À toda mãe – 12/05
“Nós, as mulheres de um país, seremos ternas demais com aquelas de outro país para permitir que nossos filhos sejam treinados para ferir os delas. Do seio da Terra devastada uma voz surge junto à nossa. Ela diz: ‘desarmem, desarmem! A espada do assassinato não é a balança da justiça’”.
Essas são as palavras da autora e influente ativista do movimento pelo voto das mulheres, Julia Ward Howe, escritas em 1870 em sua Proclamação do Dia das Mães. É uma das origens do que hoje se comemora de outra maneira e sem contexto histórico. Foi um chamado radical contra a guerra logo depois de que mais de meio milhão de pessoas haviam morrido na Guerra Civil dos Estados Unidos, enquanto dezenas de milhares pereciam em outra guerra na Europa, a franco-prussiana. O Dia das Mães que ela propôs era um chamado a todas as mulheres do mundo para deter as guerras.
“Levantem-se, todas as mulheres que têm coração… Digamos firmemente: ‘Não teremos as grandes questões decididas por instâncias irrelevantes. Nossos maridos não voltarão para nós cheirando a massacre, em troca de carícias e aplausos. Nossos filhos não serão tomados de nós para desaprender tudo o que conseguimos lhes ensinar sobre caridade, misericórdia e paciência’”.
Ela convocou uma reunião internacional: “assim como os homens abandonaram o arado e a bigorna ao serem chamados para a guerra, agora as mulheres devem deixar tudo o que resta do lar para um grande e sério dia de aconselhamento. Que primeiro se reúnam, como mulheres, para lamentar e homenagear os mortos. Que solenemente aconselhem umas às outras sobre os meios pelos quais a grande família humana possa viver em paz…”.
Howe conseguiu traduzir sua proclamação para vários idiomas ao viajar por diferentes partes do mundo, promovendo um Dia das Mães pela Paz. Em junho de 1872 foi celebrado o primeiro Dia das Mães pela Paz.
“O Dia das Mães não foi criado para incentivar as pessoas a serem boas com suas mães. Foi parte do esforço das mulheres para conquistar poder e mudar a sociedade”, escreveu no dia 10 de maio a historiadora Heather Cox Richardson.
O chamado não se encontra nem é lembrado nos meios oficiais nem na grande maioria das escolas (com grandes exceções, quando resgatado por professores e outros com memória), tendo o dia sido reduzido a um gesto de “gratidão” às mães pelo negócio de cartões, restaurantes e floriculturas, além dos leilões de tudo o que possa ser vendido nesse dia nos Estados Unidos — um dos dias de maior lucro comercial do ano.
Mas as palavras são hoje ainda mais urgentes do que quando foram escritas pela sufragista há 156 anos. Agora, enquanto mães no Irã continuam buscando meninas assassinadas em uma escola primária e em outros lugares por bombas lançadas por jovens soldados com mães, irmãs e filhas obedecendo ordens de políticos que afirmam liderar uma missão divina; e enquanto armas estadunidenses fabricadas e transportadas por jovens com mães, irmãs e filhas são usadas contra mães em Gaza; ou enquanto filhos com mães, irmãs e filhas caçam mães e seus filhos imigrantes para enjaulá-los como parte de uma “guerra” contra “invasores” perigosos.
O dia também tem outra origem na região mais pobre dos Estados Unidos, Appalachia. Ann Jarvis criou um Dia de Trabalho das Mães em 1858, como parte de uma campanha para melhorar as condições de saúde das crianças, já que, de seus onze filhos, apenas quatro chegaram à idade adulta, em grande parte devido às condições de pobreza e guerra. Ela organizou mães dos dois lados da Guerra Civil para cuidar das tropas feridas e melhorar as condições. De fato, Jarvis inspirou Howe. A filha de Jarvis, Anna Jarvis, conseguiu estabelecer o primeiro Dia das Mães em 1908 em homenagem ao trabalho e aos objetivos de sua mãe, e em 1914 o Congresso declarou o segundo domingo de maio como data oficial — mas Jarvis passou seus últimos anos denunciando a comercialização desse dia.
