
A China considera que a decisão, que entra em vigor em 1º de maio de 2026, não é um ato de caridade geopolítica nem uma concessão tática, mas um reposicionamento estratégico que redefine a dinâmica comercial entre as potências emergentes e o Sul Global.
Essa política de tarifa zero representa um ponto de virada histórico nas relações sino-africanas: um momento em que ambos os lados reconhecem que sua prosperidade compartilhada depende da construção de cadeias de valor integradas, da industrialização mútua e de benefícios econômicos tangíveis.
A decisão amplia os benefícios já desfrutados por 33 países africanos menos desenvolvidos desde dezembro de 2024 e agora abre as portas do vasto mercado chinês para economias mais desenvolvidas, como Quênia, Egito, Nigéria e África do Sul.
A medida consolida os esforços promovidos pelo Fórum de Cooperação China-África (Focac), plataforma que, há mais de duas décadas, vem construindo uma parceria estratégica abrangente.
As importações e exportações da China com países africanos totalizaram 885,34 bilhões de yuans (cerca de US$ 128,3 bilhões) nos primeiros quatro meses de 2026, um aumento de 19,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com dados divulgados pela Administração Geral das Alfândegas (GAC).
Novas janelas de oportunidade
O Ministério das Relações Exteriores da China destacou que a medida é um exemplo do compromisso do presidente Xi Jinping com os princípios da sinceridade, dos resultados concretos, da amizade e da boa-fé.
A isenção de tarifas para 53 países africanos que mantêm relações diplomáticas com a China representa uma nova oportunidade para as exportações africanas, afirmou Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.
A porta-voz observou que Pequim espera ver mais produtos africanos de alta qualidade e especializados em seu mercado.
Esses resultados já são evidentes. De acordo com Lyu Daliang, diretor do Departamento de Estatísticas e Análises da Administração Geral das Alfândegas, as importações chinesas provenientes da África aumentaram 11,2% nos primeiros quatro meses do ano em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Até o momento, produtos agrícolas sazonais, como maçãs, laranjas e abacates, foram liberados para importação sob a política de tarifa zero. Com seu vasto mercado, a China oferece novas oportunidades de desenvolvimento para a África, explicou Lyu.
Estímulo ao setor agrícola
O impacto sobre o setor agrícola africano é significativo. John Steenhuisen, ministro da Agricultura da África do Sul, descreveu a medida como uma mudança radical para a agricultura de seu país, especialmente diante das pressões do protecionismo global.
“Fomos um dos primeiros a desembarcar sob a política de tarifa zero, com 24 toneladas de maçãs, e obviamente isso representará uma mudança radical, pois agora podemos começar a abrir caminho nesse mercado na China, o que é muito significativo”, observou o ministro.
Steenhuisen enfatizou que, quando a demanda internacional aumenta, a oferta deve acompanhá-la, o que se traduz em expansão industrial e criação de empregos.
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Além disso, destacou que essa política ajuda a equilibrar a balança comercial, apoiada por parcerias já existentes, como o Focac e o Brics.
Um excelente exemplo dessa abertura é o café. A partir de 20 de julho deste ano, a China permitirá a entrada de grãos de café provenientes de 53 países africanos que atendam aos requisitos fitossanitários unificados, eliminando a necessidade de negociar acordos bilaterais separados.
Liu Yuxi, embaixador para Assuntos do Focac, explicou que o custo dos grãos de café africanos será reduzido entre 8% e 10%.
“A política de tarifa zero incentivará as empresas chinesas e africanas a expandir a cadeia industrial, indo além do simples cultivo e abrangendo o processamento, a torrefação e a embalagem”, afirmou o diplomata, destacando a criação de empregos e o desenvolvimento comum.
Facilitação e sinergias financeiras

Para garantir o sucesso da iniciativa, as autoridades alfandegárias chinesas implementaram medidas de facilitação. Tong Shubo, vice-diretor da divisão de inspeção da Alfândega do Aeroporto Internacional de Pequim, explicou que opera um modelo de inspeção, exame e liberação na chegada para garantir o frescor dos produtos perecíveis.
Além disso, Guo Xueyan, diretora-geral do Departamento de Cooperação Internacional da GAC, anunciou o lançamento de um sistema on-line de emissão de certificados de origem, permitindo que empresas africanas sejam dispensadas da apresentação de documentos em papel.
No setor financeiro, uma visão de longo prazo também traz resultados. Youssef Rouissi, vice-diretor-geral do banco marroquino Attijariwafa, destacou durante o Fórum de Pontes Financeiras China-África o crescimento expressivo do comércio bilateral, que passou de US$ 10 bilhões em 2000 para quase US$ 350 bilhões em 2025.
“Essa decisão demonstra mais uma vez a visão de longo prazo da China para a África”, afirmou Rouissi, destacando a importância de construir pontes e sinergias para ampliar o comércio e os investimentos.
Um catalisador para a paz e o desenvolvimento
Além do comércio, a política tarifária é vista como um motor para a estabilidade regional.
Omar Touray, presidente da Comissão da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental, considerou que a medida terá impacto sobre o desenvolvimento e a produtividade de forma geral.
“Essa política de tarifa zero provavelmente impulsionará nosso desenvolvimento, além de nos ajudar a fortalecer a paz e a segurança em nossa região”, afirmou.
Da mesma forma, Bianca Ojukwu, ministra de Estado dos Negócios Estrangeiros da Nigéria, avaliou que a iniciativa servirá como um importante catalisador para ampliar o comércio, fortalecer as relações econômicas e impulsionar a industrialização do continente africano.
Chen Yusong, vice-diretor do Departamento da Organização Mundial do Comércio (OMC) no Ministério do Comércio da China, descreveu a medida como um acordo inovador e pioneiro, destinado a enfrentar as dificuldades práticas dos países africanos.
A implementação dessa política de tarifa zero reafirma o papel da China como maior parceira comercial da África e destaca a importância do Focac como mecanismo de cooperação.
Em um contexto global marcado por incertezas, a aliança sino-africana surge como um paradigma de comércio aberto, inclusivo e mutuamente benéfico, delineando uma nova oportunidade para a prosperidade compartilhada no Sul Global.

