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Ilka Oliva Corado | Catalina sonha com uma floresta enquanto conta os minutos para sair do trabalho Diálogos do Sul Global

Nascida na periferia da Cidade da Guatemala, mãe de quatro filhos e trabalhadora exausta, Catalina enfrenta dores constantes, salário insuficiente e um sonho que insiste em sobreviver: estudar e voltar a caminhar entre árvores, cigarras e vaga-lumes

Catalina olha o relógio e faltam quinze minutos para sair do trabalho. Sente dor nos pés, nos tornozelos, nos joelhos, e as pernas ficam inchadas pela retenção de líquidos depois de passar dez horas em pé.

Nas costas sente como se tivesse lascas cravadas, uma ardência pungente que não muda de lugar; ela a descreveria como a sensação de um alfinete entrando em sua pele na velocidade em que se move a agulha de uma máquina de costura. Os pulsos das mãos estão inchados o tempo todo. Dona Bartola, que se dedica a fazer massagens e que também é parteira, disse que ela tem artrite nas mãos e que em breve isso se espalhará por todo o corpo.

Talvez seja artrite o que ela tem nos quadris, pensa todas as manhãs quando se levanta e sente uma dor intensa na cintura. A sola de um sapato tem um buraco, que ela tapa com papel de jornal; está pensando em ir até a oficina do seu Obdulio, o sapateiro, para que ele troque a sola, mas todo o dinheiro que tem está comprometido com pagamentos.

Todo dia vinte do mês, Catalina está no vermelho, pedindo dinheiro emprestado para a passagem, e não é que desperdice o pouco que ganha, é que o que lhe pagam é uma miséria.

Sonha acordada, como a maioria de suas colegas de trabalho. Algumas com uma casa própria, outras com férias, um automóvel, um trabalho em que não tenham que ficar em pé, um marido decente que não bata nelas, um pai responsável para seus filhos, dinheiro suficiente para pagar as contas e que ainda sobre para chegar ao fim do mês.

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Cidade da Guatemala – wikipedia

Todas fantasiam com um abraço, com uma carícia no rosto, nos cabelos. Com uma massagem nos pés. Com dormir três dias seguidos.

Muitas, em suas conversas durante os 20 minutos de almoço, contam que, se voltassem a nascer, não se casariam nem teriam filhos; algumas, ao ouvi-las, fazem o sinal da cruz e outras permanecem em silêncio, dizendo para si mesmas que também fariam o mesmo.

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Nem Catalina nem nenhuma de suas colegas de trabalho teve a oportunidade de estudar; chegar a esses níveis é algo inalcançável para pessoas como elas, já comentaram isso inúmeras vezes.

Mas, se tivessem tido a oportunidade, ali haveria médicas, engenheiras, professoras, químicas e Catalina, que sempre quis ser bióloga marinha. Nascida em uma casa com paredes de chapa metálica, às margens de um rio de águas negras, na periferia da Cidade da Guatemala.

A mais velha de oito irmãos, casada à força na adolescência com um homem trinta anos mais velho, mãe de quatro filhos, Catalina sonha em juntar dinheiro para comprar uma prótese dentária.

E com uma floresta perto de sua casa, onde cantem as cigarras e brilhem os vaga-lumes. Uma floresta frondosa como a dos contos que sua avó contava nas tardes em que ela a ajudava a preparar o jantar. Uma floresta com árvores grandes que encham de sombra o caminho. Uma floresta para sair para caminhar.

As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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