Queen. Bohemian Rhapsody
Primeiro de Maio ressurge nos Estados Unidos – 02/04
Para a grande maioria dos estadunidenses, a história do Primeiro de Maio estava quase apagada até que foi resgatada por centenas de milhares de trabalhadores imigrantes nas mega marchas que começaram em 2005 e culminaram no Primeiro de Maio de 2006.
Com isso, os trabalhadores do mundo que chegaram aos Estados Unidos devolveram a memória a seus companheiros estadunidenses. Neste último Primeiro de Maio, o dia retornou às suas origens no movimento trabalhista e sindical, com cerca de 5 mil eventos por todo o país.
O Dia Internacional do Trabalho celebra o grande movimento nacional de milhares de trabalhadores estadunidenses e imigrantes em demanda pela jornada de trabalho de 8 horas. Em Chicago, esse movimento foi reprimido e, em um protesto contra a violência oficial contra trabalhadores, oito anarquistas foram culpados, sem evidência, de lançar uma bomba durante o confronto na praça Haymarket, com vários deles condenados à morte. Os “mártires de Chicago” e o movimento por uma jornada de “oito horas de trabalho, oito horas de descanso, oito horas para o que quiser” hoje são celebrados ao redor do mundo a cada Primeiro de Maio, menos nos Estados Unidos. Isso foi de propósito: diante das preocupações de que o dia seria politicamente perigoso, em 1894 o presidente Grove Cleveland designou a primeira segunda-feira de setembro como o Dia do Trabalho oficial para apagar o Primeiro de Maio.
No dia 1º do ano passado, nas marchas e eventos do Primeiro de Maio, algo extraordinário ocorreu: o dia foi marcado em lugares onde nunca antes havia sido celebrado. Mais ainda, as mobilizações se vincularam não apenas ao tema dos direitos trabalhistas, mas a um leque de demandas, incluindo pôr fim às medidas antimigrantes no país, frear as guerras no exterior, solidariedade com o povo palestino, repúdio contra os ataques à educação, bibliotecas e saúde pública, e a defesa dos princípios democráticos e dos direitos civis diante do avanço da direita no poder em Washington.
Nesse sentido, as mobilizações deste Primeiro de Maio se relacionaram explicitamente com as ações nacionais anteriores do Dia de Não aos Reis (No Kings Day) e com expressões contra as medidas antimigrantes ao redor do país, sobretudo na resistência exemplar em Mineápolis.
Mas não foi apenas o mosaico de demandas e consignas, mas também o dos participantes. Nas mobilizações de No Kings e outras contra a imigração, a participação tem sido majoritariamente de brancos. Entende-se a ausência de imigrantes latinos e de outras regiões do sul global, dada a ofensiva brutal contra eles e qualquer pessoa que se pareça com eles (as vítimas incluíram até indígenas estadunidenses por “parecerem imigrantes”, com toda a ironia de que são mais “americanos” do que os agentes de imigração e os políticos antimigrantes, que de fato foram os primeiros “ilegais” a chegar a estas terras sem permissão).
No dia 1º manifestou-se nas ruas o grande arco-íris e coro multilíngue deste país, em grande medida pela participação de sindicatos e organizações de trabalhadores imigrantes. E é que o movimento trabalhista neste país surge, é nutrido e seu futuro depende de imigrantes. Em Haymarket falava-se inglês e alemão, e estavam presentes irlandeses, e uma das figuras-chave ali foi Lucy Gonzalez Parsons, de origem mexicana, indígena e afro-estadunidense.
“Este é o nosso Dia do Trabalho, não o falso que foi designado por gente rica para que não recordemos nossa história. Homenageamos nossos mártires ao lutar como o inferno e continuar essa luta… Este é o momento de definição de nossa geração, assim como foi com nossos antepassados há 140 anos”, declarou em Chicago na sexta-feira o presidente do sindicato automotivo UAW, Shawn Fain.
O futuro da democracia estadunidense depende, afirmam líderes sindicais, imigrantes e políticos nacionais como Bernie Sanders, da luta social pelos direitos das maiorias contra a consolidação de uma oligarquia, assim como há exatamente 140 anos.
