco legítimos.
Por isso, o que faz são visitas ostensivas “para ver” o que está acontecendo. Observa o que ocorre com os peruanos em cada cenário e até se compadece de sua sorte; mas não consegue tomar medidas, elaborar planos, programar ações ou executar obras. Não, ela não nasceu para isso.
Também desde o início de seu mandato esteve alardeando as “faculdades legislativas” que teria de pedir ao Congresso da República para governar imediatamente. Mas já se passaram 21 dias e ninguém solicitou nada referente a “faculdades delegadas”.
Inclusive o presidente do Conselho de Ministros, que compareceu à Câmara em 20 de agosto para se alongar à vontade sobre o assunto, silenciou em todos os idiomas sobre a suposta solicitação amplamente anunciada. Em outras palavras, não pediu nada.
Cada ministro fala por conta própria. E mais de um diz disparates. O ministro da Economia teve de se retratar depois de subestimar a angústia da população pelos danos causados pelos desastres naturais nos últimos dias. O responsável pelos Transportes teve de engolir um sapo com a questão dos trens de López Aliaga.
O titular do Interior deu respaldo ao chefe de polícia mais inepto e incompetente dos últimos anos, conquistando a rejeição ativa de diversos setores. O ministro da Justiça — escudeiro de Jerí em seu momento — pediu a administração do Museu da Memória, alegando que “não é museu”.
E a responsável por zelar pelo cuidado das crianças disse não saber que torturavam crianças na creche que funciona na mesma sede do INABIF. Dito de outra maneira, todos andam soltos.
E isso faz crescer o descontentamento, que já não precisa de muito tempo para fermentar. As pessoas abandonadas nas estradas bloqueadas não ficam satisfeitas quando Keiko lhes pede “paciência”. Tampouco acolhem esse conselho as esposas e os filhos dos transportadores assassinados; ou os familiares de quase 190 mortos nos 21 dias de gestão keikista.
E o pedido de “confiança” tampouco funciona, porque ninguém pode confiar em um governo tão errático e inconsistente. Por enquanto, a este só restam Martha Moyano e Fernando Rospigliosi lamentando sua sorte, embora esse lamento tenha, na verdade, uma dupla motivação: o que está acontecendo e o fato de eles não terem o controle da Câmara como tinham antes, quando podiam fazer tudo a seu bel-prazer.
E trata-se de um governo que precisou esperar seis dias para mobilizar três helicópteros e resgatar 600 viajantes presos nas estradas da costa sul do país; e que também não pode substituir o chefe da Polícia Nacional porque ele goza de uma estranha e surpreendente “estabilidade no emprego” estabelecida precisamente pelo Fujimorismo no passado recente.
Nesse contexto, quem tem a primeira responsabilidade no país aparece frivolamente em luxuosos SPAs com um homem procurado pela Justiça de seu país e de outros por cometer diversos delitos. Parece que a carga genética do sobrenome Fujimori também se impõe nessa área da vida àquela que ocupa a primeira magistratura do país e que demonstra a errática tendência de sempre se conectar com agentes criminosos.
Pelo que se vê, o wayky de Keiko não é precisamente o senhor Oscorima. É um cidadão argentino condenado por fraudes milionárias e envolvido na prática de outros crimes; e que hoje aparece como “investidor” à sombra do Poder. É o peso das palavras e a força das imagens que pretende se impor para enganar o país.
