A acusação dos Estados Unidos contra Raúl Castro, anunciada em maio de 2026, tenta vender ao mundo uma velha história com embalagem nova: a de que Cuba teria cometido um ato brutal, isolado e sem antecedentes contra aviões civis dos Irmãos ao Resgate (Brothers to the Rescue/Hermanos al Rescate) em 24 de fevereiro de 1996. Mas os documentos desclassificados da própria Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês) dos EUA, publicados pelo National Security Archive, desmontam a construção narrativa.
Eles mostram outra coisa.
Mostram que Washington sabia. Sabia dos voos, das provocações, das violações do espaço aéreo cubano e sabia que aquilo poderia terminar em tragédia. Um mês antes do abate, uma funcionária da FAA registrou o “pior cenário”: “um dia os cubanos vão derrubar um desses aviões”. Não era astrologia. Era o reconhecimento burocrático de uma crise fabricada e tolerada dentro do território dos Estados Unidos.

Washington sabia dos riscos
A ofensiva atual contra Raúl Castro não nasce do nada. O Departamento de Justiça dos EUA afirma que o ex-presidente cubano, então ministro das Forças Armadas Revolucionárias, teria participado da cadeia de comando que autorizou o uso de força letal contra os aviões dos Irmãos ao Resgate. A acusação inclui conspiração, destruição de aeronaves e homicídio. Mas o próprio Departamento de Justiça reconhece que uma denúncia criminal é uma alegação, não uma condenação.
Essa distinção importa. E muito.
Porque Washington está transformando uma acusação judicial em peça de guerra política ao reabrir um caso de três décadas para personificar em Raúl Castro — aos 94 anos — uma nova etapa da agressão contra Cuba.
Os Cinco Heróis e a mesma arquitetura jurídica
O episódio dos Irmãos ao Resgate também atravessa outro capítulo decisivo da guerra dos EUA contra Cuba: o processo contra os Cinco Cubanos, escrito por Fernando Morais no livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria. O livro-reportagem reconstitui a atuação da Rede Vespa, grupo de agentes cubanos infiltrados em organizações anticastristas de Miami nos anos 1990 para monitorar ações violentas contra a ilha.
Os personagens centrais são Gerardo Hernández, Ramón Labañino, Antonio Guerrero, Fernando González e René González. Presos pelo FBI em 1998, eles foram julgados em Miami, no coração político do exílio anticastrista. Gerardo recebeu a punição mais dura: duas prisões perpétuas, uma delas baseada na acusação de suposta conspiração ligada ao abate dos aviões dos Irmãos ao Resgate em 1996.
É esse elo que torna a ofensiva atual ainda mais reveladora. Três décadas depois, Washington retoma a mesma arquitetura jurídica: transforma a provocação de grupos anticastristas em crime cubano, apaga os alertas ignorados pelos EUA e desloca o alvo. Antes, Gerardo Hernández. Agora, Raúl Castro.
Fernando Morais, que estudou o caso em profundidade, afirmou à BBC News Brasil ter recebido com “espanto” o indiciamento de Raúl e classificou a medida como “mais uma manifestação delirante” de Donald Trump.
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O escritor situou a ofensiva no mesmo repertório de operações políticas utilizadas contra a Venezuela: a criminalização internacional de dirigentes, a pressão judicial como arma diplomática e a tentativa de produzir condições para uma captura ou sequestro político, como Washington tentou fazer contra Nicolás Maduro. A diferença, advertiu Morais, é que Cuba não é terreno fácil para esse roteiro. Pelo que conhece dos cubanos, disse ele, “o resultado não será semelhante”.
Irmãos ao Resgate: de missão humanitária a provocação
Os Irmãos ao Resgate foram uma organização de exilados anticastristas cubanos sediada em Miami e fundada por José Basulto no início dos anos 1990. Nasceram sob uma bandeira humanitária: localizar balseros cubanos no Estreito da Flórida e auxiliar operações de resgate.
Mas essa origem não explica toda a sua trajetória. À medida que a crise migratória se transformava em arma política contra Havana, o grupo passou a atuar como braço de confronto do anticastrismo da Flórida. Seus aviões não apenas buscavam náufragos: realizaram sobrevoos não autorizados sobre Cuba, lançaram panfletos e materiais de propaganda sobre Havana e desafiaram deliberadamente a soberania aérea da ilha.
É aí que a documentação dos próprios Estados Unidos se torna decisiva. Relatórios e cronologias da FAA mostram que José Basulto e os Irmãos ao Resgate foram advertidos repetidas vezes pelas autoridades estadunidenses. Washington sabia que aquelas incursões não eram neutras. Sabia que carregavam risco político e militar. Sabia que poderiam provocar uma resposta cubana.
Na leitura de Fernando Morais, em Os últimos soldados da Guerra Fria, o grupo fazia parte do ecossistema de organizações anticastristas de Miami infiltrado pela Rede Vespa, formada por agentes cubanos enviados para monitorar e prevenir ações contra a ilha. Por isso, reduzir os Irmãos ao Resgate a uma simples organização humanitária, como tentam fazer os EUA, significa apagar a função política que assumiram nos anos 1990: a de instrumento de pressão, propaganda e afronta direta à soberania cubana.