Tom Morello. Trilha sonora para o 1º de maio.
Nem estadunidenses veem democracia dos EUA como modelo; 7 em cada 10 desaprovam – 20/04
Os sintomas da deterioração do país mais poderoso do planeta nos últimos anos se manifestam com a concentração de riqueza mais extrema desde antes da Grande Depressão, com todas as suas consequências, o enfraquecimento de instituições e organizações sociais, sobretudo os sindicatos, o colapso do pacto social que implica o neoliberalismo, culminando na tomada do poder pela extrema-direita com uma agenda explícita para desmontar o que resta da democracia liberal.
Essa deterioração se expressa na erosão, se não no colapso, da credibilidade e da confiança nas instituições e nos processos democráticos. As pesquisas mais recentes registram a continuidade de uma tendência de desaprovação e desencanto com o sistema democrático estadunidense.

Cerca de 7 em cada 10 estadunidenses estão insatisfeitos com a forma como sua democracia funciona, relata o Pew Research Center, que também informa que a maioria dos estadunidenses considera que antes seu país era um bom exemplo a ser seguido por outros no mundo, mas isso já não é mais o caso.
Diversas avaliações da “saúde” das democracias registram uma deterioração acentuada dos Estados Unidos na última década. A avaliação anual da Freedom House mostra que a classificação da democracia estadunidense caiu mais do que a de qualquer outro país que essa organização define como “livre”, com exceção da Bulgária e de Nauru. O Índice de Democracia da Economist Intelligence Unit registra a pior classificação dos Estados Unidos desde o início dessa avaliação anual, em 2006, e, de fato, define o país como uma “democracia defeituosa”.
Apenas 16% do público estadunidense aprova a atuação do Congresso federal; 79% a desaprovam, segundo a pesquisa mais recente da Gallup realizada em março. O ocupante da Casa Branca registrou seu pior nível de aprovação desde o início de seu segundo mandato, com 38%, e 56% reprovando seu desempenho.
De fato, apenas 17% dos estadunidenses confiam que seu governo fará o que é correto sempre ou na maioria das vezes — um dos níveis mais baixos em cerca de 70 anos de pesquisas sobre esse tema, informa o Pew.
Fica claro que à liderança política do país pouco importam essas avaliações. Sabem que precisam apenas do voto de uma minoria para vencer (Trump venceu com apenas 30% do eleitorado; os legisladores de ambos os partidos fazem algo semelhante). E apostam que aproximadamente metade das pessoas com direito ao voto não o exerce. Não por acaso, múltiplas pesquisas registram que a maioria do país considera que o governo não o representa, mas sim que está a serviço dos ricos e poderosos.
Agora, com iniciativas da direita em nível federal e em vários estados para dificultar e manipular o voto — com táticas de supressão eleitoral ou redesenhando mapas eleitorais —, está sendo semeada ainda mais desconfiança de que cada voto conta e de que o sistema funciona para as maiorias.
Quase todos, segundo as pesquisas, sabem que esse sistema não funciona para expressar a vontade e os interesses das maiorias. Mas o jogo continua. Inclusive com cada vez mais arrogância, como quando Washington continua julgando os sistemas políticos de outros países e insiste que, gostem ou não, os Estados Unidos são o exemplo a ser seguido.
Isso tudo acontece com um presidente que, ao contrário de seus antecessores que seguem a tradição de construir uma biblioteca presidencial pública com seus nomes ao deixar o cargo, declarou que seu monumento provavelmente seria um hotel de luxo em Miami, afirmando: “eu não acredito em construir bibliotecas ou museus”. A maquete inclui uma torre de 47 andares, com uma estátua gigante do presidente com o punho erguido, toda de ouro, claro.
(É um alívio que também tenha sido aprovada a aceleração de esforços para o uso de drogas psicodélicas para fins médicos — isso ajudará jornalistas e outros que precisam reportar sobre tudo isso).
Talvez, antes de oferecer recomendações, receitas ou avaliações a qualquer outro país, os estadunidenses — tanto dentro quanto fora do governo — deveriam se olhar no próprio espelho e se perguntar se estão se tornando um Estado falido.
De sussurros a gritos, segue a resistência ao fascismo nos EUA – 13/04
A única coisa que salva o atual momento nos Estados Unidos é que no país não há silêncio. A colunista Rebecca Solnit escreveu no The Guardian que “os Estados Unidos estão se autodestruindo”, assinalando que “é um governo que está sabotando o funcionamento do governo federal… e jogando no lixo a economia global, as alianças e relações internacionais” e o meio ambiente, com consequências que durarão décadas.
Talvez o mais importante agora seja que, diante de toda essa destruição, guerras, repressão e violações, para não falar da anulação de direitos e liberdades civis, escutam-se gritos e sussurros — ou seja, provas de vida dentro desse povo estadunidense.
Um dia após o maior protesto nacional da história dos Estados Unidos (8 a 9 milhões em mais de 3 mil atos), o “No Kings Day” (Dia do Sem Reis), no fim de março, as expressões de dissidência e resistência se escutam e se veem em diversas frentes diante de um governo que está acusando grande parte da oposição como potenciais “terroristas domésticos” e antipatriotas.
Algumas das expressões são impulsionadas por artistas veteranos como Jane Fonda, Bruce Springsteen e outros. Fonda ressuscitou o Comitê pela Primeira Emenda — organização da qual seu pai, o ator Henry Fonda, participou contra o macartismo nos anos 1950 — para combater, segundo ela, o retorno das mesmas forças obscuras do passado. “Somos artistas, comediantes, escritores e contadores de histórias — gente que centrou suas vidas na crença de que as histórias podem salvar vidas, que o humor desarma tiranos, que a arte perdura mais que os impérios e que a voz humana, erguida em protesto, é uma das forças mais duradouras na história”, afirma o Comitê.
Springsteen está no início de uma turnê nacional explicitamente dedicada à resistência em todas as frentes — guerras, batidas antimigrantes, censura, ataques a minorias — contra os ocupantes da Casa Branca, denunciando o governo como “corrupto, incompetente, racista… e traiçoeiro”. Ao iniciar a turnê em seu concerto em Los Angeles, declarou diante da arena lotada: “Convocamos o poder justo da arte e da música, do rock & roll, em tempos perigosos” para o resgate da democracia e de seus ideais no país.
Outros gritos de resistência são liderados por pessoas até agora anônimas no cenário público, mas que agora se atrevem a enfrentar injustiças intoleráveis, por exemplo, a detenção e o encarceramento de milhares de crianças. É o caso da iniciativa “10 mil mães”, que busca fechar o Centro de Detenção Dilley, no Texas, onde estão detidos crianças e seus pais imigrantes, esforço no qual também estão lutando os deputados mexicano-estadunidenses Joaquin Castro e Greg Casar. Outros lideram esforços como as vigílias semanais de ativistas, religiosos e familiares de detidos contra a chamada Alcatraz dos Jacarés, na Flórida, e o Centro de Detenção Federal no Brooklyn.
Há também um grupo de dançarinos que se apresenta diante do renomeado Centro Trump-Kennedy e do Monumento a Lincoln, em Washington. Com camisetas com fragmentos dos arquivos do pedófilo Epstein, sobretudo os relacionados com Trump, o time apresentou uma dança furiosa e delicada sobre a violação da inocência, com olhos vendados até o final.
E agora há combinações de figuras políticas veteranas e das novas gerações, e seus aliados. É o caso do senador Bernie Sanders — o Davi contra o Golias oligárquico —, do novo prefeito socialista democrático de Nova York, Zhoran Mamdani, e da grande dirigente sindical, presidenta do sindicato dos comissários de bordo, Sara Nelson, em apoio ao fortalecimento e à ampliação do sindicalismo nos Estados Unidos como uma chave na luta democrática e na resistência contra a direita.
A história deste momento neste país não pode ser contada sem os gritos e sussurros, e enquanto esse for o caso, há (alguma) esperança.
Em nome de “Deus”: para o regime Trump, levar martírio ao Irã é missão divina – 06/04
Deus abençoou esta guerra contra os infiéis.