Os Irmãos ao Resgate não realizavam apenas missões humanitárias. Os documentos mostram que o grupo liderado por José Basulto desrespeitava planos de voo, realizava incursões provocativas e chegou a lançar materiais sobre Havana. A FAA havia advertido Basulto repetidas vezes. O Departamento de Estado pressionou para impedir novos voos. Ainda assim, os EUA não contiveram o grupo.
Essa é a contradição central: os Estados Unidos apresentam o caso como se Cuba tivesse agido diante de aviões inocentes, surgidos do nada no céu do Caribe. Mas seus próprios registros provam que havia histórico, tensão acumulada e alertas ignorados.
Cuba denunciava as violações antes da tragédia. Segundo Havana, foram mais de 25 incursões graves e deliberadas entre 1994 e 1996, denunciadas ao Departamento de Estado, à FAA e à Organização da Aviação Civil Internacional. A declaração do governo cubano de maio de 2026 classificou a acusação contra Raúl como provocação política e defendeu que a resposta de 1996 se deu no marco da soberania aérea e da legítima defesa.
Há ainda um dado explosivo: no próprio dia do episódio, a cronologia da FAA registra comunicações em que controladores cubanos advertiam sobre o perigo de penetrar a zona ao norte de Havana. Basulto sabia do risco. Ainda assim, decidiu avançar.
Isso não elimina a disputa sobre o ponto exato do abate — tema usado pelos EUA para sustentar sua versão de águas internacionais. Mas destrói a narrativa de surpresa e a ideia de uma reação sem contexto. Mas mais importante: desmonta a tentativa de apagar o papel dos próprios EUA na criação das condições que levaram à crise.

Documentos desmontam a encenação
O que Washington chama de “justiça” é, na prática, reciclagem imperial de um episódio que já serviu para endurecer o bloqueio nos anos 1990. Depois do abate, Bill Clinton transformou a crise em munição política para sancionar a Lei Helms-Burton, blindando juridicamente o cerco econômico contra Cuba. Agora, em 2026, a mesma engrenagem volta a operar: acusação criminal, sanções, pressão diplomática e construção de consenso midiático contra a ilha.
Não por acaso, a acusação contra Raúl aparece em meio a uma escalada mais ampla. Em junho, Washington impôs novas sanções contra o presidente Miguel Díaz-Canel, sua esposa, membros da família Castro e estruturas vinculadas ao Estado cubano. A embaixadora cubana nos EUA denunciou que a ofensiva tenta criar um pretexto para uma ação mais agressiva contra a ilha.
É o velho método: primeiro se fabrica a narrativa moral. Depois se apresenta a punição como consequência inevitável.
Os documentos da FAA não absolvem automaticamente Raúl Castro. Não dizem isso. O que fazem é politicamente devastador para Washington: demonstram que os EUA sabiam que os Irmãos ao Resgate eram um fator de provocação, que autoridades tentaram conter os voos e que a inércia estadunidense ajudou a empurrar a crise para o ponto de ruptura.
A narrativa dos EUA depende do apagamento desse contexto. Precisa que os Irmãos ao Resgate apareçam apenas como civis desarmados e humanitários. Precisa que Cuba apareça como agressora irracional. Precisa que o Caribe pareça um vazio sem história, sem soberania, sem bloqueio, sem sabotagem, sem décadas de operações anticastristas financiadas ou toleradas a partir da Flórida.
Mas os documentos furam essa encenação.