Deus ressuscitou o líder encarregado da missão divina.
O inimigo representa as forças do mal e Deus disse que o mesmo deve ser aniquilado.
Deus está do nosso lado, e quem se opor por definição é cúmplice do diabo.
Essas mensagens não provêm do Irã — cuja população o secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, classificou como “fanáticos religiosos lunáticos” ou “clérigos radicais”, conforme repetiu na semana passada. São declarações do próprio governo dos EUA, que cada vez mais descreve sua “missão” com termos religiosos.
Há alguns dias, na Casa Branca, a assessora espiritual do presidente estadunidense, Paula White — uma pastora cristã ultradireitista — comparou o mandatário com Jesus Cristo durante uma reunião de Páscoa com outros 100 líderes religiosos:
O senhor foi traído, preso e falsamente acusado, é um padrão familiar que nosso Senhor e Salvador nos mostrou. Mas não terminou aí para ele, e não termina aí para o senhor. Deus sempre teve um plano… Pela sua ressurreição, senhor, o senhor se levantou — porque ele foi vitorioso, o senhor foi vitorioso.Paula White
Trump observou tudo isso sem problema. Vale lembrar que no dia de sua posse presidencial, o republicano declarou: “Fui salvo por Deus para tornar a América grande novamente.”
Em 5 de abril, esse comandante-chefe “sagrado” emitiu uma mensagem repleta de palavrões ameaçando o governo iraniano de que, se não abrisse o estreito de Ormuz, a população do país persa viveria “o inferno”. Assinou a mensagem com “louvado seja Allah” e seu nome. Seguramente deixou perplexos muitos cristãos e judeus ao emitir a declaração em pleno dia de Páscoa e na semana da Páscoa judaica.

Seu secretário de Guerra, Pete Hegseth, tatuado com a Cruz de Jerusalém e outros símbolos das Cruzadas, durante um de seus serviços religiosos que celebra mensalmente no Pentágono ofereceu uma oração na qual pediu a Deus que “quebre os dentes dos ímpios” e que guie as armas contra os “inimigos do bem e de nossa grande nação”. No início da guerra contra o Irã, pediu que os estadunidenses rezassem pela vitória “todos os dias, ajoelhados, com sua família, em suas escolas e em suas igrejas, em nome de Jesus Cristo.”
Quando convocou ministros de Defesa do hemisfério ocidental, Hegseth lhes disse que enfrentavam uma “prova essencial”: se “nossas nações serão e permanecerão… nações cristãs sob Deus.”
O reverendo direitista e aliado de Trump, Franklin Graham, pregando em um serviço militar no Pentágono na época do Natal, disse que as pessoas costumam pensar em “Deus como um Deus do amor”, e em seguida acrescentou: “Mas vocês sabiam que Deus também odeia, vocês sabiam que Deus também é um Deus da guerra?”
Um representante federal, Andy Ogles, recentemente circulou uma imagem feita com inteligência artificial dele e dos secretários de Guerra e de Estado vestidos como cruzados em frente ao Capitólio, com a frase: “Esta é uma batalha do bem contra o mal. Temos que reafirmar que nossa nação foi construída sobre princípios cristãos.”
A presença do cristianismo nacionalista direitista nas mais altas esferas do poder e o uso dessa retórica estão cada vez mais presentes e explícitos, não se limitando apenas ao poder federal, mas atingindo também governos estaduais e locais, com severas consequências contra direitos e liberdades civis de mulheres, minorias raciais, a comunidade gay, imigrantes e a cultura. Soma-se a isso a retórica e a política bélicas da superpotência. Enquanto isso, pesquisas recentes calculam que apenas um terço dos estadunidenses participa ou simpatiza com o nacionalismo cristão.
O papa Leão XIV, sem mencionar nomes, pareceu responder a tudo isso em seu país em uma de suas mensagens de Páscoa, ao afirmar: Deus “não escuta as orações daqueles que fazem guerra, mas as rejeita, dizendo ‘ainda que façam muitas orações, não escutarei: suas mãos estão cheias de sangue’”.
O governo dos Estados Unidos, porém, segue repetindo a frase “Deus está do nosso lado”. Não é uma novidade, mas a situação nunca havia chegado a um ponto tão fanático e lunático.
Mentiras, fé apocalíptica e a coreografia do desastre na Casa Branca – 16/03
Cobrir o sapateado insano dentro do circo político estadunidense implica reportar uma mescla de horror e comédia quase diariamente. Às vezes, essa tarefa suscita a pergunta sobre se esse tipo de loucura é contagiosa: será que é isso mesmo que estamos reportando ou já enlouquecemos também?
Por exemplo, na sede central do circo político, de repente há algo estranho: vários integrantes do gabinete — entre eles os secretários de Estado, de Defesa e de Comércio — além de assessores e amigos do presidente, usam a mesma marca e modelo de sapato formal. Ao que parece, o chefe tem uma obsessão por esse modelo da Florsheim, de 145 dólares, e os presenteia a esses colegas, aparentemente sem sequer pedir seus números, já que em vários casos ficam grandes demais. Segundo uma fonte dentro da Casa Branca, todos se sentem obrigados a usá-los quando o mandatário está presente. Talvez isso explique, em parte, as decisões tão desconfortáveis que essa superpotência toma.

Enquanto isso, a primeira-dama fez um discurso durante um evento sobre o “mês da história da mulher”, no qual se definiu como “visionária” e se apresentou como exemplo de uma mulher que enfrenta a dificuldade de estar “sozinha no topo” para ter sucesso como “humanitária”. Afirmou: “Na solidão, minha mente criativa dança” e elogiou seu trabalho na criação de um documentário sobre si mesma.
O sapateado insano da cúpula política se evidencia em seus conflitos bélicos, na crueldade misturada com piadas sinistras, no racismo explícito e na retórica envolta em religião, chegando inclusive a classificar obscenidades militares como parte de guerras sagradas. Mais de um comentarista destacou que a loucura chegou a tal ponto que, embora em termos objetivos a aventura militar estadunidense no Oriente Médio seja um desastre, a vários dos agentes governamentais e setores de sua base isso não importa, porque realmente acreditam que esse caos faz parte do relato bíblico do Armagedom e que estamos nos dias finais do mundo, que culminarão com o retorno de Jesus Cristo.
No entanto, desastre ou não, fim do mundo ou não, é importante para muitos no governo — incluindo o chefe — que eles e seus conflitos bélicos aparentem estar bem. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, ordenou proibir fotógrafos da imprensa no Pentágono de registrarem sua imagem, porque não gostou das fotos de seu rosto publicadas (embora não tenha mencionado imagens de seus pés nos sapatos do chefe). Também criticou a CNN e afirmou que espera que se concretize a compra da empresa matriz desse canal pelo bilionário David Ellison, amigo de Trump, que também adquiriu a CBS, onde vem alterando sua linha editorial. Mais grave ainda, o comandante-chefe continua ameaçando processar jornalistas, seus veículos e até revogar licenças de certas emissoras de televisão por reportarem o que ele classifica como “fake news” sobre a forma como Washington conduz a guerra contra o Irã. Também acusou alguns meios de desejarem que os Estados Unidos “percam”.
A propaganda oficial a favor da guerra utiliza vídeos compostos por trechos de videogames, esportes profissionais, filmes de ação (incluindo Superman, Iron Man e Top Gun) e até de uma animação, misturados com imagens reais da ofensiva, nas quais se veem bombas caindo sob o título de “cortesia da [bandeira] vermelha, branca e azul”, frase de uma canção country de direita, segundo a AP.
Por outro lado, segue a luta contra o comunismo em lugares como a Flórida, onde nos próximos meses estudantes do ensino médio serão obrigados a cursar disciplinas contra essa ideologia. A medida faz parte de uma iniciativa que instituiu oficialmente no estado o “Dia das Vítimas do Comunismo”, exigindo ao menos 45 minutos de instrução sobre seus “horrores” e o caráter “destrutivo do marxismo-leninismo”.
Tudo isso faz parte da coreografia desse sapateado insano — e letal — ensaiado todos os dias neste país.
Guerra contra Crianças – 09/03
O governo dos Estados Unidos, segundo investigações independentes, assassinou 168 meninas em uma escola primária no Irã, é cúmplice da morte de mais de 20 mil meninos e meninas em Gaza e, até hoje, sequestrou e encarcerou quase 4 mil crianças imigrantes dentro de seu próprio país. É uma guerra não declarada contra crianças.
“A tolerância pela matança de crianças parece estar se ampliando”, conclui James Elder, porta-voz global do Unicef. “É como se estivesse sendo solicitado à sociedade que absorva tudo isso e siga em frente… Mas se uma criança pode ser assassinada e isso não é sentido como uma perda para todos nós, então creio que perdemos mais do que percebemos”, disse em entrevista à Al Jazeera.
Essas estatísticas não incluem dezenas de milhares de outras crianças feridas por balas e bombas que agora caem sobre “infraestrutura civil” no Irã e continuam caindo em Gaza, sem falar no impacto sobre a saúde mental — os traumas de testemunhar, ser perseguido ou ser encarcerado aos quatro, cinco, sete ou nove anos de idade.
Altos funcionários do governo, como agentes, soldados e contratados que implementam essas políticas de guerra contra crianças, não têm problema em justificá-las. O embaixador dos Estados Unidos em Israel disse que não sabe quantas crianças morreram em Gaza, mas afirmou que muitas delas haviam sido armadas pelo Hamas, deixando implícito que, portanto, mereciam morrer. Outros dizem que “o inimigo” usa crianças e outros civis como escudos humanos.
Ou mentem. O comandante-chefe dos Estados Unidos e seu secretário de Guerra foram questionados no fim de semana de 7 de março sobre a destruição da escola primária no Irã, depois que alguns meios de comunicação relataram que tudo indica ter sido um ataque estadunidense. Não apenas disseram que o caso ainda está sob investigação, como também insinuaram que tudo indicava que a responsabilidade seria do governo do Irã. O chefe do Pentágono assegurou que “nós, claro, nunca atacamos objetivos civis”.
As meninas que, poucos momentos antes, estavam brincando, rindo e estudando há uma semana na escola primária no sul do Irã já não poderão sonhar. E o mundo acaba de perder filhas de um dos berços da civilização humana — meninas que certamente estavam fascinadas com tudo: letras, números, jogos, conversas e brincadeiras. Algumas provavelmente sonhavam em ser cientistas, poetas, participantes do grande cinema iraniano, médicas, astrônomas, diplomatas, revolucionárias, ambientalistas, músicas — tudo aquilo de que o mundo precisa. Agora resta apenas a imagem de 168 pequenas tumbas.
Em Gaza, já não há palavras. Tudo está mais do que documentado. E os gritos não funcionam neste mundo demasiado surdo.
Em jaulas disfarçadas de centros de detenção nos Estados Unidos, guardas retiram os giz de cera das crianças porque elas começaram a fazer desenhos tristes sobre sua vida ao lado de seus pais encarcerados, acusados de serem “ilegais”, e a escrever mensagens perguntando por que estavam ali e pedindo ajuda para voltar às suas escolas e estar com seus amigos. Foram capturados por homens mascarados e armados. Seus pais foram algemados e, às vezes, espancados diante deles. Pediatras dizem que essas crianças sofrerão traumas físicos e mentais pelo resto de suas vidas e que devem ser libertadas imediatamente.
De que vale ser jornalista se alguém relata essas coisas e nada acontece? Dizem que contar e documentar esses fatos serve para não permitir que se tornem invisíveis, que sejam apagados — para que exista evidência e, algum dia, seja possível exigir responsabilidade dos culpados por tudo isso. Oxalá.
Não são apenas as notas e os registros audiovisuais desta guerra que não deixam dormir, mas também o fato de que nos Estados Unidos e em outros países ainda não existe um “já basta” suficientemente massivo e ruidoso para frear essa guerra contra o futuro — para que isso deixe de ser notícia.
Você lançou o pior temor
que jamais se poderia lançar:
o temor de trazer crianças a este mundo.
Ao ameaçar meus bebês,
ainda não nascidos nem nomeados,
você não vale o sangue que corre em suas veias.”Bob Dylan, em Mestres da Guerra
Postais do circo dos horrores – 23/02
Um líder do movimento do nacionalismo cristão nos EUA, Doug Wilson, foi convidado ao Pentágono pelo secretário de Guerra — o autoproclamado fanático das cruzadas cristãs — Pete Hegseth, na semana do dia 16 de fevereiro, para oferecer um sermão a militares, que também foi transmitido pela rede televisiva interna do órgão, confirmando ainda mais a integração do nacionalismo cristão dentro deste governo. Wilson afirmou que às mulheres deveria ser negado o direito ao voto, que os homens são os chefes do lar, que proprietários cristãos de escravos tinham justificativa bíblica e condena os gays. Também declarou que “não há salvação sem derramamento de sangue” e proclamou que os Estados Unidos foram “cristãos desde seu início”.
Por outro lado, para aqueles que ainda têm dúvidas, um comunicado oficial da Casa Branca traz o seguinte título: “O presidente Trump estava certo sobre tudo.”
Na reunião inaugural da chamada Junta de Paz — sua suposta alternativa à Organização das Nações Unidas — Trump obrigou os representantes de cerca de 20 países membros (sem incluir aliados históricos, mas incluindo o presidente da Fifa) a posar para uma foto enquanto tocava a canção pop Gloria, sucesso dos anos 1980 — ninguém explicou a escolha musical. Trump falou pouco sobre o tema da paz, mas se estendeu em outros assuntos, como a alta da bolsa de valores, e elogiou parcialmente o presidente do Paraguai, comentando que “sempre é bom ser jovem e bonito, mas isso não significa que temos que gostar de você. Eu não gosto de homens jovens e bonitos, gosto de mulheres” (risos).
O emblema da Junta de Paz é muito semelhante ao da ONU, mas com uma diferença: os Estados Unidos ocupam o centro e tudo é dourado. Falando em ouro, cada país interessado em tornar-se membro permanente foi convidado a pagar um bilhão de dólares à entidade. Todo o evento foi realizado no edifício do Instituto para a Paz dos Estados Unidos, agora renomeado como “Instituto para a Paz Donald Trump”.
Na Filadélfia, depois que o governo Trump ordenou o desmonte de uma exposição permanente oficial sobre a escravidão na história do país, trabalhadores retornaram para reinstalá-la por ordem de um juiz federal. A exposição documenta a vida de nove africanos escravizados que trabalharam na residência do primeiro presidente do país, George Washington. O governo Trump está recorrendo da decisão, por se opor a que museus e outros centros culturais apresentem conteúdos que considere antiestadunidenses ou que, segundo sua avaliação, não promovam o patriotismo.
Enquanto isso, há anos — e ainda hoje — escolas públicas dos Estados Unidos, do jardim de infância ao ensino médio, realizam simulações para treinar estudantes, professores e funcionários sobre o que fazer caso uma pessoa armada invada a escola. Um dos documentários indicados ao Oscar neste ano, All the Empty Rooms, oferece um retrato das vidas de crianças mortas por tiros em suas escolas, mostrando como estão hoje seus quartos vazios.
Agora, em várias escolas, existe mais um exercício: o que fazer caso agentes de imigração apareçam.
“Toda essa epopeia Epstein expôs a mentira no centro do projeto político de Trump… de que esse homem realmente se importava ou queria fazer algo para ajudar os estadunidenses da classe trabalhadora ou média”, comentou recentemente o senador democrata Jon Ossoff, declarando que “este é um governo de, por e para os ultrarricos… esta é a classe Epstein governando nosso país”.
Ah, talvez isso resolva o mistério de por que tocavam o sucesso pop Glória no evento da chamada “pax trumpiana” — cuja letra inclui:
Glória, você está sempre correndo agora… acho que precisa desacelerar
acho que está caminhando para um colapso
então cuidado para não demonstrar… estão chamando as vozes em sua cabeça, Glória
Glória, você não acha que está caindo?
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